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sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Jorge Amado: uma biografia

"A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei", escreveu Jorge Amado no seu livro de memórias Navegação de cabotagem. O sentimento do escritor no final da vida era de gratidão. Afinal, foi um homem que realizou sua vocação de romancista. Jorge Amado nasceu em Itabuna, morou em Ilhéus, estudou em Salvador, começou a carreira de jornalista e escritor no Rio de Janeiro, onde morou, tendo retornado a Salvador depois dos 50 anos. Fora isso, ele viajou o mundo e escolheu Paris como sua segunda casa. A história de Jorge Amado é um pouco a história do século XX no Brasil, uma vez que ele nasceu em 1912 e faleceu em 2001, tendo passado por diversas fases históricas e políticas do nosso país, desde a Primeira República e o Tenentismo até o Golpe Militar de 1964 e a redemocratização, a partir de 1985. 

O livro Jorge Amado: Uma biografia: Joselia Aguiar, São Paulo: Todavia, 1ª ed, 2018, 640 páginas, é daqueles livros para você levar para a praia, numa viagem de férias. O livro é como um amigo de conversa agradável. Falar em amigos, Jorge Amado tinha muitos. Os amigos da Academia dos Rebeldes e depois, os amigos que angariou e conquistou ao longo da vida, entre eles, Érico Veríssimo, Raquel de Queiroz, Eduardo Portella, o poeta Pablo Neruda, Calasans Neto, Carybé, e muitos outros, jovens ou velhos. Recebia muita gente em sua casa, sendo que às vezes quando chegava de viagem, pedia para não anunciarem sua volta, para dar tempo de escrever.

Foi um dos escritores mais prolíficos do Brasil, tendo escrito por 62 anos, praticamente sem cessar, desde sua estreia, com o País do Carnaval (1930) até o livro de memórias Navegação de cabotagem (1992), passando pela fase de maior preocupação social, com Cacau, Suor, Jubiabá, Mar morto, Capitães da areia e os Subterrâneos da liberdade, até a segunda fase de sua obra, mais identificada com a brasilidade e o modo de ser do povo brasileiro, o cotidiano, a miscigenação, a sensualidade e a força da mulher. Seja numa fase ou outra, entretanto, seus personagens tinham os dois pés na realidade. Retratou jagunços, prostitutas, coronéis, lavradores, mães de santo, meninos de rua, cozinheiras etc. Jorge escreveu sobre o povo brasileiro, revelando para o mundo cores e sabores do Brasil.

Joselia Aguiar dedicou 7 anos para fazer a pesquisa e escrever a biografia do maior romancista brasileiro. Valeu a pena! Ao final do livro, a consulta às notas, fontes e bibliografia, dão conta do mergulho profundo no universo amadiano feito pela biógrafa, que entrevistou dezenas de pessoas para compor a obra, entre elas Alberto da Costa e Silva, Clara Charf, Eduardo Portella, Eric Nepomuceno, José Sarney, Paloma Amado, Stella Caymmi entre tantos outros. 

O resultado foi uma obra que consegue retratar diversas facetas do escritor. A infância em Ilhéus, a escola em Salvador, a família na Bahia, os pais, os irmãos, os amores. A atividade política e a militância no partido comunista, a prisão, as muitas viagens pelas Américas do Sul, Central e do Norte para divulgar suas obras. Posteriormente, as viagens para a Europa, principalmente Portugal e França. Em 1945, o romancista se apaixonou por uma mulher filha de anarquistas católicos, Zélia Gatai, sua companheira de toda a vida, com quem foi feliz e teve filhos e netos. Principalmente depois, de Gabriela cravo e canela, quando deixou a militância política, Jorge Amado tornou-se mais tranquilo e sóbrio. Não fugia de brigas, mas também não as alimentava, deixando críticos ferozes destilando veneno e falando sozinhos, como Otto Maria Carpeaux e Jacob Gorender.

Um dos capítulos mais significativos do livro, entretanto, chama-se "O desencanto", que descreve o desapontamento de Jorge Amado e outros intelectuais quando vieram a tona, em meados dos anos 1950, os expurgos, prisões, mortes e as atrocidades cometidas por Joseph Stálin, revelado ao mundo, afinal, um ditador cruel e desumano. Para quem acreditava no comunismo como força propulsora de um mundo melhor, mais justo e igualitário, foi como cair do cavalo. A decepção foi tão grande que Jorge ficou anos sem escrever. Ele viajou por diversos lugares e, quando retornou, seu primeiro romance foi Gabriela cravo e canela, inaugurando assim uma nova fase em sua literatura, onde Jorge se revelava mais solto, menos dogmático, menos preso à temática da luta de classes e da desigualdade, sendo que o humor estava mais presente. 

