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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Coragem de pensar

LUZES DA CIDADE 

CORAGEM DE PENSAR 

Os amigos e as esperanças. Tudo que há de melhor. Mas chega o dia em que a gente precisa abandonar a lembrança de rostos antigos, para se sentir só, muito só, e se entregar ao deleite de pensar. Bem haja, na maturidade de cada um de nós, certo período de consentida solidão, como terapêutica para o espírito. É a maneira lógica de restabelecer as proporções que o mundanismo obsessivo distorce em nossa íntima escala de valores. 

- A solidão é como a chuva! - dizia Unamuno. - Faz brotar da alma algumas velhas sementes adormecidas. 

Há os que sabem amar os seus longos momentos de solidão, porque neles mesmos se retemperam. E há os mais numerosos, os desprovidos de mundo interior, os que se assustam diante de uma simples perspectiva de isolamento, os que necessitam da grande convivência social, porque aprenderam a existir apenas em função da exterioridade dos outros. São os bem-aventurados. Gilberto Amado, um gregário episódico, costuma dizer: - Certas pessoas têm a propriedade de nos interromper a boa solidão sem chegar a nos fazer companhia. 

E eis aí a essência do nosso modesto pensamento sobre os bons e os maus limites da convivência humana. É estranho, mas encontramos, na maturidade, uma cruel agudeza. Esta que nos revela, como sob as lentes de um microscópio, a frivolidade de certas pessoas. Homens e mulheres frívolos, os alcalóides da sociedade! Vale reter na memória este fragmento de Gustavo Corção, perfeitamente adequado ao desfecho da crônica: 

- "A moça bonita, quando sorri à toa, quando faz trejeitos de faceirice e fala sem propósito, parece uma flor da humanidade, um espetáculo estimulante, uma fonte de alegria. Na verdade, porém, sua futilidade é uma coisa lúgubre. Já observaram essas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto? Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade. 

O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo isso em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras do meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida. 

O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta-se um botão e ele diz 'bom dia' encarquilhando os músculos da face. Aperta-se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos". 

Estranhamente, confunde-se frivolidade com bom humor ou simpatia e convive-se com ela. Aos poucos essa doença nos vai consumindo o espírito, reduzindo nossa sensibilidade, entorpecendo o centro das nossas reações legítimas, até que um dia nos encontramos coletivizados pela mecanização das atitudes, dizendo todos as mesmas palavras convencionais e atribuindo valor a três ou quatro bezerros de ouro, esquecidos do infinito de possibilidades da mente sã. 

E então, no fim de uma noite, com muito champanha, viramos rinocerontes. 

Ah! Que Deus nos devolva, em tempo útil, o amor à benfazeja solidão. A perdida coragem de pensar!

(José Alberto Gueiros, texto publicado na Revista "O Cruzeiro", 1965)

domingo, 8 de dezembro de 2024

Lição de vida

 O dia mais belo? Hoje

A coisa mais fácil? Errar

O maior obstáculo? O medo

O maior erro? O abandono

A raiz de todos os males? O egoísmo

A distração mais bela? O trabalho

A pior derrota? O desânimo

A primeira necessidade? Comunicar-se

O que traz felicidade? Ser útil aos demais 

O maior mistério? A morte

O pior defeito? O mau-humor

A pessoa mais perigosa? A mentirosa

O pior sentimento? O rancor

O presente mais belo? O perdão

O mais imprescindível? O lar 

A rota mais rápida? O caminho certo

A sensação mais grata? A paz interior

A maior satisfação? O dever cumprido

A maior proteção efetiva? O sorriso

O que nos torna mais humanos e tolerantes? A dor

Os melhores professores? As crianças 

O maior remédio? O otimismo 

A força mais potente? A fé

As pessoas mais necessárias? Os pais

A mais bela de todas as coisas? O amor

(Madre Teresa de Calcutá)

sábado, 9 de novembro de 2024

Ainda estou aqui

Era uma família feliz. Moravam todos no Rio de Janeiro em uma casa em frente à praia. Em uma casa grande o suficiente para o casal e seus cinco filhos, quatro meninas e um menino, sendo que o caçula chama-se Marcelo Rubens Paiva, escritor já conhecido do público. Era uma casa afetiva, que recebia muitos amigos para almoços, festas, conversas e confraternizações. Mas a felicidade durou somente até o dia 20 de janeiro de 1971, quando a violência do Estado repressor adentrou as portar daquele lar. O chefe da família, marido de Eunice e pai da criançada, Rubens Paiva, foi levado para interrogatório, sem apresentação de mandado, por homens que se diziam da Aeronáutica. Ele nunca mais voltou. Rubens Paiva foi um dos 136 desaparecidos políticos do período do Regime Militar no Brasil (1964-1985).

