LUZES DA CIDADE
CORAGEM DE PENSAR
Os amigos e as esperanças. Tudo que há de melhor. Mas chega o dia em que a gente precisa abandonar a lembrança de rostos antigos, para se sentir só, muito só, e se entregar ao deleite de pensar. Bem haja, na maturidade de cada um de nós, certo período de consentida solidão, como terapêutica para o espírito. É a maneira lógica de restabelecer as proporções que o mundanismo obsessivo distorce em nossa íntima escala de valores.
- A solidão é como a chuva! - dizia Unamuno. - Faz brotar da alma algumas velhas sementes adormecidas.
Há os que sabem amar os seus longos momentos de solidão, porque neles mesmos se retemperam. E há os mais numerosos, os desprovidos de mundo interior, os que se assustam diante de uma simples perspectiva de isolamento, os que necessitam da grande convivência social, porque aprenderam a existir apenas em função da exterioridade dos outros. São os bem-aventurados. Gilberto Amado, um gregário episódico, costuma dizer: - Certas pessoas têm a propriedade de nos interromper a boa solidão sem chegar a nos fazer companhia.
E eis aí a essência do nosso modesto pensamento sobre os bons e os maus limites da convivência humana. É estranho, mas encontramos, na maturidade, uma cruel agudeza. Esta que nos revela, como sob as lentes de um microscópio, a frivolidade de certas pessoas. Homens e mulheres frívolos, os alcalóides da sociedade! Vale reter na memória este fragmento de Gustavo Corção, perfeitamente adequado ao desfecho da crônica:
- "A moça bonita, quando sorri à toa, quando faz trejeitos de faceirice e fala sem propósito, parece uma flor da humanidade, um espetáculo estimulante, uma fonte de alegria. Na verdade, porém, sua futilidade é uma coisa lúgubre. Já observaram essas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto? Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade.
O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo isso em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras do meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida.
O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta-se um botão e ele diz 'bom dia' encarquilhando os músculos da face. Aperta-se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos".
Estranhamente, confunde-se frivolidade com bom humor ou simpatia e convive-se com ela. Aos poucos essa doença nos vai consumindo o espírito, reduzindo nossa sensibilidade, entorpecendo o centro das nossas reações legítimas, até que um dia nos encontramos coletivizados pela mecanização das atitudes, dizendo todos as mesmas palavras convencionais e atribuindo valor a três ou quatro bezerros de ouro, esquecidos do infinito de possibilidades da mente sã.
E então, no fim de uma noite, com muito champanha, viramos rinocerontes.
Ah! Que Deus nos devolva, em tempo útil, o amor à benfazeja solidão. A perdida coragem de pensar!
(José Alberto Gueiros, texto publicado na Revista "O Cruzeiro", 1965)


