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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Resolvendo as tretas da comunicação

"Muitas pessoas da nossa indústria não tiveram uma vida com experiências diversas. Então elas não tem pontos a ligar. Acabam trazendo soluções lineares, sem uma perspectiva ampla do problema. Quanto mais amplo é o entendimento da experiência humana, melhor é o desenho de soluções para os problemas". Com essa citação de Steve Jobs, que é a linha condutora do livro, o caipira de Araçatuba que ganhou espaço na telinha da televisão, desde os anos 80, Marcelo Tristão Athayde de Souza, o nosso querido Marcelo Tas, começa seu livro "Hackeando sua carreira: como ser relevante num mundo em constante transformação/Marcelo Tas. - São Paulo: Planeta do Brasil, 2024, 240 p".  

O livro se propõe a ser uma mexerica. Isso mesmo! Uma Mexerica Thinking! Uma fruta de saberes e experiências, na qual você pode, de forma aleatória e sem prejuízo, consumir (ler) qualquer gomo (capítulo) da obra. Ao longo do livro, Marcelo conta suas diversas experiências profissionais e compartilha aprendizados importantes como esse que aprendeu na engenharia: "todo problema pode ser fatiado em pedaços. É um jeito especialmente eficiente de lidar com os problemas da nossa era, que são cabeludos. A engenharia é a ciência de fatiar um problema em pedaços que caibam dentro da boca, como faz o chef japonês com o atum na hora do sushi".  

Marcelo Tas teve muitos pontos a ligar. Frequentou a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, submetendo-se a disciplina militar; estudou engenharia na Poli; estudou teatro no CPT com Antunes Filho; participou do início da cena audiovisual no Brasil, nos anos 80; criou o inesquecível personagem Ernesto Varela; trabalhou no Vídeo Show da Rede Globo; estudou na escola de cinema da NYU, em Nova York; participou do Rá Tim Bum da TV Cultura; ajudou a lançar e desenvolver o Telecurso 2000; apresentou o famoso CQC -Custe o que Custar na Band, a partir de 2008 e, como se não bastasse, sucedeu o saudoso Antonio Abujamra, no programa "Provocações", que foi repaginado e virou "Provoca". Tas é um multi-artista que parece não ter medo de se arriscar.  

Assim como Steve Jobs discursou em 2005, na Formatura dos alunos da Universidade de Stanford, Marcelo Tas, depois dos 60 anos, olhou para trás, examinou sua trajetória profissional e ligou os pontos. Ele concluiu que todas as experiências pelas quais passou, desde o início da carreira militar e seu curso de engenharia, foram úteis e o ajudaram a fazer as coisas que fez na televisão e na sua carreira de comunicador. Todas as experiências foram tijolos, argamassa, parafusos e cimento na construção da sua carreira profissional. Exemplo: o curso de artes na NYU o ajudou, depois, a criar conteúdos e organizar os programas da TV Cultura. 

Nascido em 1959, Tas viveu uma infância rural em Ituverava; mas, desde criança, era obcecado pelo rádio. Ganhou um radinho de pilha de Natal, que pegava AM, FM e ondas curtas e era fascinado pelos programas de rádio que chegavam ao seu ouvido curioso, principalmente a noite, quando era possível ouvir emissoras do Brasil inteiro, devido a um fenômeno na ionosfera. Ouvindo rádio, sua consciência do mundo se ampliou e, chegando perto dos 18 anos, viu na Escola Preparatória de Cadetes uma oportunidade de sair de casa. Mas sua alma inquieta não cabia dentro dos muros da instituição militar e, assim, Tas, decidiu sair da Academia e mudar-se para São Paulo para prestar vestibular e cursar engenharia na Poli. Ali, foi um peixe fora d'água, mas fez uma poesia que saiu no jornalzinho da escola, ganhou confiança, começou a olhar novas oportunidades e entrou na Escola de Comunicação e Artes (ECA), ao mesmo tempo que fazia curso de teatro. Logo depois se juntou à turma da Olhar Eletrônico Vídeo (onde se aproximou de Fernando Meirelles), que fazia vídeos caseiros e artesanais no início dos anos 80. Aí um novo mundo se abriu. Esse gomo da mexerica é chamado "Encruzilhadas". 