O filme "Ainda estou aqui", de Walter Salles, baseado na obra literária homônima de Marcelo Rubens Paiva, conta o drama de uma família durante o período da Ditadura, cujo chefe da família é levado pelos militares e nunca mais retorna. Rubens Paiva tinha 41 anos quando foi preso em sua casa e conduzido coercitivamente. Sua mulher, Maria Lucrécia Eunice Facciolo Paiva, junto com uma das filhas, também foi levada para interrogatório e submetida a tortura. Mas ao final de prisão, sem direito a banho, foi solta. Sobreviveu, juntou os cacos da sua alma, reergueu-se, vendeu a casa do Rio de Janeiro e acabou de criar os cinco filhos. O filme é sobre essa mulher corajosa que teve que se reinventar depois do desaparecimento do marido. 

Suponho que Marcelo Rubens Paiva quis escrever essa história como uma terapia, para conseguir digerir a violência sofrida pela família e a história da mãe. As vezes o escritor escreve para purgar a dor, ou para entender o que se passou. Aqui ele escreveu a história de Eunice, sua mãe. Soube que, no livro, Marcelo escreveu a história em primeira pessoa, contando também detalhes sobre a vida da mãe e a doença de Alzheimer que a acometeu. Já no longa-metragem, a história é contada sob a perspectiva de Eunice Paiva. Em entrevista, Marcelo conta que, fora a atuação estupenda de Fernanda Torres, que ganhou vários prêmios ao redor do mundo,  a atuação de Selton Mello impressionou a ele a às suas irmãs, pois Selton, somente pela leitura do livro, soube captar a alma de seu pai, encarnando o engenheiro de uma forma muito realista.

Rubens Paiva foi deputado federal pelo PTB; todavia, com o Golpe Militar, foi cassado no dia 10 de abril de 1964, por força do Ato Institucional nº 1. A partir de 1966, já sem mandato parlamentar, começou a trabalhar em uma empresa de engenharia. Era, portanto, um profissional liberal. Não havia mais atividade política direta. De concreto, ele e mais meia dúzia de amigos, ajudavam exilados no Chile a se comunicar, por cartas, com seus familiares no Brasil.

O filme é excelente. A reconstituição de época é impressionantemente bem feita. Somos transportados para a década de 1970. As roupas, as casas, os carros, o jeito de ser... tudo! Trata-se de uma história pessoal de Walter Salles também, pois ele era amigo de uma das filhas de Eunice Paiva e frequentava aquela casa cheia de vida. A trilha sonora, inclusive, é bem interessante. Tem Tom Zé, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Gosta. 

O longa, depois de metade do filme, faz um corte. Depois de 25 anos, em 1996, o filme mostra Eunice e dois filhos indo para o Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, para buscar a certidão de óbito de Rubens Paiva.  Em pesquisa ao CPDOC da FGV, consta que José Gregório, chefe de gabinete do ministro da Justiça Nélson Jobim, declarou à imprensa, à época, "que o governo fez o 'mínimo que as famílias precisam e o máximo que os militares aceitariam'. Nesses termos o presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) assinou, em dezembro de 1995, a Lei 9.140, autorizando a emissão de atestados de óbito que regularizassem o estado civil das famílias dos desaparecidos, e o pagamento de indenizações". Ainda segundo o CPDOC, "[e]m 23 de fevereiro de 1996 a União expediu a certidão de óbito de Rubens Paiva, declarando-o desaparecido desde 1971. A família abriu mão do direito à indenização a ser paga pelo governo".  

