Translate

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Yosemite

Yosemite é um mergulho na natureza norte-americana que vale a pena fazer uma vez na vida! O Yosemite National Park é gigantesco, com dezenas de trilhas, muitas cachoeiras, rios, um imenso vale e montanhas lindas. Os americanos adoram! Para quem gosta de turismo ao ar livre, natureza, trilhas e respirar ar puro, é uma ótima ideia. Mas cada épocas do ano tem sua beleza e seus inconvenientes. Pesquise antes de ir.

Os EUA têm parques nacionais gigantescos com uma beleza selvagem e protegidos por leis federais. Yosemite é um deles e fica no norte do estado da Califórnia.São mais ou menos 4 horas de viagem a partir de São Francisco, a cidade grande mais perto de Yosemite. A estrada é boa, mas antes de chegar no parque pega-se uma rodovia com muitas curvas acentuadas que vai subindo e serpenteando a montanha. Dica: vá devagar, apreciando a paisagem. No caminho até lá, passa-se por uma região que foi muito explorada por mineiros e garimpeiros na época da "febre do ouro". 

No primeiro dia, chegamos ao parque com o sol a pino e pegamos muito sol e calor na trilha das sequoias gigantes, que não tem muita cobertura vegetal, ao contrário do que eu esperava. Vimos muitas sequoias queimadas. Depois, ficamos sabendo que o fogo controlado é uma técnica para incentivar as sequoias a se reproduzirem. O resultado, porém, pelo menos no verão, não é muito agradável de se ver. A temperatura estava em torno de 33º C, 34º C. O calor estava infernal nesse verão de 2023. Hoje em dia, qualquer pessoa pode constatar, por experiência própria, como as mudanças climáticas estão atuando fortemente no planeta, que está aquecendo. No verão, é preciso um bom boné ou chapéu, roupas leves e uma garrafa de água. Mas esse primeiro dia valeu a pena para conhecer o Glacier Point, um lugar alto do qual se tem uma vista deslumbrante e é possível ver o Half Dome. 

O lugar era habitado por indígenas na época da colonização espanhola. Conta-se que quando os espanhóis puseram os pés naquelas terras encontraram indígenas de uma tribo que, ao serem interrogados, apontaram o dedo para lá e disseram: "-Yosemite", que quer dizer "killers" (assassinos), querendo dizer que lá estavam indígenas de outra tribo que tinham assassinado um dos seus. Tempos depois, já em domínio dos EUA, em 1864, Yosemite Valley e Mariposa Grove foram cedidos ao estado da Califórnia para que fosse administrado. No mesmo ano foi assinado o Yosemite Grant Act pelo então presidente Abraham Lincoln, uma lei para regulamentar a região e torná-la um parque nacional.

Yosemite é um parque gigantesco em que os visitantes entram de carro e gastam um bom tempo nas estradas. O bom de fazer excursão é que o guia já te leva nos melhores pontos para fotos e para apreciar a paisagem sem perda de tempo e sem risco de se perder. Sim, muita gente se perde dentro do parque, de carro ou a pé, nas trilhas. E são vários os pontos de parada obrigatória para conhecer: Glacier Point, Merced River, Half Dome, El Capitan, Yosemite Valley, Yosemite Fall trail, e muitos outros pontos. Isso só para ficar no que eles chamam de "Yosemite basics". Não dá para conhecer tudo. Não a toa, tem famílias americanas que vão e ficam no parque por uma semana inteira. 

Uma boa notícia é que você pode se hospedar lá dentro do parque, ou melhor, do vale, seja nos acampamentos, nos Lodges ou ainda nos dois hotéis que tem lá. A região é bem guarnecida de opções para dormir. Pesquise antes de ir. Também há locais para refeições, como o Yosemite Lodge Food Court, no Base Camp, uma boa opção antes de começar o dia e fazer qualquer uma das dezenas de trilhas. Tomamos café da manhã lá e depois de dormir e descansar, numa temperatura agradável, conseguimos fazer uma trilha de 3 horas curtindo a natureza, os esquilos, as cachoeiras e as montanhas. Foi incrível. Yosemite é um mundo à parte, como dizem alguns americanos.

domingo, 21 de maio de 2023

O que é meu é tudo aquilo que eu vi e gravei na memória

Um filho, que é sociólogo, escreve, em tom intimista, sobre o pai, José Bortoluci, nascido em Jaú/SP, em 1943, cujo apelido era Didi, mas na estrada era conhecido como Jaú. O pai, que trabalhou a vida inteira como caminhoneiro, foi diagnosticado com câncer colorretal em dezembro de 2020. O livro é uma aproximação, um encontro e uma despedida.