Sendo um profissional da área de comunicações e um baby boomer, isto é, tendo passado por todas as inovações tecnológicas desde os anos 60 até os dias de hoje, Marcelo Tas ainda nos brinda com reflexões importantes, como a de que a criatividade nasce da escassez, da falta de recursos mesmo, quando é necessário botar a cachola pra funcionar. Mas a criatividade só aparece quando você está num ambiente em que se sente confortável, um peixe dentro d'água. Aí é só acrescentar o bom humor e não ter medo de errar.

É muito original sua concepção sobre o viés. Num mundo de informações fragmentadas, redes sociais e fake news, é grande a chance de, numa conversa em grupo, cada pessoa enxergar uma parte da realidade. Na comunicação digital isso acontece o tempo todo. E muitas pessoas só querem ver aquilo em que acreditam, só consomem aquilo, e ficam reféns do algoritmo. Antes de uma conversa que se pretenda produtiva é importante certificar-se de que todos estão vendo o mesmo problema. E ao entrar em uma conversa você precisa estar disposto a ouvir (capacidade rara hoje em dia) e a aprender. "Onde não há espaço para a dúvida, não há chance de aprendizado. Quem não está disponível para perder uma discussão nunca aprende coisas novas. Aí está o papel central da educação".  

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Cuide do seu coração

Há 10 anos atrás tive um infarto agudo do miocárdio. Na época, eu tinha uma vida desregrada, aliada ao sedentarismo, má alimentação, maus hábitos e, ainda por cima, sem vigiar os pensamentos e os sentimentos. Esses eram fatores que eu podia controlar, mas fui negligente. Para piorar a situação, no trabalho, tinha um chefe tóxico que fazia assédio moral. Por mais que eu me esforçasse para entregar um bom trabalho, ele sempre me criticava de uma maneira dura e cruel, me rebaixando como profissional e, por tabela, como pessoa. Esse foi um fator externo, que adicionou um tremendo stress à minha vida.  

Então, um dia, depois de uma corrida no parque, voltei para casa, tomei banho, jantei e sentei no sofá para ver TV. Mas senti uma dor no peito, logo abaixo do pescoço e que se irradiava para os antebraços, uma coisa esquisita. Na ocasião, fui para a cama, deitei e fiquei quietinho por uns 30 minutos. A dor passou. Mas fiquei preocupado. Nunca tinha sentido aquilo antes, e eu tinha apenas 44 anos. Fiquei com aquilo na cabeça e pensei: "- Puxa vida! Já tenho mais de 40 anos e nunca fui a um cardiologista". Então marquei consulta e fui. Depois de vários exames, voltei no consultório e a médica cardiologista viu os exames. Achou tudo ok e estava quase me entregando de volta os exames e me despachando quando, subitamente, parou e disse: "Pera aí. Tem alguma coisa aqui". Ela vira um risquinho fora do padrão. Ela examinou, examinou... e depois disse: "Quero que você faça um Cintilografia do miocárdio com MIBI com esforço, e com contraste. Também quero que você faça o exame no HCor".   

Marquei o exame. A Cintilografia do miocárdio é um exame chato e demorado. Você faz umas caminhadas no laboratório e depois te examinam. Em seguida, te dão alguma coisa para comer e te examinam de novo. No final, tem o famoso teste da esteira ergométrica, em que você tem que correr, se esforçando bastante, enquanto os profissionais de saúde examinam seus batimentos cardíacos e sua situação no geral. Esse exame pode ser com ou sem contraste. Com contraste é pior porque você sente uma substância estranha entrando no seu corpo.

Bom... aí, o técnico disse que gostaria de ver a capacidade máxima do meu coração, que era para eu me esforçar bastante. Aí eu pensei: "Bom... já que estou fazendo esse exame dentro de um hospital, vou dar todo o gás que eu tenho". Comecei devagar, mas depois fui aumentando o ritmo e dei tudo de mim. Corri pra valer! Tanto que, depois de 10 minutos, já estava completamente exausto. E o técnico tinha dito que, quando o fôlego tivesse acabando e faltasse 1 minuto para eu terminar a corrida, eu tinha que avisá-lo. Assim fiz. Mas foi o minuto mais longo da minha vida.