Então o filme é sobre o desaparecimento de Rubens Paiva e sua família, mas, sobretudo, o longa é sobre Eunice Paiva e a força de uma mulher que ficou viúva de repente, com 5 filhos para criar.  Com o desaparecimento súbito do marido, o dinheiro secou. Ela teve que vender um terreno, despedir a empregada e mudar a família do Rio de Janeiro para São Paulo, para perto dos avós. Uma mudança prática, necessária, mas doída para os filhos. Ao mudar-se para São Paulo, Eunice Paiva cursou Direito e, depois de formada, foi uma das pioneiras a dedicar-se à defesa jurídica da causa indígena. Um feito notável. Após o término da sessão de cinema o público aplaudiu. Coisa raríssima de acontecer.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

A Casa Tody

Quando eu era criança minha mãe me levava pela mão em uma loja especial para comprar sapatos. Mas não era uma loja qualquer. Era o templo dos sapatos infantis. Era um lugar bem tradicional. Era uma sapataria no começo da Rua Augusta, em São Paulo. Minha mãe me levava na Casa Tody para comprar sapatos ortopédicos nos anos 70 e 80. Todo ano ou a cada dois, íamos lá para comprar os benditos sapatos ortopédicos (um terror para meus colegas de futebol na escola, porque rendia caneladas bem doídas). Era uma loja enorme, com pé direito alto, piso atapetado e paredes de madeira. Os clientes se sentavam nos bancos que haviam no centro da loja e dava pra ver centenas de caixas de sapatos, que ficavam em buracos nas paredes, desde o chão até o teto, bem ao estilo anos 70. Eu usava os tais sapatos ortopédicos porque tinha escoliose e uma perna mais curta que a outra. A loja vendia calçados infantis de couro clássico. Era um lugar sagrado e eu não sabia. Neste ano de 2024, fiquei sabendo pelos jornais que a loja fechou depois de 70 anos de bons serviços prestados. A loja foi comprada e vai virar um prédio. Me deu um enorme saudosismo, como se estivesse em uma cena de "Cinema Paradiso". Tudo muda. Nada é para sempre.

domingo, 13 de outubro de 2024

A História por meio dos filmes

A melhor maneira de estudar história é pelos livros. Isso não impede, todavia, de se complementar o estudo da história com filmes. Como cinéfilo, listei alguns filmes e documentários que assisti ao longo da vida. Os filmes listados, se não falam de fatos e/ou processos históricos propriamente ditos, remontam uma época histórica. E isso já vale a pena. 

A guerra do fogo - Jean-Jacques Annaud

Abraão - Joseph Sargent

Moisés - Roger Young

José - Roger Young

David e Betsabá - Henry King

Sansão e Dalila - Cecil B. DeMille

Troia - Wolfgang Petersen

Alexandre - Oliver Stone 

Gladiador - Ridley Scott  

Spartacus - Stanley Kubrick

Ben-Hur -William Wyler 


O Rei dos Reis - Nicholas Ray 

Ressurreição - Kevin Reynolds

Pedro - Giulio Base 

Cruzada - Ridley Scott  

El Cid - Anthony Mann

Irmão Sol, Irmã Lua - Franco Zeffirelli 

Robin Hood - Ridley Scott 

Coração Valente - Mel Gibson 

Joana D'Arc -Victor Fleming

O Nome da Rosa - Jean-Jacques Annaud

Elizabeth - A Era de Ouro - Shekhar Kapur

Lutero - Eric Till

Amadeus - Milos Forman

A missão - Rolland Joffé 

 

