Quando eu era adolescente e lia sobre cinema no Caderno2 do Estadão, nos anos 80 e 90, lembro dos artigos de Ruy Castro e outros colunistas relatando a vida de atores, como Marlon Brando, por exemplo, que eram rebeldes e não se dobravam à indústria do cinema. Histórias de atores que não topavam fazer um filme puramente comercial ou se vender para o sistema, como se dizia na época. Eu achava aquilo o máximo. Vibrava com a resistência de um só indivíduo à toda uma indústria que moía carne e espíritos para fazer dinheiro. Hoje isso já não é mais possível. Pois se antes a indústria do cinema poderia ser comparada a um Golias ou um Godzilla, que poderia ser derrotada, agora virou uma Matrix invencível que a tudo e a todos engole.
Depois, com o tempo, fui descobrindo aos poucos o que significava aquela indústria. Já sabia que a indústria do cinema sacrificava a criatividade, a beleza e boas histórias em prol do lucro máximo. A história do cinema é demasiada longa e não é nossa intenção fazer um resumo aqui. Mas, de uns tempos pra cá (mais de uma década, pelo menos), venho me desiludindo com o cinema, que só lança filmes de super heróis, histórias da Marvel e sequências. Não tem mais filmes bons, criativos e surpreendentes como antigamente, como Era uma vez na América, O selvagem da motocicleta, Rocky - o lutador, Rain Man, O nome da Rosa, Os intocáveis, Dança com lobos, Nada é para sempre, Os imperdoáveis etc. Parece que acabaram as boas histórias ou todos os bons roteiristas foram demitidos de Hollywood. Blockbusters sempre existiram, eu sei, mais isso não impedia de haver excelentes filmes, fossem eles independentes ou não.
No livro Impérios da Comunicação (The Master Switch), Tim Wu conta como o fracasso de um filme (Portal do Paraíso, Michael Cimino) levou à derrocada da United Artists nos anos 80 e fez com que, para se proteger de falências, estúdios de Hollywood se unisse a outras mídias para se proteger e formar o que se convencionou chamar de conglomerado de mídia, salvaguardando-se de desastres financeiros por um lado, mas matando a sétima arte ao tirar-lhe oxigênio, coração, criatividade e sensibilidade artística. De lá para cá tudo piorou muito quando novas fusões da indústria cultural ocorreram.
Tim Wu escreve: "A derrocada da United Artists no início dos anos 1980, seguida pelo segundo fechamento da indústria cinematográfica, representa mais um giro do Ciclo e o começo de uma nova ordem que dura até hoje. Foi o momento de triunfo de outro tipo de abordagem, que coincidiu com a emergência do conglomerado de mídia. Seu herói máximo foi um homem chamado Steven Ross, ex-agente funerário que inaugurou uma nova maneira de organizar a indústria de entretenimento. Diferente de uma empresa autossuficiente como a United Artists, a Warner Communications (hoje Time Warner Inc.) abrigava dezenas de mídias e diversas atividades sob o mesmo teto. Essa perspectiva se difundiria pelos anos 1980 e 1990, para se tornar dominante na organização industrial de cinema, músicas, revistas, jornais, publicação de livros - em todas as formas de conteúdo que já foram chamadas de "lazer". (...) O conglomerado é a forma organizacional dominante nas indústrias da informação do final do século XX e começo do XXI" E, se por um lado pode proporcional estabilidade e segurança financeira, por outro lado, o conglomerado pode sufocar a criatividade, apenas preocupado em maximizar os lucros.
Tim Wu explica o fenômeno por trás do desenvolvimento da propriedade intelectual e da estratégia já conhecida das sequências de sucessos comprovados como Tubarão, O Exterminador do futuro e Rambo para fazer mais dinheiro: "Nos anos 80, começou a surgir outra variante dessa abordagem, em que os filmes podem ser considerados um sistema de cessão de um direito autoral subjacente. Nessa abordagem, todos os filmes estão ancorados a uma propriedade intelectual subjacente, em geral um personagem, seja cinematográfico ou extraído de uma revista em quadrinhos, como Batman ou de uma figura literária como Harry Potter. Dessa forma, o filme é ao mesmo tempo um produto em si mesmo e também, de fato, uma propaganda de noventa minutos dessa propriedade subjacente. O retorno não inclui apenas a receita da bilheteria como também a valorização da propriedade e das receitas associadas ao licenciamento - merchandising, lançamento de brinquedos ligados aos filmes e outros derivados".
Nessa tranformação, o cinema perde muito como arte. O cinema, 100 anos depois da criação dos grandes estúdios, não consegue mais emocionar platéias, apenas fazer barulho com explosões, super-heróis e preocupado com o merchandising de seus produtos. A indústria cultural na área do cinema repete velhas fórmulas sob uma nova roupagem. Apenas mais do mesmo. Nada que pudesse causar espanto em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Privilegia-se a forma e a variedade de produtos em detrimento do conteúdo. Privilegia-se a segurança financeira em detrimento da criatividade artística e do conteúdo original.