Quando acabou o teste ergométrico eu suava em bicas, e suava frio. Tive sudorese e dores no peito, mas naquela hora, eu não sabia nomear o que eu tinha. Eu disse para o técnico que estava ali: "-Dr. Eu não estou legal". Ele disse para eu ficar parado. Mas a sensação era terrível e eu disse: "Dr. Não estou nada bem". Aí ele disse para eu deitar na maca. Parece que foi pior. A sudorese não parava e a dor no peito agora se irradiava para os braços, principalmente para o braço esquerdo. Chamaram socorro. Os enfermeiros não sabiam o que fazer. Mas o médico logo percebeu o que estava acontecendo. Fui levado para um procedimento. Fiz um cateterismo e descobriram uma artéria entupida. Aí tive que fazer uma angioplastia com colocação de stent, que é um procedimento para desentupir a artéria, colocando-se stent para deixar a artéria aberta e não entupir mais. 

Fiquei 7 dias internado no Hospital. Nesse período, descobri que quem cuida mesmo dos pacientes são os enfermeiros e as enfermeiras, pois os médicos só aparecem uma vez por dia. Sou muito grato a todos eles! Mas os médicos têm um papel fundamental também, pois são eles que leem e interpretam os exames e o estado geral do paciente, dando orientações. Quando recebi alta, veio um médico falar comigo. Ele disse que eu tive muita sorte por ter tido o infarto dentro do Hospital, pois se eu estivesse correndo no parque, provavelmente não teria dado tempo de eu chegar ao hospital com vida.  

Foi um susto! O infarto foi um tapa na cara! Nas semanas e meses que se seguiram, senti no fundo do meu ser que Deus tinha me dado uma segunda chance. Fiz um inventário de toda a minha vida, dos sucessos e dos tropeços, das coisas boas e ruins que eu tinha feito. Mas o mais importante: me espiritualizei. Fiquei mais agradecido. Acordava todas as manhãs, olhava para o céu e dizia: "- Obrigado, Senhor! Por mais um dia!". Fiquei me sentindo devedor e procurei, daí em diante, ser uma pessoa melhor. E, depois, disso, tive tantas coisas boas na minha vida. Viajei para lugares novos, fiz trabalho voluntário, aprendi a cozinhar e casei com uma mulher maravilhosa. 

O infarto funcionou como um chacoalhão, um despertar da consciência de que a vida é algo precioso, que deve ser cuidada. Aprendi algo básico que os homens negligenciam: aprendi a cuidar de mim mesmo. Portanto eu digo, a vida é um presente de Deus! A vida é preciosa! Não podemos desperdiçá-la. Cuide da sua saúde. Cuide de você. Deixe para trás os sentimentos negativos, como mágoa, raiva, rancor, tristeza e culpa. Faça esporte. Faça os exames periódicos. Controle o stress. Cuide de suas emoções. Cuide do seu coração.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A desmoralização do STF

O Supremo Tribunal Federal já foi uma instituição respeitável e confiável. Atualmente não é mais. Para tristeza dos operadores de Direito, como juízes, promotores, advogados e defensores públicos, o Supremo, apesar de constar formalmente como sendo o "guardião da Constituição", por exercer a jurisdição constitucional, julgar recursos extraordinários e ser a última instância do Poder Judiciário, cada vez mais vê sua imagem ser corroída e comprometida pelo comportamento de alguns dos seus membros e por decisões monocráticas altamente questionáveis.  

O STF é uma instituição antiga que merece ser respeitada e preservada, mas que deve ser aperfeiçoada, urgentemente, pois, de uma certa forma, degenerou. O tribunal foi instalado em 1891, logo após a proclamação da República. Passou pelos diversos períodos turbulentos e ditatoriais da História do Brasil, inclusive pelo Estado Novo (1937-1945) e pela Ditadura Militar (1964-1985), tendo sobrevivido até os dias atuais. Para quem quiser se aprofundar no tema, recomendo o livro "O Supremo Tribunal Federal e a construção da cidadania", da historiadora Emília Viotti da Costa. Pena que esse livro só avalie a Corte Suprema até a promulgação da Constituição de 1988. 

Aliás, um dos problemas da Constituição de 1988, que é a melhor que já tivemos, foi atribuir competências em demasia ao Supremo. Todavia, após a redemocratização, a sociedade brasileira constatou que a experiência do STF como tribunal penal não deu certo. Podemos dizer que o tribunal não é vocacionado à jurisdição penal. O primeiro teste maior foi com o julgamento do mensalão. O tribunal até passou no teste, mas com sérios arranhões. Houve discussões acaloradas entre seus membros transmitidas pela TV Justiça. Quem não se lembra do bate-boca entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes? Além disso, o julgamento se arrastou por meses, atrasando o julgamento dos demais processos na Corte Constitucional. Depois disso teve outros julgamentos altamente questionáveis.   