Tempo de glória - Edward Zwick  

Danton - o processo da revolução - Andrzej Vajda

Napoleão - Yves Simoneau 

O jovem Karl Marx - Raoul Peck

Criação - Jon Amiel  

Era uma vez no Oeste - Sergio Leone 

O último samurai - Edward Zwick

1917 - Sam Mendes

Carruagens de fogo - Hugh Hudson 

Tempos modernos - Charles Chaplin

O discurso do Rei - Tom Hooper  

Os intocáveis - Brian de Palma 


Círculo de fogo - Jean-Jacques Annaud

A lista de Schindler - Steven Spielberg  

O resgate do soldado Ryan - Steven Spielberg 

O pianista - Roman Polanski

Gandhi - Richard Attenborough

Xingu - Cao Hamburger

Todos os homens do presidente - Alan J. Pakula- 

Eles não usam black-tie - Leon Hirszman 

A Dama de Ferro - Phyllida Lloyd 

Diamante de sangue - Edward Zwick

The Post - Steven Spielberg 

Adeus Lenin - Wolfgang Becker

Mandela - luta pela liberdade - Bille August 

Cidade de Deus - Fernando Meirelles 

A rede social - David Fincher 

A grande virada - John Wells

 Dois papas - Fernando Meirelles 

sábado, 27 de julho de 2024

A indústria do cinema

Quando eu era adolescente e lia sobre cinema no Caderno2 do Estadão, nos anos 80 e 90, lembro dos artigos de Ruy Castro e outros colunistas relatando a vida de atores, como Marlon Brando, por exemplo, que eram rebeldes e não se dobravam à indústria do cinema. Histórias de atores que não topavam fazer um filme puramente comercial ou se vender para o sistema, como se dizia na época. Eu achava aquilo o máximo. Vibrava com a resistência de um só indivíduo à toda uma indústria que moía carne e espíritos para fazer dinheiro. Hoje isso já não é mais possível. Pois se antes a indústria do cinema poderia ser comparada a um Golias ou um Godzilla, que poderia ser derrotada, agora virou uma Matrix invencível que a tudo e a todos engole. 

Depois, com o tempo, fui descobrindo aos poucos o que significava aquela indústria. Já sabia que a indústria do cinema sacrificava a criatividade, a beleza e boas histórias em prol do lucro máximo. A história do cinema é demasiada longa e não é nossa intenção fazer um resumo aqui. Mas, de uns tempos pra cá (mais de uma década, pelo menos), venho me desiludindo com o cinema, que só lança filmes de super heróis, histórias da Marvel e sequências. Não tem mais filmes bons, criativos e surpreendentes como antigamente, como Era uma vez na AméricaO selvagem da motocicleta, Rocky - o lutador, Rain ManO nome da Rosa, Os intocáveis, Dança com lobos, Nada é para sempre, Os imperdoáveis etc. Parece que acabaram as boas histórias ou todos os bons roteiristas foram demitidos de Hollywood. Blockbusters sempre existiram, eu sei, mais isso não impedia de haver excelentes filmes, fossem eles independentes ou não. 

No livro Impérios da Comunicação (The Master Switch), Tim Wu conta como o fracasso de um filme (Portal do Paraíso, Michael Cimino) levou à derrocada da United Artists nos anos 80 e fez com que, para se proteger de falências, estúdios de Hollywood se unisse a outras mídias para se proteger e formar o que se convencionou chamar de conglomerado de mídia, salvaguardando-se de desastres financeiros por um lado, mas matando a sétima arte ao tirar-lhe oxigênio, coração, criatividade e sensibilidade artística. De lá para cá tudo piorou muito quando novas fusões da indústria cultural ocorreram. 

Tim Wu escreve: "A derrocada da United Artists no início dos anos 1980, seguida pelo segundo fechamento da indústria cinematográfica, representa mais um giro do Ciclo e o começo de uma nova ordem que dura até hoje. Foi o momento de triunfo de outro tipo de abordagem, que coincidiu com a emergência do conglomerado de mídia. Seu herói máximo foi um homem chamado Steven Ross, ex-agente funerário que inaugurou uma nova maneira de organizar a indústria de entretenimento. Diferente de uma empresa autossuficiente como a United Artists, a Warner Communications (hoje Time Warner Inc.) abrigava dezenas de mídias e diversas atividades sob o mesmo teto. Essa perspectiva se difundiria pelos anos 1980 e 1990, para se tornar dominante na organização industrial de cinema, músicas, revistas, jornais, publicação de livros - em todas as formas de conteúdo que já foram chamadas de "lazer". (...) O conglomerado é a forma organizacional dominante nas indústrias da informação do final do século XX e começo do XXI" E, se por um lado pode proporcional estabilidade e segurança financeira, por outro lado, o conglomerado pode sufocar a criatividade, apenas preocupado em maximizar os lucros. 

