"A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei", escreveu Jorge Amado no seu livro de memórias Navegação de cabotagem. O sentimento do escritor no final da vida era de gratidão. Afinal, foi um homem que realizou sua vocação de romancista. Jorge Amado nasceu em Itabuna, morou em Ilhéus, estudou em Salvador, começou a carreira de jornalista e escritor no Rio de Janeiro, onde morou, tendo retornado a Salvador depois dos 50 anos. Fora isso, ele viajou o mundo e escolheu Paris como sua segunda casa. A história de Jorge Amado é um pouco a história do século XX no Brasil, uma vez que ele nasceu em 1912 e faleceu em 2001, tendo passado por diversas fases históricas e políticas do nosso país, desde a Primeira República e o Tenentismo até o Golpe Militar de 1964 e a redemocratização, a partir de 1985.
O livro Jorge Amado: Uma biografia: Joselia Aguiar, São Paulo: Todavia, 1ª ed, 2018, 640 páginas, é daqueles livros para você levar para a praia, numa viagem de férias. O livro é como um amigo de conversa agradável. Falar em amigos, Jorge Amado tinha muitos. Os amigos da Academia dos Rebeldes e depois, os amigos que angariou e conquistou ao longo da vida, entre eles, Érico Veríssimo, Raquel de Queiroz, Eduardo Portella, o poeta Pablo Neruda, Calasans Neto, Carybé, e muitos outros, jovens ou velhos. Recebia muita gente em sua casa, sendo que às vezes quando chegava de viagem, pedia para não anunciarem sua volta, para dar tempo de escrever.
Foi um dos escritores mais prolíficos do Brasil, tendo escrito por 62 anos, praticamente sem cessar, desde sua estreia, com o País do Carnaval (1930) até o livro de memórias Navegação de cabotagem (1992), passando pela fase de maior preocupação social, com Cacau, Suor, Jubiabá, Mar morto, Capitães da areia e os Subterrâneos da liberdade, até a segunda fase de sua obra, mais identificada com a brasilidade e o modo de ser do povo brasileiro, o cotidiano, a miscigenação, a sensualidade e a força da mulher. Seja numa fase ou outra, entretanto, seus personagens tinham os dois pés na realidade. Retratou jagunços, prostitutas, coronéis, lavradores, mães de santo, meninos de rua, cozinheiras etc. Jorge escreveu sobre o povo brasileiro, revelando para o mundo cores e sabores do Brasil.
Joselia Aguiar dedicou 7 anos para fazer a pesquisa e escrever a biografia do maior romancista brasileiro. Valeu a pena! Ao final do livro, a consulta às notas, fontes e bibliografia, dão conta do mergulho profundo no universo amadiano feito pela biógrafa, que entrevistou dezenas de pessoas para compor a obra, entre elas Alberto da Costa e Silva, Clara Charf, Eduardo Portella, Eric Nepomuceno, José Sarney, Paloma Amado, Stella Caymmi entre tantos outros.
O resultado foi uma obra que consegue retratar diversas facetas do escritor. A infância em Ilhéus, a escola em Salvador, a família na Bahia, os pais, os irmãos, os amores. A atividade política e a militância no partido comunista, a prisão, as muitas viagens pelas Américas do Sul, Central e do Norte para divulgar suas obras. Posteriormente, as viagens para a Europa, principalmente Portugal e França. Em 1945, o romancista se apaixonou por uma mulher filha de anarquistas católicos, Zélia Gatai, sua companheira de toda a vida, com quem foi feliz e teve filhos e netos. Principalmente depois, de Gabriela cravo e canela, quando deixou a militância política, Jorge Amado tornou-se mais tranquilo e sóbrio. Não fugia de brigas, mas também não as alimentava, deixando críticos ferozes destilando veneno e falando sozinhos, como Otto Maria Carpeaux e Jacob Gorender.
Um dos capítulos mais significativos do livro, entretanto, chama-se "O desencanto", que descreve o desapontamento de Jorge Amado e outros intelectuais quando vieram a tona, em meados dos anos 1950, os expurgos, prisões, mortes e as atrocidades cometidas por Joseph Stálin, revelado ao mundo, afinal, um ditador cruel e desumano. Para quem acreditava no comunismo como força propulsora de um mundo melhor, mais justo e igualitário, foi como cair do cavalo. A decepção foi tão grande que Jorge ficou anos sem escrever. Ele viajou por diversos lugares e, quando retornou, seu primeiro romance foi Gabriela cravo e canela, inaugurando assim uma nova fase em sua literatura, onde Jorge se revelava mais solto, menos dogmático, menos preso à temática da luta de classes e da desigualdade, sendo que o humor estava mais presente.
O que fica da leitura é um maior conhecimento do homem e sua obra. Jorge era uma pessoa expansiva, de muitos amigos, de gestos nobres e generosos. Era um homem de convicções, sem ser chato e sem querer impô-las aos outros. Sabia conversar e se dava tanto com pessoas de esquerda como com pessoas de direita. Num dia era capaz de almoçar com Oscar Niemayer e no outro dia com Antonio Carlos Magalhães. Também era um homem caseiro, que gostava de ficar com a família e escrevia na mesa da sala sem camisa ou com camisa aberta rodeado pelos netos, que brincavam pelo chão.
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