Em 2016, por exemplo, a decisão monocrática de Gilmar Mendes que impediu a posse de Lula como Ministro da Casa Civil causou perplexidade no meio jurídico. Em 2020, durante o recesso judiciário, Toffoli suspendeu investigações baseadas em dados do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sem compartilhamento detalhado, o que foi criticado como uma forma de enfraquecer órgãos de investigação. Em 2025, o Ministro Gilmar Mendes, relator da ADPF 1259, suspendeu trechos da Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950) que permitiam que “qualquer cidadão” denunciasse ministros ao Senado, determinando que somente a Procuradoria-Geral da República poderia fazê-lo. Depois voltou atrás. 

Pois bem, passado o julgamento da cúpula dos réus da tentativa de Golpe do 8 de janeiro de 2023, no qual Jair Bolsonaro e outros foram condenados, veio o Caso Master. O Banco Master é um daqueles casos de crescimento vertiginoso. O Banco surgiu em 2019 e, 5 anos depois, tinha crescido de forma extraordinária. O banco oferecia CDBs pagando 140% do CDI. Algo fora do comum e fora da razoabilidade. Em resumo, Daniel Vorcaro, dono do banco, optou por um modelo de crescimento acelerado, escolheu uma escalada rápida rumo ao "sucesso". Para tanto, Vorcaro aproximou-se do poder em Brasília; aproximou-se de figuras de destaque no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, como o governador do Distrito Federal, deputados federais e Ministros do STF. Vorcaro patrocinou eventos e deu festas nababescas em sua mansão em Brasília para atrair a simpatia dos poderosos e entrar para a corte do Reino Maravilhoso de Brasília. Tal aproximação foi amplamente noticiada pela imprensa, inclusive por meio do patrocínio de eventos e encontros sociais, o que suscita debate legítimo sobre promiscuidade institucional e conflitos de interesse.

O caso do banco Master acabou por solapar a credibilidade do STF nos dias que correm. Em 9 de dezembro de 2025, em um furo de reportagem, Malu Gaspar revelou no Jornal O Globo que o escritório de advocacia da esposa de um dos ministros, havia firmado um contrato milionário com o banco Master. Segundo o Estadão, "[c]onforme revelado pelo O Globo, a empresa firmou um contrato com o banco de Daniel Vorcaro que lhe garante R$ 3,6 milhões por mês entre 2024 e 2027. Caso o contrato tivesse sido cumprido integralmente, o escritório Barci de Moraes receberia R$ 129 milhões até o início de 2027". Tal fato não foi negado. 

A partir de dezembro de 2025, segundo notícias da grande mídia, (Estadão, Folha, o Globo), o Ministro Dias Toffoli e o TCU tomaram decisões que, na avaliação de analistas jurídicos, tiveram o potencial de impactar o ritmo e a condução das investigações sobre supostas fraudes envolvendo o Banco Master. Primeiro, Toffoli avocou o caso Master para o STF, sob a alegação de que Daniel Vorcaro negociou um imóvel com um deputado federal, sendo que o negócio era lateral e nem sequer chegou a ser concretizado. Portanto, a competência não é do Supremo. Detalhe: conforme noticiado pela imprensa, o ministro viajou para assistir à final da Libertadores em aeronave particular, acompanhado de um advogado ligado a um diretor do Banco Master. É óbvio que esse fato levantou questionamentos no debate público sobre a imparcialidade do Ministro. Em segundo lugar, Toffoli determinou uma acareação precoce entre Vorcaro, um ex-presidente do BRB, e um diretor do Banco Central. Não se determina acareação no começo das investigações. Em terceiro lugar, Toffoli, numa atitude incomum, decretou sigilo em grau elevado sobre o procedimento investigatório. Em quarto lugar, Toffoli criticou o trabalho da Polícia Federal, instituição que goza de elevado grau de credibilidade junto à sociedade. Em quinto lugar, Toffoli determinou que objetos, documentos e celulares dos investigados fossem lacrados e enviados diretamente para o STF. Tal decisão causou perplexidade, pois os objetos deveriam ser enviados diretamente para a Polícia Federal, que tem competência e expertise para desbloquear os celulares e extrair os dados. Depois de muitas críticas, Toffoli voltou atrás e determinou a remessa dos objetos apreendidos para a PGR; porém, numa atitude incomum, indicou os peritos que deveriam trabalhar no caso. Como se não bastasse, após tudo isso, em 16/01/2026, o Estadão, baseado em documentos, publicou matéria dizendo que "o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, é dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos e de um primo do ministro do STF Dias Toffoli no resort Tayayá, no Paraná". A partir daí, o que era somente a crise do Master virou também a crise do STF. 