Tim Wu explica o fenômeno por trás do desenvolvimento da propriedade intelectual e da estratégia já conhecida das sequências de sucessos comprovados como Tubarão, O Exterminador do futuro e Rambo para fazer mais dinheiro: "Nos anos 80, começou a surgir outra variante dessa abordagem, em que os filmes podem ser considerados um sistema de cessão de um direito autoral subjacente. Nessa abordagem, todos os filmes estão ancorados a uma propriedade intelectual subjacente, em geral um personagem, seja cinematográfico ou extraído de uma revista em quadrinhos, como Batman ou de uma figura literária como Harry Potter. Dessa forma, o filme é ao mesmo tempo um produto em si mesmo e também, de fato, uma propaganda de noventa minutos dessa propriedade subjacente. O retorno não inclui apenas a receita da bilheteria como também a valorização da propriedade e das receitas associadas ao licenciamento - merchandising, lançamento de brinquedos ligados aos filmes e outros derivados". 

Nessa tranformação, o cinema perde muito como arte. O cinema, 100 anos depois da criação dos grandes estúdios, não consegue mais emocionar platéias, apenas fazer barulho com explosões, super-heróis e preocupado com o merchandising de seus produtos. A indústria cultural na área do cinema repete velhas fórmulas sob uma nova roupagem. Apenas mais do mesmo. Nada que pudesse causar espanto em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Privilegia-se a forma e a variedade de produtos em detrimento do conteúdo. Privilegia-se a segurança financeira em detrimento da criatividade artística e do conteúdo original. 

domingo, 28 de abril de 2024

A marcha para o oeste brasileira

 

O livro Brasília Kubitschek de Oliveira, Ronaldo Costa Couto, 6ª edição, rev. - Rio de Janeiro: Record, 2010 conta a história de como Brasília foi idealizada, concebida e construída. Também narra a vida do presidente que foi o responsável por colocá-la de pé: Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina/MG. Não é propriamente uma biografia de JK, mas traz informações sobre sua formação e trajetória política.

A cidade de Salvador, na Bahia, foi a primeira capital do Brasil, entre 1549 e 1763. Ainda era o Brasil Colônia. Naquele tempo, por conta da economia açucareira, o nordeste tinha grande destaque. Posteriormente, devido ao deslocamento do eixo do desenvolvimento do nordeste para o sudeste, o Rio de Janeiro passou a ser a capital do Brasil entre 1763 e 1960.

Mas o autor conta que a ideia de tirar a capital do Rio de Janeiro já vinha de longe; pelo menos desde a Inconfidência Mineira, sendo que "[n]os  planos da Conjuração, que não se completaram, estavam a Independência (só vinda em 1822), a República (só proclamada em 1889) e também a nova capital: a vila de São João Del Rei. Os inconfidentes, como se sabe, foram descobertos pelos portugueses, severamente punidos e o sonho de um Brasil mais independente, republicano, justo e solidário foi adiado.  

O tempo passou... Já no século XX, sob o período político que vai de Getúlio a Castello, pergunta-se: por que JK decidiu construir a capital do Brasil em pleno sertão goiano? Juscelino concordava com o diagnóstico do historiador Frei Vicente de Salvador, para quem a população brasileira mais parecia uma população de caranguejos, a andar somente pelo litoral, estando convicto da necessidade de uma marcha para oeste, de conquistar o sertão e povoar o centro do Brasil para levar o desenvolvimento para outras partes do território brasileiro. Na década de 1950, Goiás era um sertão rústico. 

Além disso, houve uma outra razão. Antes e depois do suicídio de Getúlio Vargas, a pressão política era tamanha no Rio de Janeiro, principalmente da imprensa e da UDN (extrema direita), que a governabilidade a partir do Rio, com os ataques políticos diários, passou a ser praticamente impossível. JK sabia disso e sabiamente transformou o projeto da mudança da capital como a metassíntese do seu governo. Lembremos que após a eleição de JK como presidente da República, houve uma tentativa de golpe para impedir a sua posse, que somente não se realizou graças a intervenção do general Lott, um legalista, então ministro da Guerra. Tancredo Neves conta que o suicídio de Getúlio Vargas teve como consequência a eleição do Juscelino e adiou o golpe de 1964. Mas o clima político-militar do Rio de Janeiro na década de 1950 era muito pesado e ameaçador. Juscelino sabia disso. A saída foi levar a capital para o planalto central, não só para dar condições de governabilidade, mas para cumprir a Constituição e desenvolver o Centro-Oeste.

