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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Papa Francisco

"A paz se encontra apenas no momento presente. O passado já foi, o futuro ainda não veio. Deus está no agora". "A pressa e o barulho sufocam a alma. É preciso aprender a arte do silêncio interior". "Deus age conosco, não sem nós. A graça precisa da nossa colaboração". "O primeiro a pedir desculpas é o mais valente. O primeiro a perdoar é o mais forte. E o primeiro a esquecer é o mais feliz". "Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo, nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria". Foram tantas as frases memoráveis do papa Francisco postadas por milhares de pessoas, nas redes sociais, quando da sua morte, que poderíamos ficar aqui o dia inteiro. O mundo ficou comovido naquele dia 20 de abril de 2025, um dia antes de sua morte, quando, já bastante debilitado, Francisco fez um esforço físico tremendo, contrariando seu médico, para ir ao encontro do povo na Praça de São Pedro, para a benção Urbi et Orbe

Um papa profundamente humano, que abriu as portas da Igreja, merecia e precisava de uma biografia à altura. Só não se esperava que essa biografia Esperança: a autobiografia / Papa Francisco, com Carlo Musso. 1ª ed. - São Paulo: Fontanar, 2025, viesse dele próprio. Um papa que acolheu e propôs uma igreja cada vez mais acolhedora (e não julgadora), voltada para todos, mas especialmente para os pobres, os excluídos e os marginalizados, contou a sua história. O "cardeal do povo" como os argentinos o chamavam não mudou a doutrina da Igreja, mas mudou a prática e reinstalou uma Igreja acolhedora. Sem dúvida, uma das coisas mais extraordinárias que aconteceram na Igreja Católica nas últimas décadas foi a eleição do Papa Francisco. O primeiro papa não nascido na Europa (que sopro de renovação!), o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa que falou: "Chi sono io per giudicare?" (Quem sou eu para julgar?). 

O que emerge do livro é a vida de Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), contada de uma forma muito agradável, basicamente em ordem cronológica. Fica-se sabendo um pouco da história da imigração dos seus avós da Itália para a Argentina, a longa travessia, a chegada, a crise econômica, a família, os pais, os tios, os irmãos. Bem por isso, Bergoglio era muito solidário e sensível ao drama dos imigrantes em todo o mundo, questão candente nos dias atuais. O papa Francisco também gasta tinta para falar do seu horror às guerras e da estupidez dos generais e políticos que fazem as guerras. Não existe guerra boa, ele diz. A guerra só traz dor, destruição e morte. Os reis, os políticos e generais são egoístas, orgulhosos e disputam o poder. E o povo sofre; o povo vira bala de canhão para esses canalhas. Isso tudo emerge do livro, apenas numa linguagem mais moderada e reflexiva. 

A narrativa tem um tom sério, confessional, para ser um testemunho do seu tempo. Nota-se em Bergoglio um temperamento melancólico; é uma pessoa reflexiva, que pensa e medita nas coisas. É uma autobiografia sincera. Até seus defeitos e alguma eventual falta de atenção com pessoas queridas são narrados. Detentor de uma consciência moral muito forte, Bergoglio era capaz de ficar décadas com uma culpa ou remorso por uma pequena falha no passado em que não foi devidamente atencioso com outro ser humano. E, décadas depois, quando encontrava a pessoa, pedia perdão e tentava reparar o erro. Também mantinha contato com as pessoas que lhe foram caras ou tiveram significado na sua caminhada. Ele ligava, mandava cartas, procurava entrar em contato com as pessoas. Ele saía da casca. 

Por tudo, contudo e em tudo, a autobiografia do papa Francisco é um depoimento vivo em que o leitor consegue penetrar os pensamentos do pontífice, seus gostos, suas leituras, sua visão de mundo, o despertar da sua vocação, a vida no mosteiro e sua rica trajetória, que incluiu até um curso técnico em química. Se forem ler algum livro sobre o papa Francisco leiam esta autobiografia de um humilde jesuíta, de um cardeal argentino que foi eleito papa contra todas as suas expectativas. Vale a pena! Uma alma simples. Uma vida alegre, de serviço à Deus e ao próximo. Um cardeal que foi eleito papa por dizer a verdade: que a Igreja precisava sair de si mesma e ir ao encontro do povo. 

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