O Ministro Edson Fachin interrompeu suas férias e voltou à Brasília para tentar apagar o incêndio. Não conseguiu. Ao final, soltou uma nota dizendo que "a Corte constitucional brasileira se pauta pela guarda da Constituição, pelo devido processo legal, pelo contraditório, e pela ampla defesa (...), atuando na regular supervisão judicial". Acrescentou que "o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito". Ora, a democracia não corre risco com o caso Master. E o direito de o cidadão e da imprensa de se indignarem com o atual estado de coisas, de manifestarem sua opinião e de criticar decisões do STF são direitos constitucionais totalmente legítimos em uma democracia. É só ler o artigo 5º da Constituição Federal que traz os direitos e garantias fundamentais. 

Em conclusão podemos dizer que, segundo se lê nos jornais, parece que as elites financeira, empresarial, governamental e judicial fazem parte de um esquema onde ocorrem negócios nebulosos e acordos pelas costas do povo, acordos celebrados em resorts e em seminários jurídicos em Portugal. Há uma troca de favores, conversas não republicanas no nosso capitalismo de compadrio. A corrupção está entranhada nos poderes da República e no meio empresarial. Há uma perpetuação dos modos antigos de fazer política, misturando o público e o privado em uma ação entre amigos. Tudo isso já foi magistralmente descrito e explicado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda no seu clássico livro Raízes do Brasil. Infelizmente o Brasil ainda é o país das manobras para que tudo continue como está, mantendo-se a impunidade para os amigos do Rei, os amigos da Corte e os amigos dos amigos.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Papa Francisco

"A paz se encontra apenas no momento presente. O passado já foi, o futuro ainda não veio. Deus está no agora". "A pressa e o barulho sufocam a alma. É preciso aprender a arte do silêncio interior". "Deus age conosco, não sem nós. A graça precisa da nossa colaboração". "O primeiro a pedir desculpas é o mais valente. O primeiro a perdoar é o mais forte. E o primeiro a esquecer é o mais feliz". "Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo, nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria". Foram tantas as frases memoráveis do papa Francisco postadas por milhares de pessoas, nas redes sociais, quando da sua morte, que poderíamos ficar aqui o dia inteiro. O mundo ficou comovido naquele dia 20 de abril de 2025, um dia antes de sua morte, quando, já bastante debilitado, Francisco fez um esforço físico tremendo, contrariando seu médico, para ir ao encontro do povo na Praça de São Pedro, para a benção Urbi et Orbe

Um papa profundamente humano, que abriu as portas da Igreja, merecia e precisava de uma biografia à altura. Só não se esperava que essa biografia Esperança: a autobiografia / Papa Francisco, com Carlo Musso. 1ª ed. - São Paulo: Fontanar, 2025, viesse dele próprio. Um papa que acolheu e propôs uma igreja cada vez mais acolhedora (e não julgadora), voltada para todos, mas especialmente para os pobres, os excluídos e os marginalizados, contou a sua história. O "cardeal do povo" como os argentinos o chamavam não mudou a doutrina da Igreja, mas mudou a prática e reinstalou uma Igreja acolhedora. Sem dúvida, uma das coisas mais extraordinárias que aconteceram na Igreja Católica nas últimas décadas foi a eleição do Papa Francisco. O primeiro papa não nascido na Europa (que sopro de renovação!), o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa que falou: "Chi sono io per giudicare?" (Quem sou eu para julgar?). 

O que emerge do livro é a vida de Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), contada de uma forma muito agradável, basicamente em ordem cronológica. Fica-se sabendo um pouco da história da imigração dos seus avós da Itália para a Argentina, a longa travessia, a chegada, a crise econômica, a família, os pais, os tios, os irmãos. Bem por isso, Bergoglio era muito solidário e sensível ao drama dos imigrantes em todo o mundo, questão candente nos dias atuais. O papa Francisco também gasta tinta para falar do seu horror às guerras e da estupidez dos generais e políticos que fazem as guerras. Não existe guerra boa, ele diz. A guerra só traz dor, destruição e morte. Os reis, os políticos e generais são egoístas, orgulhosos e disputam o poder. E o povo sofre; o povo vira bala de canhão para esses canalhas. Isso tudo emerge do livro, apenas numa linguagem mais moderada e reflexiva. 