Enquanto concebia um jeito para escrever sobre o pai e sua profissão, talvez uma biografia, talvez um história social dos caminhoneiros, José Henrique Bortoluci, o filho, foi pego de surpresa pela notícia de uma metástase e os acontecimentos se precipitaram. O resultado foi um relato sobre as estradas que o pai já percorreu, uma espécie de memórias do pai e, de quebra, um ensaio sociológico sobre o Brasil de meados da década de 1960 para cá.

"Palavras são estradas", escreve o filho. "É com elas que conectamos os pontos entre o presente e um passado que não podemos mais acessar. (...) Palavras eram o presente que meu pai trazia de caminhão em minha infância. Elas ressoavam isoladas - boleia, transamazônica, carreta, rodovia, pororoca, Belém, saudades -, ou então formavam narrativas sobre um mundo que parecia grande demais. Eu tinha que imaginá-las com todas as cores, gravá-las na memória, me agarrar a elas, pois logo meu pai iria embora para voltar só dali a quarenta, cinquenta dias".

O filho, para superar o choque e a tristeza do diagnóstico dessa doença implacável chamada câncer, grava seis longas entrevistas com o pai, enquanto este está vivo, para entender esse pai e se aproximar do seu universo, que foi passar a vida na estrada, a carregar mudas de cana, soja, mantimentos, areia, pedra, o que fosse, percorrendo as estradas do país. O livro, escrito em plena pandemia do coronavírus, foi uma forma de superar a dor individual e coletiva.

Eu vi tanta coisa, filho. Devia ter tirado foto, ter escrito. Celular, essas coisas assim, não tinha. Não existia não. A única coisa que dava era pra ter fotografado com uma Kodak, essa máquina de fotografia branco e preto, mas o pai nunca teve. Porque se eu tivesse gravado tudo que eu fiz, você ia sentir o maior orgulho do seu pai. O que é meu é tudo aquilo que eu vi e gravei na memória. Então a única coisa que posso fazer é tentar recordar e contar.

O autor consegue costurar as memórias do "seu velho" pai caminhoneiro com suas análises sociológicas sobre esse Brasil grande e contraditório, que aposta no progresso, mas não investe na educação; que constrói estradas e abandona as ferrovias; que prega a liberdade de expressão, mas pede a volta da Ditadura; cuja elite ilustrada se instala no Sudeste e  dá as costas para a preservação da Amazônia. O filho culto, doutor em sociologia, entrevista o pai, que cursou só até a quinta série, mas que tem uma visão prática da vida, trabalhando desde menino e depois carregando muita carga debaixo da lona do seu caminhão. Ficam as histórias... 

Eu comecei a trabalhar com sete anos de idade com trator, arando terra. O vô Joanin naquela época tinha um sítio pequeno com os irmãos dele e tinham um tratorzinho. E sabe como que é criança... Eu via o vô guiar, subia no trator. Aqueles tratorzinhos de antigamente era igual aos de brinquedo de hoje, bem pequeno, mas eu era menor ainda. Então não tinha como eu trabalhar sentado no banco, eu ficava de pé no estribo. E arando terra a tarde inteira. Eu saía da escola, ia pra roça, ficava até cinco, seis horas da tarde. De sete até dez anos fiquei nessa vida, e foi aí que abandonei a escola e só trabalhava. Aos quinze ano, os meus pai mudou para a cidade e eu entrei pra trabalhar numa oficina. E trabalhei sete anos nessa oficina. Então foi assim: dos sete aos quatorze eu trabalhei como tratorista, dos quatorze até os vinte e um mais ou menos eu trabalhei como mecânico, e já com vinte e dois deixei a profissão de mecânico e fui pra pista.

"Pé na estrada e chuva no rastro", diz o ditado. É preciso sempre seguir em frente! No decorrer dessa longa estrada da vida, no deparamos com trechos fáceis e difíceis, muitas curvas, às vezes um lamaçal e até atoleiros dos quais precisamos de ajuda para sair. A estrada é uma metáfora da vida. E cada qual carrega uma carga no seu caminhão. Carga emotiva, inclusive. O que é meu, José Henrique Bortoluci, São Paulo: Fósforo, 2023, 138 pág. é um livrinho pequeno, quase de bolso, mas é enorme na grandeza emocional. O livro é uma preciosidade, uma viagem sobre o Brasil. Uma estrada sentimental que vale a pena ser percorrida. 

