Era uma família feliz. Moravam todos no Rio de Janeiro em uma casa em frente à praia. Em uma casa grande o suficiente para o casal e seus cinco filhos, quatro meninas e um menino, sendo que o caçula chama-se Marcelo Rubens Paiva, escritor já conhecido do público. Era uma casa afetiva, que recebia muitos amigos para almoços, festas, conversas e confraternizações. Mas a felicidade durou somente até o dia 20 de janeiro de 1971, quando a violência do Estado repressor adentrou as portar daquele lar. O chefe da família, marido de Eunice e pai da criançada, Rubens Paiva, foi levado para interrogatório, sem apresentação de mandado, por homens que se diziam da Aeronáutica. Ele nunca mais voltou. Rubens Paiva foi um dos 136 desaparecidos políticos do período do Regime Militar no Brasil (1964-1985).
O filme "Ainda estou aqui", de Walter Salles, baseado na obra literária homônima de Marcelo Rubens Paiva, conta o drama
de uma família durante o período da Ditadura, cujo chefe da família é levado pelos militares e nunca mais
retorna. Rubens Paiva tinha 41 anos quando foi preso em sua casa e conduzido coercitivamente. Sua mulher, Maria Lucrécia Eunice Facciolo Paiva, junto com uma das filhas, também foi levada para interrogatório e submetida a tortura. Mas ao final de prisão, sem direito a banho, foi solta. Sobreviveu, juntou os cacos da sua alma, reergueu-se, vendeu a casa do Rio de Janeiro e acabou de criar os cinco filhos. O filme é sobre essa mulher corajosa que teve que se reinventar depois do desaparecimento do marido.
Suponho que Marcelo Rubens Paiva quis escrever essa história como uma terapia, para conseguir digerir a violência sofrida pela família e a história da mãe. As vezes o escritor escreve para purgar a dor, ou para entender o que se passou. Aqui ele escreveu a história de Eunice, sua mãe. Soube que, no livro, Marcelo escreveu a história em primeira pessoa, contando também detalhes sobre a vida da mãe e a doença de Alzheimer que a acometeu. Já no longa-metragem, a história é contada sob a perspectiva de Eunice Paiva. Em entrevista, Marcelo conta que, fora a atuação estupenda de Fernanda Torres, que ganhou vários prêmios ao redor do mundo, a atuação de Selton Mello impressionou a ele a às suas irmãs, pois Selton, somente pela leitura do livro, soube captar a alma de seu pai, encarnando o engenheiro de uma forma muito realista.
Rubens Paiva foi deputado federal pelo PTB; todavia, com o Golpe Militar, foi cassado no dia 10 de abril de 1964, por força do Ato Institucional nº 1. A partir de 1966, já sem mandato parlamentar, começou a trabalhar em uma empresa de engenharia. Era, portanto, um profissional liberal. Não havia mais atividade política direta. De concreto, ele e mais meia dúzia de amigos, ajudavam exilados no Chile a se comunicar, por cartas, com seus familiares no Brasil.
O filme é excelente. A reconstituição de época é impressionantemente bem feita. Somos transportados para a década de 1970. As roupas, as casas, os carros, o jeito de ser... tudo! Trata-se de uma história pessoal de Walter Salles também, pois ele era amigo de uma das filhas de Eunice Paiva e frequentava aquela casa cheia de vida. A trilha sonora, inclusive, é bem interessante. Tem Tom Zé, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Gosta.
O longa, depois de metade do filme, faz um corte. Depois de 25 anos, em 1996, o filme mostra Eunice e dois filhos indo para o Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, para buscar a certidão de óbito de Rubens Paiva. Em pesquisa ao CPDOC da FGV, consta que José Gregório, chefe de gabinete do ministro da Justiça Nélson Jobim, declarou à imprensa, à época, "que o governo fez o 'mínimo que as famílias precisam e o máximo que os militares aceitariam'. Nesses termos o presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) assinou, em dezembro de 1995, a Lei 9.140, autorizando a emissão de atestados de óbito que regularizassem o estado civil das famílias dos desaparecidos, e o pagamento de indenizações". Ainda segundo o CPDOC, "[e]m 23 de fevereiro de 1996 a União expediu a certidão de óbito de Rubens Paiva, declarando-o desaparecido desde 1971. A família abriu mão do direito à indenização a ser paga pelo governo".
Então o filme é sobre o desaparecimento de Rubens Paiva e sua família, mas, sobretudo, o longa é sobre Eunice Paiva e a força de uma mulher que ficou viúva de repente,
com 5 filhos para criar. Com o desaparecimento súbito do marido, o dinheiro secou. Ela teve
que vender um terreno, despedir a empregada e mudar a família do Rio de Janeiro
para São Paulo, para perto dos avós. Uma mudança prática, necessária, mas doída para os filhos. Ao mudar-se para São Paulo, Eunice Paiva cursou Direito e, depois de formada, foi uma das pioneiras a dedicar-se à defesa jurídica da causa indígena. Um feito notável. Após o término da sessão de cinema o público aplaudiu. Coisa raríssima de acontecer.