A narrativa tem um tom sério, confessional, para ser um testemunho do seu tempo. Nota-se em Bergoglio um temperamento melancólico; é uma pessoa reflexiva, que pensa e medita nas coisas. É uma autobiografia sincera. Até seus defeitos e alguma eventual falta de atenção com pessoas queridas são narrados. Detentor de uma consciência moral muito forte, Bergoglio era capaz de ficar décadas com uma culpa ou remorso por uma pequena falha no passado em que não foi devidamente atencioso com outro ser humano. E, décadas depois, quando encontrava a pessoa, pedia perdão e tentava reparar o erro. Também mantinha contato com as pessoas que lhe foram caras ou tiveram significado na sua caminhada. Ele ligava, mandava cartas, procurava entrar em contato com as pessoas. Ele saía da casca. 

Por tudo, contudo e em tudo, a autobiografia do papa Francisco é um depoimento vivo em que o leitor consegue penetrar os pensamentos do pontífice, seus gostos, suas leituras, sua visão de mundo, o despertar da sua vocação, a vida no mosteiro e sua rica trajetória, que incluiu até um curso técnico em química. Se forem ler algum livro sobre o papa Francisco leiam esta autobiografia de um humilde jesuíta, de um cardeal argentino que foi eleito papa contra todas as suas expectativas. Vale a pena! Uma alma simples. Uma vida alegre, de serviço à Deus e ao próximo. Um cardeal que foi eleito papa por dizer a verdade: que a Igreja precisava sair de si mesma e ir ao encontro do povo. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Primeiro Leitor

Como leitor de uma vida inteira, sempre tive curiosidade de saber como funciona uma Editora, o que se passa lá dentro, quais as funções e os cargos nesse tipo de empresa, dedicado a editar livros. Será que eles leem todos os manuscritos que os candidatos a escritores enviam? Como é feita a escolha? Como nasce uma Editora? Quais são os desafios desse tipo de empresa? Luiz Scharwcz responde a algumas dessas perguntas na obra O primeiro leitor: Ensaio de memória/Luiz Schwarcz. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Mas não é um manual de como montar sua própria Editora. São memórias. Ele conta passagens da sua vida e do mundo dos livros.  

Luiz Schwarcz é um editor que não se gaba, nem se vangloria de seus feitos. Ele tem horror à vaidade e à autopromoção. Por vezes encontramos passagens em que ele diz que o mérito não é dele, que o trabalho é da equipe, dos escritores etc. Mas o fato é que a Companhia das Letras, editora que ele fundou há 39 anos está viva e funcionando até hoje, coisa rara no Brasil. Então algum mérito aquele rapaz do início da década de 80, aquele rapaz cujos ídolos eram Caio Graco Prado e Jorge Zahar tem. Sim, ele teve uma boa escola, chamada Brasiliense. 

Com efeito, Luiz Schwarcz descreve o início da sua vida profissional na Editora Brasiliense e como essa rica experiência o ajudou a angariar know how para tocar o dia a dia de uma Editora e, um tempo depois, fundar a sua própria. Aliás, Uma das coisas mais saborosas no livro é como surgiu a "Coleção Primeiros Passos" na Brasiliense (quem não se lembra?), a que depois se seguiu "Tudo é História", "Cantadas Literárias" e outras, transformando a Editora Brasiliense, no início da década de 80, em uma usina de ideias e de bons livros.  

Prestando atenção na leitura, fica-se sabendo que dentro de uma Editora existem várias figuras, cada qual com sua função: editor, produção gráfica, preparadores de texto, tradutores, capistas, diretor editorial etc. Na minha opinião, faltou falar um pouco dos bastidores e do intercâmbio desses vários departamentos dentro da editora. Também faltou falar do trabalho dos agentes literários, figura que não existia antigamente e que hoje passou a ser fundamental.  