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Menina de ouro

Boxe é a magia de lutar além da resistência, "é a magia de arriscar tudo por um sonho que só você vê", diz a certa altura Scrap (Morgan Freeman), personagem e narrador do filme "Million Dollar baby" (Menina de ouro), 2005, filme dirigido e atuado por Clint Eastwood e com roteiro de Paul Haggis. A trilha sonora é composta de uma única música de piano, melancólica, que dá o tom emocional da trama. A medida que Eastwood foi envelhecendo foi tornando-se minimalista na direção.

Frankie Dunn (Clint Eastwood) é um cara "casca grossa", passou a vida nos ringues, tendo agenciado e treinado grandes boxeadores. Sua sala está cheia de troféus, mas ele já está numa fase decadente. Magoado com o afastamento de sua filha, Frankie apenas se relaciona com Scrap (Morgan Freeman), seu único amigo, que cuida também de seu ginásio. Até que surge Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), uma jovem determinada que possui um dom ainda não lapidado para lutar boxe. Maggie quer que Frankie a treine, mas ele não aceita treinar mulheres. Apesar da negativa, Maggie decide treinar mesmo assim e insiste. Vencido pela determinação de Maggie, Frankie finalmente aceita treiná-la. 

Maggie chega do escuro, do nada, da sarjeta para tentar a glória num ginásio decadente em Los Angeles. Um sonho impossível. Ela veio do Missouri, da parte profunda dos EUA, daqueles americanos caipiras. Ela cresceu sabendo que era pobre, fazendo parte daquela camada social que é considerada trash, a ralé, que serve os fregueses, que limpa as mesas e varre o chão. No fundo, é a camada que faz o mundo girar, pois sem eles não haveria nenhum tipo de serviço (a cena em que ela limpa mesas foi filmada em Venice Beach, Los Angeles). Maggie é uma moça que não tem nada de material. Vive uma vida simples de proletária e mora num pardieiro. Ao mesmo tempo, ela é vontade, coração, músculo, pulmão, gana, tudo! Ela encarna a busca americana por uma oportunidade. Hilary Swank convence no papel, tanto assim, que ganhou o Oscar de melhor atriz nesse filme. Quando Frankie finalmente aceita treiná-la, ela parece uma criança de tanta felicidade! Ela não quer caridade, nem favores. Ela só quer lutar boxe profissional e quiçá ser campeã. Aliás, ela tem certeza que será campeã.

Mas o filme é triste. Há golpes da vida que nos derrubam às vezes. Golpes, pancadas, deslealdades. Há golpes da sorte ou do destino... Bem por isso Frankie costuma passar aos lutadores sua regra número um: lute, mas proteja-se o tempo todo. Mesmo assim, há conflitos, como na vida real, que parecem insolúveis. Há o afastamento da filha de Frankie que, apesar das dezenas de cartas, nunca lhe responde, nunca dá sinal de vida. Há também a ingratidão da família de Maggie, composta por um bando de aproveitadores. Não se compra o amor de ninguém. Abandonados, por assim dizer, por seus familiares, Frankie e Maggie tem um ao outro. Treinador e lutadora. "Mo Cuishle".  

Cinema e boxe foi um casamento que deu certo, haja vista os filmes "Touro indomável", de Scorsese, a saga Rocky, com Sylvester Stalonne e inúmeros outros. O boxe é uma metáfora da vida. Afinal, a vida é luta! A vida é feita de derrotas e vitórias. A vida é uma questão de manter o equilíbrio, apesar de todos os socos e golpes que sofremos. 

