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sábado, 4 de janeiro de 2025

O ar que me falta

Não sabia que Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, teve uma infância tão solitária e complicada. As histórias de família são surpreendentes e os problemas familiares ecoam, posteriormente, na vida adulta. Filho único, de André e Mirta, Luiz conta que o casamento dos seus pais não foi feliz. Ao lado de diferenças de personalidade e de gosto significativas, André queria mais filhos, objetivo não alcançado depois de inúmeros abortos espontâneos de Mirta. Ao mesmo tempo, o filho único foi depositário de altas expectativas da família, e teve (ou quis) assumir muitas responsabilidades, algumas impossíveis, como resgatar André do poço da tristeza e salvar o casamento dos seus pais.

Seu pai, André Schwarcz, quando contava com apenas dezenove anos, "sobreviveu fugindo do trem que o levava ao campo de extermínio de Bergen-Belsen", durante a Segunda Guerra Mundial. Numa cena dramática, que marcou a família para sempre, seu avô, Láios, que estava no mesmo vagão, gritou para André: "foge, meu filho, foge". O filho obedeceu; pulou do vagão, sobreviveu e ficou com uma culpa pelo resto da vida. Láios permaneceu no trem e nunca voltou do campo. 

"Láios foi visto ainda com vida quando os Aliados libertaram Bergen-Belsen, mas tão fraco que não podia mais andar ou se alimentar. Meu pai só veio a saber disso nos anos 1960, tendo ficado por mais de duas décadas imaginando como o pai dele morrera", conta o autor, que acrescenta: "Algumas dessas particularidades me serão contadas muitos anos depois. Para o que importa agora, basta dizer que minha mãe tentou me explicar, ainda durante a minha infância, a tristeza do meu pai - seus problemas para dormir, o barulho de suas pernas batendo na cama à noite. Aprendi o sentido da palavra 'culpa' desde muito jovem, como algo que fundava minha existência, algo que passava além dos olhos ou das pernas do meu pai. Sua culpa por ter sobrevivido a meu avô, de não o ter salvado ou acompanhado na morte, não permitia descanso, ou mesmo os bons sonhos que ele, junto com a minha mãe, me desejava toda noite à beira da cama. Meu pai provavelmente não dormia nem sonhava porque o passado voltava como vigília absoluta". 

Ao longo do livro O ar que me falta: história de uma curta infância e de uma longa depressão; Luiz Schwarcz - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2021, o leitor terá contato com relatos sobre a imigração dos judeus; a infância e adolescência do autor no bairro de Higienópolis, em São Paulo, assumindo responsabilidades desde cedo; os rituais judaicos; os episódios de bullying; o futebol como terapia, na posição de goleiro; a superação da timidez na colônia de férias da Congregação Israelita Paulista; o transtorno bipolar; sentimentos de raiva e culpa; rompantes agressivos e a busca por um tratamento. 

Luiz Schwarcz é, ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga, o fundador da Companhia da Letras, renomada editora fundada em 1986, que publicou no Brasil livros famosos como Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson; Boca do Inferno, Ana Miranda; Era dos extremos, Eric Hobsbawm e Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak, entre centenas de outros títulos extremamente bem cuidados e com excelentes traduções.

O ar que me falta é uma autobiografia de uma parte da vida do autor, mais focado nos problemas e dramas familiares. Para quem, como eu, gostaria de saber detalhes sobre a vida profissional de Luiz Schwarcz, as dificuldades e sucessos da editora Companhia das Letras, é um pouco decepcionante. Todavia, trata-se de um relato corajoso de um empresário de sucesso que não precisava, absolutamente, revelar detalhes de sua vida privada a ninguém, mas que quis trazer à tona feridas psicológicas da infância e da adolescência para seguir em frente, com certeza mais leve.

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