De mais a mais, já havia um consenso que o Planalto Central era o ponto destinado à construção da nova capital. Conta-se que Dom Bosco, santo italiano que migrou para o Brasil e fundou a Congregação Salesiana, certa vez teve um sonho místico que anotou. O santo conta que foi arrebatado em sonho por anjos e viajou com eles sobrevoando a América Latina, onde via riquezas incomparáveis e, entre os paralelos 15 e 20 graus havia um leito muito largo e uma voz dizia: "Quando escavarem (...) aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel". Posteriormente, a Constituição de 1891 já previa a mudança da capital para o planalto central. Só não estabelecia prazo. E durante o governo de Getúlio Vargas, uma equipe de engenheiros e geólogos fez o estudo onde seria o melhor lugar para a construção e verificou-se que o local mais adequado, coincidentemente, seria entre os paralelos e os meridianos já anotados no sonho de Dom Bosco.

Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu em Diamantina/MG, em 1902. Filho de professora primária e de um caixeiro-viajante, foi um aluno aplicado na escola.  JK foi seminarista e telegrafista. Após muito estudo, passou na faculdade e formou-se em medicina. Em 1931 casa-se com Sarah Gomes de Lemos, de família abastada e filha de um deputado. Juscelino começa a exercer a medicina e depois entra para a política. Foi prefeito, deputado federal e governador, antes de ser eleito presidente da República. JK era muito alegre, festeiro, gentil e entusiasmado pela vida. Conta-se que JK dançava muito bem e era conhecido como um "pé de valsa". Além disso, era um homem realizador; aproveitava o tempo da melhor maneira possível para concretizar seus planos. 

O livro conta a epopeia que foi a construção de Brasília, que não tinha nada, nenhuma vila, mercearia, padaria, telefone, luz elétrica, água encanada, nada! Muito menos estradas, ministérios e aeroporto. Tudo teve que ser feito do zero. As dificuldades iniciais eram imensas. Contudo, também imenso era  entusiasmo de Juscelino com suas constantes viagens de avião Rio-Brasília,  para acompanhar e incentivar a construção da nova capital, com a direção pela Novacap. Ninguém faz nada sozinho. A obra dá conta disso e descreve a construção da capital pelos valorosos candangos (operários) e pela colaboração de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Affonso Heliodoro, Darcy Ribeiro, dentre muitos outros até, finalmente, a inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960. 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Buenos Aires

Buenos Aires é uma cidade linda! Uma referência em urbanismo. Parece a Europa. As avenidas são largas e contrastam com umas ruas bem estreitas. O traçado da cidade foi bem planejado. Muitos prédios tem uma arquitetura francesa, principalmente no bairro da Recoleta. Parece que pelo menos no centro, na Recoleta e em Palermo quiseram fazer de Buenos Aires uma Paris da América do Sul. Percebe-se uma mania de grandeza, sejam nos prédios públicos ou particulares. Deve custar caro manter aquilo tudo.

Com relação à comida, os turistas brasileiros adoram e lotam os restaurantes para comer carne, parrilla, "ojo de bife" e "bife de chorizo com las papas fritas". Fiquei a pensar: por que não introduzem acompanhamentos mais saudáveis, como legumes cozidos? Não seria bom um bife de chorizo com arroz, brócolis e cenoura cozidos? De fato, percebi que há pouca verdura e vegetais nos cardápios dos restaurantes. Talvez porque tenha faltado, como em São Paulo, a imigração japonesa que nos trouxe o bom hábito de comer verduras e legumes. Outra coisa é que os garçons argentinos são mal humorados. Está certo que os brasileiros são folgados e pedem muitas coisas, mas servir com simpatia não custaria nada.  