Lembro que fui assistir "Menina de ouro" no cinema, no Gemini, da Av. Paulista em São Paulo. No tempo dos cinemas de rua... Fui duas vezes e chorei as duas vezes. Filme bom é aquele que te emociona ou faz pensar. Esse faz as duas coisas, com o toque sutil de Eastwood, no auge da direção. No meio de tantas porcarias hoje em dia no streaming, esse é uma filme que vale a pena ser visto e revisto. Não é o melhor filme de Clint Eastwood como diretor, mas é um dos cinco melhores. 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

A batalha das biografias

O maior trauma do "rei" Roberto Carlos ocorreu em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim/ES, aos 6 anos, quando um trem passou por cima de sua perna, o que lhe custou uma amputação logo abaixo do joelho. De outro lado, o maior trauma de Paulo Cesar Araújo ocorreu no dia 27 de janeiro de 2007 no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo/SP, quando, depois de 6 horas de audiência, na condição de réu em uma ação penal privada movida por seu ídolo, viu-se obrigado a assinar um acordo com o querelante e com os representantes da editora Planeta, o que significou a proibição e a retirada de circulação do livro Roberto Carlos em detalhes, fruto de laboriosos 15 anos de pesquisa. O escritor se sentiu abandonado pelos advogados da editora Planeta. Ambos tiveram perdas na vida. Não por acaso, traumas, é o título de uma das canções de Roberto. 

A sorte é que os traumas podem ser superados. Roberto Carlos aprendeu a conviver com a amputação da perna, tornou-se um cantor, buscou o sucesso, deu a volta por cima com a Jovem Guarda e o resto é história. Que, aliás, merece ser contada! Paulo Cesar de Araújo não desistiu daquela derrota no acordo judicial celebrado no Fórum da Barra Funda, que significou a proibição do seu livro e foi à luta. Para quem gosta de história da MPB, de biografias, de pesquisa, de Roberto Carlos, de batalha jurídica ou de tudo isso junto, recomendo a obra O réu e o rei: minha história com Roberto Carlos, em detalhes, Paulo Cesar de Araújo, 1ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 

Roberto Carlos é um artista incontestável, pelo sucesso e pela discografia. Eu mesmo que nasci em 1971 e cresci nos anos 80, achava na minha adolescência suas músicas bregas e piegas. Até que depois dos 30 anos me apaixonei e num momento de separação da minha atual mulher, um momento de muitas saudades, ouvi toda a discografia do Roberto Carlos dos anos 70, para mim indiscutivelmente a melhor fase do artista, e me rendi ao seu inegável talento. Mas o que fez Roberto Carlos processar o autor de sua biografia? Na cabeça de Roberto Carlos era inadmissível que uma terceira pessoa desconhecida contasse a sua história, incluindo momentos doloroso e íntimos, explorando a vida privada do cantor e ganhando dinheiro com isso. Ele viu exploração comercial. Na cabeça de RC, malgrado ele seja um artista famoso, somente ele poderia contar a sua própria história. Contudo, é sabido que os artistas são pessoas públicas, que fazem parte da história cultural do Brasil, de modo que é óbvio que, num país sério, com liberdade artística e de expressão, uma biografia respeitosa escrita por um autor sério não poderia se proibida como foi. Além disso, o próprio Roberto Carlos já contou trechos e momentos muito dolorosos e íntimos de sua própria vida em muitas canções confessionais. Falou de momentos difíceis da infância na música "O Divã", falou das dores pós acidente na música "Traumas"; de sua cidade natal na música "Meu pequeno Cachoeiro"; da vida conjugal na música "Quando as crianças saírem de férias"; do pai na música "Meu querido, meu velho, meu amigo"; do amigo Erasmo Carlos na música "Amigo"; da mãe na música "Lady Laura" e de sua fé na música "Jesus Cristo", entre tantas outras músicas confessionais.

O réu foi inteligente. Impedido de comercializar sua obra, por conta de um acordo judicial discutível, trazido à fórceps pela vontade e pressão do cantor em proibir aquela obra, de um juiz imparcial, de um entendimento de se proibir a publicação de biografias não autorizadas à época, da interpretação do art. 20 do Código Civil e de um medo da editora Planeta de pagar uma multa milionária, Paulo Cesar de Araújo mudou de tática. Ele então contou a história da sua vida, desde que era menino em Vitória da Conquista e comprava os discos de seu ídolo, passando por seu gosto por música nacional, pelo trabalho na ótica, pelas faculdades que cursou até a sua carreira como pesquisador e escritor. O livro que lhe rendeu mais alegria e não foi censurado foi "Eu não sou cachorro não", sobre a dita música brega e a coragem importância desses artistas, como Odair José e Agnaldo Timóteo, escrito e lançado antes do livro que foi censurado pelo "rei". 