O livro atendeu minhas expectativas em parte. Fica-se sabendo o início da sua vida profissional na Brasiliense e como era seu relacionamento com Caio Graco Prado; o início da FLIP (Feira Literária de Paraty) e a inveja dos editores do Rio de Janeiro; a fogueira de vaidades que é a Feira de Frankfurt, para onde editores do mundo inteiro se dirigem, levando seus egos enormes a tiracolo para comprar obras que ouviram falar bem, mas não leram; e alguns fatos curiosos do mundo editorial: um deles foi a longa luta para que o romance Ulysses, de James Joyce, fosse publicado nos Estados Unidos no anos 30, em uma época que vigorava uma forte censura por lá. Por outro lado,  ao contar seu relacionamento com autores da Companhia das Letras, muitas vezes de forma superficial, Schwarcz expõe desnecessariamente defeitos e idiossincrasias de autores que a casa abrigou sob o seu teto. 

Ruy Castro, Susan Sontag, Ruben Fonseca, Andrew Solomon, José Saramago e Milton Hatoum são apenas algumas estrelas literárias da Constelação que a Companhia já abrigou ou abriga no seu céu de letras. A proposta, desde o início, foi criar e manter uma editora de qualidade, uma editora de primeiro mundo, por assim dizer, que dignificasse a literatura, os escritores e respeitasse os leitores. Conseguiu. Hoje é referência.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

É preciso vigiar sobre nosso coração

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: "Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: 'Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda'. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!' Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado". 

                                                                                                (Lc 18, 9-14)

Sobre essa passagem, o Bispo Auxiliar de São Paulo, Dom Edilson de Souza Silva, a propósito do Evangelho de domingo, escreveu um belo comentário, que pedimos licença para transcrever: 

"Dois homens sobem ao Templo para rezar: um cobrador de impostos, que descendo ao profundo de si mesmo, com humildade e sem ostentar qualquer tipo de máscara diante de Deus, implora por misericórdia pelos seus pecados, e um fariseu, que sobe ao alto do seu ego inflado e, numa suposta ação graças a Deus, enaltece a si mesmo e suas pretensas virtudes, desprezando os demais. 

Mas, pode algo ficar oculto aos olhos de Deus? Obviamente que não, pois Ele conhece os corações e é justo no julgar. Ele acolhe a prece do cobrador de impostos, uma vez que "a prece do humilde atravessa as nuvens" (Eclo 35,21), ao passo que o fariseu não é justificado, porque "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (1Pd 5,5). 

Jesus afirma que "quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado" (Lc 18,14) e, à luz desta palavra, precisamos examinar nosso coração, pois, disse o Papa Francisco, que "para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio (Encíclica Dilexit nos, cap. I, n.6). Daí ser importante cultivar um coração puro, manso e humilde à semelhança do Coração de Jesus. 

Tanto o publicano quanto o fariseu vão ao Templo para rezar, mas os corações deles vão em direções diferentes: um reconhece a necessidade da graça e o outro se gaba de seus méritos, desprezando os que ele julga inferiores a si. Nós também corremos o perigo de cair na tentação do fariseu e desembocar no que o Papa Francisco chamou de "mundanismo espiritual", no qual se busca a glória humana e o próprio bem-estar no lugar da glória de Deus, "uma maneira sutil de procurar os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo (Fl 2,21)".  

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O maior vendedor do mundo

"Saudarei esse dia com amor no coração. Pois este é o maior segredo do êxito em todas as aventuras. Os músculos podem partir um escudo e até destruir a vida, mas apenas os poderes invisíveis do amor podem abrir os corações dos homens, e até dominar esta arte não serei mais que um mascate na feira. Farei do amor minha maior arma e ninguém que a enfrente poderá defender-se de sua força". É assim que começa o Pergaminho nº 2. Todas as gerações que leram o livro com o coração o trazem de cor. O autor estava profundamente inspirado quando o escreveu. Desde que li, virei fã de Og Mandino. Mas é bom avisar aos navegantes: trata-se de uma obra de autoajuda. E das melhores!

Og Mandino (1923-1996) foi um escritor estadunidense, que escreveu 17 livros. Presidiu a revista Success Unlimited até 1976, quando, aos 52 anos, chocou o setor ao renunciar à presidência para dedicar-se em tempo integral a escrever e dar palestras. Na época, não era comum fazer isso. Antes de chegar lá, porém, passou por maus bocados. Alcoólatra que quase chegou ao suicídio, conseguiu ficar sóbrio para se dedicar à escrever, tornando-se milionário ao publicar O maior vendedor do mundo. Tornou-se um dos autores mais inspiradores e bem sucedidos no segmento denominado auto-ajuda, principalmente com livros voltados para vendas. Ele era fã de Norman Vincent Peale, autor do livro O poder do pensamento positivo. Seus livros venderam milhões de cópias e foram traduzidos em diversos idiomas. Segundo a orelha do livro, Og Mandino integra o Hall da Fama do "National Speakers Association", nos Estados Unidos. 