Dito isso, eu aconselharia os brasileiros que vão "turistar" em Buenos Aires a andar pelas ruas, pelas ruelas, becos e avenidas. A arquitetura e o plano urbanístico da cidade valem a pena. Não há nada como descobrir caminhos novos. E descobrir uma cidade andando à pé. Assim, é possível ir à pé do Teatro Colon à Casa Rozada, e da Plaza de Mayo à feira de San Telmo. E, no meio do caminho, sempre tem um café com um bom cortado. 


domingo, 21 de janeiro de 2024

Os santos que abalaram o mundo

Vale a pena ler alguma obra sobre a vida dos santos. Qualquer santo ou santa. Existem muitos. Tal leitura renova a fé e nos ajuda a nos conectar com as coisas do alto, com o mundo espiritual. Afinal, "[s]eparada da visão religiosa, a vida humana é apenas um clarão de prazeres ocasionais, iluminando uma massa de cor e de miséria, uma bagatela de experiência passageira...". Na obra Os Santos que abalaram o mundo; René Fülöp-Miller; tradução de Oscar Mendes; 31ª ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2023, 421 pág., o autor nos presenteia com a biografia de cinco santos que abalaram os alicerces da Cristandade, mudando para sempre a história da Igreja e do Ocidente. Em algum momento do livro, fala-se até que às vezes é melhor aos iniciantes no cristianismo e na espiritualidade começar a ler sobre a vida dos santos, onde há exemplos concretos de mudança de vida e fidelidade a Deus, do que ler o Velho Testamento, onde há muitas passagens enigmáticas, de eventos sobrenaturais, que podem desencorajar os leitores.

Nota-se que o autor é possuidor de uma vasta cultura, contextualizando a vida de cada santo biografado com a história do seu tempo e sua influência nas artes e no mundo. René Fülöp-Miller (1891-1963) nasceu na região Banat da Hungria, mais tarde cedida à Romênia. Como jornalista, editor e escritor, residiu em Viena, Paris, Budapeste, Moscou, Londres, Los Angeles e Nova York. Pela leitura, é perceptível a fé em Deus do autor, bem como nesses espíritos extraordinários que passaram pelo plano terrestre procurando um caminho para chegar mais perto de Cristo. Há passagens que são verdadeiras pérolas da espiritualidade. O autor foi fundo na pesquisa e construiu uma catedral com esse livro, graças a seu labor e à Biblioteca pública de Nova York. A tradução de Oscar Mendes também me parece ser uma das melhores que poderia ter sido feita.Há passagens memoráveis, que elevam o espírito, elevam o pensamento a Deus, nos ensinam a orar em silêncio e nos fazem refletir sobre a verdadeira devoção.  

Santo Antão nasceu cerca do ano 251, na aldeia de Coma, no Alto Egito. Era filho de um cristão copta, um rico fazendeiro que desconfiava da influência grega, de modo que o jovem não foi mandado à escola e cresceu analfabeto. Depois da morte dos pais, herdou todas as terras e rebanhos e vivia uma vida de trabalho, piedade e retidão. Um domingo, na igreja, ao ouvir o padre ler um trecho do Evangelho, "o jovem rico" (Mateus 19,6), vendeu tudo o que tinha, todas as suas propriedades e doou o dinheiro aos pobres da aldeia, procurando seguir um caminho puro e reto que o levasse a Deus. Conforme sua época, escolheu um caminho de solidão: a reclusão de uma caverna onde venceu todas as tentações, conforme se vê nas pinturas criadas, séculos depois, por Jerônimo Bosch e Pieter Brueghel. Com santo Antão aprendemos que o diabo existe e se disfarça de mil maneiras, mas é possível vencer as ciladas do inimigo com uma vida de ascetismo dedicada a Deus.

Santo Agostinho nasceu no ano de 354, na pequena cidade de Tagasta (hoje Argélia), norte da África. Dotado de uma inteligência sem igual, aprendeu a estudar, mas vivia uma vida desregrada, rodeado de luxúria. Agostinho entregava-se aos prazeres da sensualidade e demorou bastante a largar o pecado e converter-se em santo, somente o fazendo depois de uma revelação em baixo de uma árvore, quando ouviu uma voz misteriosa de um menino que dizia, "abre e lê, abre e lê". E, ao abrir a Bíblia deu com o seguinte trecho: "Não na devassidão e na embriaguez, não na lascívia e na luxúria, não na contenda e na inveja; mas confia em Nosso Senhor Jesus Cristo e não faças provisão para a carne, para satisfazer a sensualidade". Na idade de 32 anos, Agostinho renunciou ao mundo dos prazeres, procurou ser batizado, viu Roma com novos olhos, voltou à Tagasta e começou a compor suas obras religiosas, inclusive as famosas Confissões.