Pesquisador incansável, Paulo Cesar de Araújo pelejou para entrevistar Tom Jobim, o primeiro de sua lista. Depois conseguiu entrevistar Caetano Veloso e por aí a lista só engrossou. Paulo Cesar entrevistou praticamente todos os músicos, cantores e cantoras do Brasil, de Tim Maia a Wanderléia, de Waldick Soriano a Chico Buarque. Nessa busca por entrevistas que começou na década 90, uma das passagens mais inusitadas e divertidas do livro é a amizade que fez com ninguém menos do que João Gilberto. Buscando marcar uma entrevista com o inventor da Bossa Nova, o pesquisador telefonou para João Gilberto, apresentou seu projeto de pesquisa e perguntou se poderia entrevistá-lo. Este, que é conhecido por ser um artista recluso e adorar um papo por telefone, a ponto de Tim Maia dizer que "João Gilberto não é uma pessoa, é um telefone",  lá pelas tantas perguntou ao pesquisador: "Você é baiano?". A partir daí começou uma conversa de quase uma hora. Meses depois, retomando a conversa, ao saber que Paulo Cesar não falava há 13 anos com seu pai, João Gilberto se espantou e o aconselhou de forma veemente: "Um pai nunca esquece um filho. Pois escreva uma carta para ele e vai ver como tudo irá melhorar. Isso vai fazer um grande bem para todo mundo (...)". O autor seguiu os conselhos do artista e tudo ficou bem. 

Fazer um bem para todo mundo fez o plenário do STF, em 10/06/2015, quando julgou a ADI 4815, que liberou as biografias ditas não autorizadas. "Cala a boca já morreu", disse Carmem Lúcia, relatora da ação, ao dizer que, no caso, o direito à informação e à cultura é mais importante do que o direito à privacidade do biografado. E, caso o biógrafo ofenda o biografado ou falte com a verdade, o Direito Brasileiro já tem instrumentos para reparar o dano. A ação direta de inconstitucionalidade proposta pela ANEL (Associação Nacional dos Editores de Livros) foi julgada procedente "para dar interpretação conforme à Constituição aos arts. 20 e 21 do Código Civil, sem redução de texto, para, em consonância com os direitos fundamentais à liberdade de pensamento e de sua expressão, de criação artística, produção científica, declarar inexigível autorização de pessoa biografada relativamente a obras biográficas literárias ou audiovisuais (...)".  Mas até lá a batalha jurídica foi longa e o livro, que foi escrito antes do julgamento da ADI 4815, conta essa batalha. O autor conta os bastidores dos dois processos judiciais que Roberto Carlos lhe moveu: um cível e outro criminal. Como num processo terapêutico, ele conta tudo para superar seu trauma.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Razão para viver

Viktor E. Frankl teve muito a dizer. Não só por conta de seus estudos de psiquiatria e psicologia na Viena de Freud, mas também pelas suas experiências pessoais e coletivas. Prisioneiro de guerra, ele conta sua experiência em quatro campos de concentração nazista. Frankl narra o sofrimento dos judeus na Segunda Guerra Mundial, com todas as letras e de forma consciente. Eu nunca havia lido um relato tão detalhado sobre a rotina de um prisioneiro num campo de concentração. Já havia assistido a filmes, como a Lista de Schindler, o Resgate do Soldado Ryan e A vida é bela, apenas para ficar nos mais famosos. Aqui, porém, o mergulho é mais realista e convida o leitor a reflexões sobre a dor, o sofrimento, a insanidade e o sentido da existência humana.

O relato da chegada do trem em Auschwitz é muito impactante. Assim como os primeiros dias, a seleção dos prisioneiros (quem ia trabalhar e quem ia para a câmera de gás), a fome, a apatia, as humilhações, as condições sub-humanas a que os judeus eram submetidos, o medo dos prisioneiros, a tensão pela sobrevivência, as mortes, o escárnio dos soldados alemães, o sadismo dos guardas, a inspeção dos alojamentos, os castigos, os trabalhos forçados, o caminho até a plantação, os sonhos dos prisioneiros e uma variedade enorme de detalhes são narrados por Frankl. O autor escreveu o livro em 1945, ao longo de apenas nove dias. Muito provavelmente ele sentiu a urgência de escrever enquanto seu ser estava impregnado com aquela experiência terrível e antes que sua memória se esvaísse. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração; Viktor E. Frankl, traduzido por Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline, 48.ed. - São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2019, é um livro dividido em 3 partes: 1) Em busca de sentido, onde é contada sua experiência no campo de concentração; 2) Conceitos fundamentais de logoterapia e 3) A tese do otimismo trágico. O livro tornou-se um clássico da psicologia e um best-seller internacional.

