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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Primeiro Leitor

Como leitor de uma vida inteira, sempre tive curiosidade de saber como funciona uma Editora, o que se passa lá dentro, quais as funções e os cargos nesse tipo de empresa, dedicado a editar livros. Será que eles leem todos os manuscritos que os candidatos a escritores enviam? Como é feita a escolha? Como nasce uma Editora? Quais são os desafios desse tipo de empresa? Luiz Scharwcz responde a algumas dessas perguntas na obra O primeiro leitor: Ensaio de memória/Luiz Schwarcz. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Mas não é um manual de como montar sua própria Editora. São memórias. Ele conta passagens da sua vida e do mundo dos livros.  

Luiz Schwarcz é um editor que não se gaba, nem se vangloria de seus feitos. Ele tem horror à vaidade e à autopromoção. Por vezes encontramos passagens em que ele diz que o mérito não é dele, que o trabalho é da equipe, dos escritores etc. Mas o fato é que a Companhia das Letras, editora que ele fundou há 39 anos está viva e funcionando até hoje, coisa rara no Brasil. Então algum mérito aquele rapaz do início da década de 80, aquele rapaz cujos ídolos eram Caio Graco Prado e Jorge Zahar tem. Sim, ele teve uma boa escola, chamada Brasiliense. 

Com efeito, Luiz Schwarcz descreve o início da sua vida profissional na Editora Brasiliense e como essa rica experiência o ajudou a angariar know how para tocar o dia a dia de uma Editora e, um tempo depois, fundar a sua própria. Aliás, Uma das coisas mais saborosas no livro é como surgiu a "Coleção Primeiros Passos" na Brasiliense (quem não se lembra?), a que depois se seguiu "Tudo é História", "Cantadas Literárias" e outras, transformando a Editora Brasiliense, no início da década de 80, em uma usina de ideias e de bons livros.  

Prestando atenção na leitura, fica-se sabendo que dentro de uma Editora existem várias figuras, cada qual com sua função: editor, produção gráfica, preparadores de texto, tradutores, capistas, diretor editorial etc. Na minha opinião, faltou falar um pouco dos bastidores e do intercâmbio desses vários departamentos dentro da editora. Também faltou falar do trabalho dos agentes literários, figura que não existia antigamente e que hoje passou a ser fundamental.  

O livro atendeu minhas expectativas em parte. Fica-se sabendo o início da sua vida profissional na Brasiliense e como era seu relacionamento com Caio Graco Prado; o início da FLIP (Feira Literária de Paraty) e a inveja dos editores do Rio de Janeiro; a fogueira de vaidades que é a Feira de Frankfurt, para onde editores do mundo inteiro se dirigem, levando seus egos enormes a tiracolo para comprar obras que ouviram falar bem, mas não leram; e alguns fatos curiosos do mundo editorial: um deles foi a longa luta para que o romance Ulysses, de James Joyce, fosse publicado nos Estados Unidos no anos 30, em uma época que vigorava uma forte censura por lá. Por outro lado,  ao contar seu relacionamento com autores da Companhia das Letras, muitas vezes de forma superficial, Schwarcz expõe desnecessariamente defeitos e idiossincrasias de autores que a casa abrigou sob o seu teto. 

Ruy Castro, Susan Sontag, Ruben Fonseca, Andrew Solomon, José Saramago e Milton Hatoum são apenas algumas estrelas literárias da Constelação que a Companhia já abrigou ou abriga no seu céu de letras. A proposta, desde o início, foi criar e manter uma editora de qualidade, uma editora de primeiro mundo, por assim dizer, que dignificasse a literatura, os escritores e respeitasse os leitores. Conseguiu. Hoje é referência.