São Francisco nasceu no ano de 1182, na cidade de Assis (hoje Itália). Depois de frequentar a escola dos monges beneditinos, seu pai, Pedro Bernardone, levou-o para auxiliá-lo na loja de tecidos. Assim, filho de um rico comerciante de fazendas, e numa época de menestréis e trovadores, Francisco era um rapaz festeiro e alegre na juventude, que depois de uma doença foi tendo dúvidas a respeito da verdadeira felicidade, sendo que seu espírito o guiou para um outro caminho. Depois da doença e da convalescença, Francisco descobriu a felicidade nos passeios pelos campos fora dos muros da cidade. O livro narra fatos importantes que marcaram a vida desse santo como o encontro com o leproso, a escolha da pobreza como sua companheira, a visão de Cristo na capela pedindo a Francisco para reerguer a Sua Igreja, a queixa de Pedro Bernardone contra o próprio filho e o julgamento de Francisco perante o tribunal eclesiástico, no qual Francisco rejeita o pai terrestre e começa a seguir O Pai celestial, abraçando uma vida de pobreza, caridade e amor ao próximo.

Santo Inácio nasceu por volta de 1491 e era filho da criada da rainha da Espanha, de modo que ouvia as conversas em casa e cresceu com a crença de que o mais importante na vida era o favor de reis e rainhas. Assim, desde a remota infância, a alma de Inácio foi envenenada por uma ambição desmedida. Queria sobressair-se na sociedade da época a qualquer custo, até que, por meio de leituras, descobriu que um santo era mais valorizado que um cavaleiro real. Considerado o santo da força de vontade, Inácio fez uma reforma íntima para transformar o cavaleiro em um santo. Para tanto, dirigiu-se a uma caverna onde orava, jejuava e se mortificava em busca da purificação e da aproximação com Deus. Para domar a sua alma, desenvolveu um sistema de auto-observação, que resultou mais tarde nos Exercícios Espirituais, uma obra de pouco valor literário, mas muito valor prático. Depois de reformar a si mesmo, passou a reformar outras almas, fundou a Ordem dos jesuítas, a famosa Companhia de Jesus onde foi o geral por bastante tempo e trabalhou incansavelmente até o último dia da sua vida.

Santa Teresa nasceu em 1515, em Ávila (hoje Espanha), na transição da Idade Média para a Idade Moderna. Filha de Dom Alonso, um proprietário espanhol, a alegre Teresa atraía olhares dos rapazes na sua adolescência e quase teve um encontro com um rapaz às escondidas. Mas no dia marcado confessou tudo a seu pai e foi enviada para um convento somente por um tempo. Depois, regressando para a casa do pai, aos 15 anos, Teresa começou a sentir os primeiros sintomas da terrível doença que a acompanhou pela vida. Uma doença que a fazia ter visões e a aproximava da santidade. Então, depois de ler sobre a vida de São Jerônimo, Teresa resolve entrar para o Convento das Carmelitas. A Santa, cuja doença e santidade se misturavam numa coisa só, aquela que foi o vaso escolhido, aprendeu a orar em silêncio e ensinou que não é possível servir a Deus e ao mundo ao mesmo tempo. Santa Teresa nos ensinou a fugir das conversas superficiais que vão e vem ao sabor dos ventos e, ao invés disso, a nos recolher em nosso castelo interior, a orar em segredo e buscar a comunhão com Deus. 

Em tudo, se vê a providência divina em enviar ao mundo pessoas iluminadas ou em busca da iluminação, que serviram de verdadeiras tochas para a humanidade, principalmente nas épocas mais tenebrosas e sombrias da História, como no declínio do Império Romano e na época das Cruzadas e da Inquisição. Pessoas de carne e osso que escolheram os caminhos da solidão e da resistência às tentações, da retidão e da pobreza, da caridade e do amor, da humildade e da disciplina, da obediência e da fidelidade a Deus. Pessoas que viram o próprio Cristo e buscaram praticar seus ensinamentos.