Para que continuar vivendo em um ambiente desses? Por que não cometer suicídio, como muitos prisioneiros fizeram? Por que a vida tem um sentido. Toda vida tem um sentido. Único. A razão pode ser um filho, uma esposa, um marido, uma mãe, um pai ou alguém que lhe seja especial. Também pode ser um trabalho, um dom, uma obra inacabada, um serviço para o bem ou inúmeras outras coisas. A vida tem sentido. Você só precisa encontrá-lo. Nenhuma vida é sem sentido. A vida é o bem mais precioso que um ser humano tem. Podem lhe tirar tudo, a casa, o trabalho, o dinheiro, a família e até a liberdade, mas ainda sim o prisioneiro conserva a vida. As pessoas com mais força interior conseguem conservar a dignidade e essa chama divina chamada esperança. A vida nos foi dada com percalços e pedras no caminho. Nem tudo são flores. São espinhos também. E a vida não é só o resultado do meio, das condições físicas, econômicas e psicológicas em que a pessoa vive. Mesmo vivendo em condições terríveis, remanesce na pessoa, no fundo do seu ser, uma liberdade interior capaz de optar, a cada hora, a cada segundo, se deseja progredir ou regredir na escala evolutiva; se deseja dar uma palavra de conforto ao seu colega que sofre ou fechar a cara e chutar as pedras do chão; se deseja manter a luz da esperança ou se entregar ao desânimo e ao desespero. Há sempre opção. Há sempre uma escolha na forma como encaramos a vida, mesmo nas condições mais miseráveis. Viktor Frankl, por pura sorte, escapou da morte mais de uma vez. Uma vez poupado, escolheu viver. Resistiu. Sobreviveu ao horror. Foi libertado. Recuperou-se, voltou a lecionar e a escrever, dedicando-se à nobre tarefa de não somente prevenir suicídios, mas ajudar as pessoas a encontrar um propósito para suas vidas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Memórias de um promotor público de São Paulo

Hélio Bicudo (1922-2018) foi promotor de Justiça de São Paulo, tendo atuado em Igarapava, Franca e Araçatuba antes de ser promovido para a capital. Defensor dos direitos humanos, atuou contra o Esquadrão da Morte na década de 70 e foi membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Também foi um dos membros fundadores do PT e deputado federal por dois mandatos, tendo se decepcionado com o partido e se desfiliado em 2005. O livro Minhas Memórias/Hélio Pereira Bicudo, São Paulo: Martins Fontes, 2006, 230 p. é conciso e, ao mesmo tempo, uma lição de vida. Um testemunho de alguém que procurou contribuir para a sociedade. Uma vida voltada ao interesse público.

Hélio Bicudo começa suas memórias contando sobre o chamado "Esquadrão da Morte", organização criminosa formada por policiais militares, que ajudou a combater. O esquadrão tinha esse nome porque matava pessoas. O pior criminoso é o policial criminoso; aquele que, investido em uma função estatal e protegido por uma farda e um distintivo, pratica crimes. Assim ele contextualiza: "O Brasil vivia o terceiro governo do regime militar instalado em 1964, presidido pelo General Emílio Garrastazu Médici. Desde 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que restringiu direitos individuais e ampliou o poder discricionário do Estado, o país tinha passado a viver sob uma ditadura explícita. A oposição ao governo se intensificou com a guerrilha urbana, iniciada por grupos de esquerda, que agiam na clandestinidade. A reação a esse movimento se deu na forma de forte repressão, exercida por unidades militares e grupos policiais que não hesitaram em utilizar meios ilícitos de atuação, entre eles a tortura. Dentro desse contexto de acirramento político (...) uma série de assassinatos passaram a ocorrer na Grande São Paulo, atribuídos a uma organização que se autodenominava Esquadrão da Morte". Num contexto de crescimento da criminalidade, o esquadrão matava para mostrar serviço.

