Seu pai, um advogado sério e sócio de um escritório no centro de Seattle, era habilidoso com as palavras, calmo e estrategista. Sua mãe era de uma família rica do Estado de Washington. A sociabilidade dos pais de Bill Gates (principalmente da mãe) mantinham a casa movimentada durante o ano todo, com recepções e jantares. Os pais eram trabalhadores, honestos e preocupados com a comunidade local, que ajudavam. A mãe nunca abandonou o trabalho voluntário. Além disso, muito antes do feminismo ganhar terreno, ela foi membro de conselho de grandes empresas de capital aberto. Na educação dos filhos, o pai era mais bondoso e liberal e a mãe, mais severa e rígida, exigindo resultados. Assim, fatalmente, na época da adolescência houve conflitos e Bill Gates virou rebelde. Resultado: os pais colocaram-no em uma terapia na qual, ao final, o terapeuta aconselhou os pais a pegarem mais leve com o filho, deixando-o escolher seu próprio caminho. Bill Gates também teve forte influência da avó materna, Gami, uma mulher progressista, moderna, e, ao mesmo temo, adepta da Ciência Cristã. Para Gates, era incompreensível como sua avó, sendo racional, culta e educada, relutava em entrar num hospital ou nunca recorresse a medicamentos modernos.
Filho do meio, Bill Gates era curioso e desenvolveu desde cedo o hábito da leitura; lia enciclopédia avidamente, queria saber sobre tudo e virou até assistente bibliotecário na escola. Gostava de ler, pesquisar e coletar informações. Falando assim, parece até que viraria cientista ou professor de universidade, mas a vida o encaminharia para o fabuloso negócios dos computadores pessoais, que teve início na década de 1970, mas chegou com força no mercado nos anos 80 e 90. A aproximação precoce com os computadores se deu por um golpe de sorte, quando a Lakeside, sua escola particular, resolveu comprar um PDP-10 para estimular os alunos. Além de Bill Gates, havia mais três aficcionados: Kent, Ric e Paul Allen.
Esses 4 alunos, que mexiam todos os dias no computador da escola, logo começaram a entender de linguagem de programação e a visualizar aplicações práticas, como organizar a grade de horários da escola com um software. Daí para usar o computador de uma empresa grande de Seattle foi um pulo. Bill Gates nutria, desde cedo, a vontade de escrever um programa de computação que pudesse ser útil. Lakeside era uma escola preparatória para meninos oriundos de famílias ricas de Seattle. Lá, Bill Gates passou sua adolescência entre livros, professores exigentes e teve suas primeiras experiências com computação. Seu melhor amigo era Kent Evans, um menino obstinado que se empenhava ao máximo em todas as atividades e levava tudo ao limite, mas que acabou morrendo em uma escalada. Depois da morte de Kent, Gates retomou a amizade com Paul e Ric e, em seguida, estavam atrás de um microprocessador da Intel, inovação que iria mudar tudo.
Em Harvard, Bill Gates nunca se encontrou, mas encontrou o único computador que havia na universidade, utilizando-o de maneira compulsiva nos espaços livres deixados pelos alunos mais velhos. Isso determinava uma rotina maluca, marcada por trocar a noite pelo dia. Bill Gates até aproveitou as muitas matérias que conseguia escolher, como matemática avançada, mas descobriu que, apesar de ser muito bom em matemática, não era bom o bastante. Então migrou para matemática aplicada, pois tinha uma aplicação variada e muito útil em diversos campos. Ao mesmo tempo, frequentava outras aulas. Até que alguns amigos que o conheciam melhor começaram a dizer: "Porque você não faz um curso de ciência da computação?". Ele não fez esse curso, se é que havia em meados dos anos 70. Ao invés disso, trancou a matrícula e voou para Albuquerque, no Novo México para trabalhar com desenvolvimento de softwares em parceria com a empresa MITS (Micro Instrumentation and Telemetry Systems), empresa fundada em
1969 que, além de kits eletrônicos, ficou famosa por criar o
Altair 8800, um dos primeiros computadores pessoais, que é considerado
um marco na história da informática pessoal. Em Albuquerque, Bill Gates e Paul Allen estabeleceram moradia, escritório, desenvolveram versões do Basic e assinaram contrato com a MITS.
Nota-se que o livro "Código-fonte: como tudo começou" - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025, 372 pág.", foi escrito com sinceridade, mas é bom lembrar que se trata de uma autobiografia; portanto, com uma visão parcial dos acontecimentos. Advirta-se, igualmente, que a obra não retrata toda a vida do Bill Gates, mas somente até seus 28 anos. Assim, não há relatos sobre o seu casamento com Melinda Gates, nem sobre a fundação de ambos. O que fica da leitura é a paixão do empresário por computadores, mais especificamente sua obsessão em desenvolver softwares, sua capacidade de concentração ao realizar um trabalho, bem com a precocidade em criar sua própria empresa num ramo inovador.
Um dos capítulos mais interessantes é "Micro-soft" (com hífen), nome dado à empresa porque remete à ideia de microcomputadores em conjunto com softwares. Depois de usar e abusar do único computador de Harvard em 1975, Gates decide ir para Albuquerque, no Novo México trabalhar em associação com a empresa MITS, de Ed Roberts. Ele vai primeiro. Depois convida Paul Allen para se juntar. Em 1975, somente havia o início dos computadores de uso pessoal, que não serviam para muita coisa. Para ter utilidade, um computador precisava ter um bom software que lhe desse aplicações práticas. O livro conta que, nessa época, os computadores caíram no gosto da contracultura, sendo que os aficionados encaravam a nova tecnologia numa perspectiva de mudança social e livre circulação de ideias. Era uma época em que as pessoas faziam cópias piratas de softwares, por acreditarem que aquilo deveria ser compartilhado gratuitamente em prol da sociedade.
Nas palavras de Bill Gates: "[e]m sintonia com a cultura hippie do mundo emergente do computador pessoal, havia um consenso de que todo software deveria ser gratuito. Os programas eram algo a ser copiado de um amigo, compartilhado abertamente ou mesmo roubado. (...) Já o equipamento físico, o hardware, era outra história. Era algo tangível. Ficava sobre sua mesa. Você podia ouvir o zumbido da ventoinha. Quando se encostava nele, sentia-se o calor da fonte de alimentação. (...) Em contraste, o software era algo virtual, pequenos fragmentos de informação armazenados numa fita magnética ou inscritos de modo indecifrável num rolo de papel. Era preciso um salto imaginativo para reconhecer que alguém passara milhares de horas projetando, escrevendo, depurando e se esfalfando para fazer um programa funcionar. E como este sempre havia sido gratuito, por que não o distribuir da mesma forma? Mas o que eu e Paul queríamos era montar uma empresa. Nossa convicção, consolidada em muitas conversas que avançavam pela madrugada, era que, à medida que os computadores pessoais ficassem cada vez mais baratos e fossem adotados em pequenos negócios e lares, haveria em consequência uma demanda quase ilimitada por programas de alta qualidade". Sem dúvida, Bill Gates abriu uma trilha num caminho que ainda não havia sido percorrido: criou uma empresa de softwares para computadores de uso pessoal. Uma mudança crucial dos últimos 50 anos.

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