O que fica da leitura é um maior conhecimento do homem e sua obra. Jorge era uma pessoa expansiva, de muitos amigos, de gestos nobres e generosos. Era um homem de convicções, sem ser chato e sem querer impô-las aos outros. Sabia conversar e se dava tanto com pessoas de esquerda como com pessoas de direita. Num dia era capaz de almoçar com Oscar Niemayer e no outro dia com Antonio Carlos Magalhães. Também era um homem caseiro, que gostava de ficar com a família e escrevia na mesa da sala sem camisa ou com camisa aberta rodeado pelos netos, que brincavam pelo chão.

sábado, 4 de janeiro de 2025

O ar que me falta

Não sabia que Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, teve uma infância tão solitária e complicada. As histórias de família são surpreendentes e os problemas familiares ecoam, posteriormente, na vida adulta. Filho único, de André e Mirta, Luiz conta que o casamento dos seus pais não foi feliz. Ao lado de diferenças de personalidade e de gosto significativas, André queria mais filhos, objetivo não alcançado depois de inúmeros abortos espontâneos de Mirta. Ao mesmo tempo, o filho único foi depositário de altas expectativas da família, e teve (ou quis) assumir muitas responsabilidades, algumas impossíveis, como resgatar André do poço da tristeza e salvar o casamento dos seus pais.

Seu pai, André Schwarcz, quando contava com apenas dezenove anos, "sobreviveu fugindo do trem que o levava ao campo de extermínio de Bergen-Belsen", durante a Segunda Guerra Mundial. Numa cena dramática, que marcou a família para sempre, seu avô, Láios, que estava no mesmo vagão, gritou para André: "foge, meu filho, foge". O filho obedeceu; pulou do vagão, sobreviveu e ficou com uma culpa pelo resto da vida. Láios permaneceu no trem e nunca voltou do campo. 

"Láios foi visto ainda com vida quando os Aliados libertaram Bergen-Belsen, mas tão fraco que não podia mais andar ou se alimentar. Meu pai só veio a saber disso nos anos 1960, tendo ficado por mais de duas décadas imaginando como o pai dele morrera", conta o autor, que acrescenta: "Algumas dessas particularidades me serão contadas muitos anos depois. Para o que importa agora, basta dizer que minha mãe tentou me explicar, ainda durante a minha infância, a tristeza do meu pai - seus problemas para dormir, o barulho de suas pernas batendo na cama à noite. Aprendi o sentido da palavra 'culpa' desde muito jovem, como algo que fundava minha existência, algo que passava além dos olhos ou das pernas do meu pai. Sua culpa por ter sobrevivido a meu avô, de não o ter salvado ou acompanhado na morte, não permitia descanso, ou mesmo os bons sonhos que ele, junto com a minha mãe, me desejava toda noite à beira da cama. Meu pai provavelmente não dormia nem sonhava porque o passado voltava como vigília absoluta". 

Ao longo do livro O ar que me falta: história de uma curta infância e de uma longa depressão; Luiz Schwarcz - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2021, o leitor terá contato com relatos sobre a imigração dos judeus; a infância e adolescência do autor no bairro de Higienópolis, em São Paulo, assumindo responsabilidades desde cedo; os rituais judaicos; os episódios de bullying; o futebol como terapia, na posição de goleiro; a superação da timidez na colônia de férias da Congregação Israelita Paulista; o transtorno bipolar; sentimentos de raiva e culpa; rompantes agressivos e a busca por um tratamento. 

Luiz Schwarcz é, ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga, o fundador da Companhia da Letras, renomada editora fundada em 1986, que publicou no Brasil livros famosos como Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson; Boca do Inferno, Ana Miranda; Era dos extremos, Eric Hobsbawm e Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak, entre centenas de outros títulos extremamente bem cuidados e com excelentes traduções.

O ar que me falta é uma autobiografia de uma parte da vida do autor, mais focado nos problemas e dramas familiares. Para quem, como eu, gostaria de saber detalhes sobre a vida profissional de Luiz Schwarcz, as dificuldades e sucessos da editora Companhia das Letras, é um pouco decepcionante. Todavia, trata-se de um relato corajoso de um empresário de sucesso que não precisava, absolutamente, revelar detalhes de sua vida privada a ninguém, mas que quis trazer à tona feridas psicológicas da infância e da adolescência para seguir em frente, com certeza mais leve.