O miolo do livro são 10 pergaminhos com instruções de como encarar a vida com amor, coragem e fé e ter uma postura mais positiva na sua vocação e no seu trabalho, sejam quais eles forem. O mérito do autor, além das mensagens de fé, esperança, com estímulos ao trabalho árduo e ao agradecimento, está em emoldurar esses 10 pergaminhos em uma história cristã muito tocante, envolvendo um rico mercador, que é o maior vendedor do mundo, um guardador de camelos, que quer subir na vida para ganhar o coração de sua amada e, por fim, a sagrada família no nascimento de Jesus em uma humilde estrebaria em Belém. É uma história que emociona. 

No primeiro pergaminho ele instrui cuidadosamente o leitor a ler os 9 seguintes da seguinte maneira: 1) ler cada pergaminho por 30 dias antes de passar para o seguinte; 2) ler o pergaminho 3 vezes ao dia, uma vez ao acordar, outra depois do almoço e a terceira antes de dormir. Algumas passagens são marcantes, de uma beleza incomum. Depois de 30 dias lendo o mesmo pergaminho, o leitor incorpora aquelas mensagens. Esse é o truque do livro. É que, segundo o autor, somos escravos dos nossos hábitos. E para se tornar uma pessoa melhor, é necessário trocar maus hábitos por bons hábitos. Daí essa repetição e esse ritual. 

É um livro que ajuda mais quem tem um propósito claro ou uma meta à sua frente, como arrumar emprego, passar em provas ou concursos, realizar um sonho etc. Me ajudou a passar no vestibular. Li pela primeira vez em 1989, quando eu estava estudando para passar no vestibular. Foi um livro que me cativou imensamente. Bebi de suas palavras como se fossem sagradas. Li os pergaminhos religiosamente, da forma como foi orientada, três vezes ao dia, por 30 dias cada pergaminho. Foi assim que eu comecei a saudar cada dia com amor no coração, a persistir até alcançar êxito e a aplicar outras lições ensinadas no livro.  

Mais de 30 anos depois, reli o livro e me emocionei novamente. É tocante. Vale a pena! Só que dessa segunda vez li o mesmo livro com olhos mais críticos. Apesar de já não me impressionar tanto e não concordar com 100% do conteúdo do livro, fiquei espantado com a beleza das frases e do conteúdo e concordei com uns 70% dos seus ensinamentos, que espremidos, resultam em uma vitamina que pode ser tomada todos os dias, com afirmações positivas para o indivíduo. 

Há nobres verdades, mas também há meias verdades. Por exemplo, no pergaminho que emula o leitor com a frase "Hoje serei senhor de minhas emoções", é bom que se diga que ninguém é dono das suas emoções. Todo mundo sente raiva, mas não são todos que saem esmurrando ou xingando os outros. Tem gente que sente a raiva, respira, conta até 10 ou até 100, e não reage imediatamente. Apenas vai embora e abandona aquele ambiente tóxico. É uma atitude mais saudável. Mas todos nós estamos sujeitos às emoções, que passam pelo nosso ser. Todo mundo sente alegria, tristeza, raiva, medo, gratidão, mágoa, etc. O que você faz com esses sentimentos é outra coisa. Eu diria que não controlamos as emoções, mas podemos controlar nosso comportamento. 

Consta da contracapa que esse livro "foi adquirido por companhias importantes como a Coca-Cola e a Volkswagen" para ser distribuído aos seus funcionários. Por esse prisma, algum sociólogo poderia dizer que se trata de doutrinação para aumentar a produtividade das empresas e gerar mais lucro. Pode até ser. Mas, inegavelmente, o livro pode ser visto como uma oportunidade de crescimento pessoal. Ou, simplesmente, para se tornar uma pessoa melhor. A receita é boa: aumentar a capacidade de amar a Deus e ao próximo, trabalhar com afinco, pensar positivo, não deixar a tristeza e o desânimo entrarem por muito tempo, não viver no passado nem no futuro, dando valor ao dia de hoje! E sentir gratidão por cada nascer do sol, por uma nova oportunidade de mostrarmos o nosso valor!