A luta contra o referido esquadrão foi longa e gerou contrariedade entre as autoridades da época. Nas palavras do autor, "o esquadrão contava com a benevolência do governador Abreu Sodré e dos seus secretários da Segurança". Assim, o promotor de justiça quase não obteve ajuda, tendo recebido o auxílio de apenas dois colegas promotores. Desse modo, foi difícil chegar à responsabilização dos assassinos, inclusive do chefe da organização, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que tanta gente matou e torturou. Ao final, dos 35 policiais denunciados, apenas seis, de menor hierarquia, foram condenados. "Os delegados foram todos absolvidos. Eram intocáveis", conta. Para quem quiser se aprofundar no tema, vale ler Meu depoimento sobre o Esquadrão da Morte, do mesmo autor, publicado pela editora Martins Fontes, em 1976.   

Antes disso, na década de 50, Hélio Bicudo tentou, sem sucesso, responsabilizar o Governador de São Paulo Adhemar de Barros por negócios escusos. Dono do bordão "rouba, mas faz", Adhemar foi um político conservador que ficou famoso por tentar extorquir empresários e pedir propinas em troca de favores e concessão de obras. Uma figura polêmica, senão lendária. Adhemar de Barros foi condenado em 1956 e fugiu para a Bolívia. Posteriormente, o processo foi remetido para instâncias superiores que entenderam que esse caso estava encartado em outro processo, que culminou em absolvição. E tudo ficou por isso mesmo. É difícil fazer justiça no Brasil.

A carreira de Bicudo como promotor seguiu as regras do Ministério Público. Mas sua atuação era firme em busca da justiça; nunca concebeu uma atuação burocrática. Em Igarapava, ainda na década de 1940, o jovem promotor conseguiu, por meio de um acordo, fazer uma usina de Açúcar respeitar direitos trabalhistas de mais de uma centena de trabalhadores rurais. Em Franca, tentou responsabilizar uma dona de casa de prostituição mantida por "varões endinheirados da região", por submeter jovens a trabalhos análogos à escravidão. A iniciativa provocou uma enorme gritaria e incomodou gente graúda. Esse fato, aliado a uma investigação contra o Prefeito determinaram a mudança do promotor da Comarca. Em Sorocaba, Bicudo tentou responsabilizar um médico cirurgião por um homicídio culposo, que "esquecera uma pinça no abdome da parturiente", mas a abertura de inquérito gerou uma polêmica na cidade. Bicudo foi promovido e teve que mudar de comarca antes de sair a absolvição. "O espírito de classe falava mais alto, e não se compreendia que um médico sofresse um processo por desvio ou má conduta profissional". Sem privilegiar ou favorecer ninguém, o jovem promotor foi galgando degraus na carreira, do interior para a capital. "Creio que minha inclinação pela defesa dos direitos fundamentais decorreu do contato que a profissão me proporcionou com as camadas mais pobres e mais marginalizadas da população".

Bicudo também participou ativamente da vida política. Primeiramente trabalhou no Governo Carvalho Pinto (1959-1963), do qual foi assessor. Depois, no início dos anos 1980 participou da fundação do PT, onde teve um primeiro encanto e depois alguns desencontros... O livro narra alguns desses desapontamentos com o partido, como  a falta de apoio aos seus projetos de lei. Um deles finalmente emplacou com a ajuda do deputado Luís Eduardo Magalhães e virou lei. A Lei 9.299/1996 determina que os crimes dolosos contra a vida praticados por PMs contra civis sejam julgados pela Justiça Comum (e não pela Justiça Militar). Sim, Bicudo não se conformava com a impunidade de policiais militares que matavam indiscriminadamente e, depois, julgados pela Justiça Militar (uma Justiça Especial) conseguiam a absolvição. O livro de memórias narra sua luta incansável pelos direitos humanos ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns e tantos outros. Foi uma vida profícua que valeu a pena!

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Copa do Mundo 2022

Foi a última Copa do Mundo com o atual formato, isto é, composta inicialmente de 32 seleções, divididas em 8 grupos de 4 seleções. A FIFA já anunciou que a próxima Copa do Mundo terá início com 48 seleções. E terá lugar em 3 países (EUA, Canadá e México). Será que vai dar certo? Só o tempo dirá... Também foi a última Copa do Mundo com narração de Galvão Bueno, que já narrou Hortência, Ayrton Sena, Isabel, Giba e muitas outras emoções, inclusive a conquista de dois canecos (1994 e 2002).  

O Brasil não fez uma grande Copa. Na verdade, decepcionou. Talvez nunca mais pegue um grupo tão fácil. Ganhou da Sérvia e da Suíça. Já classificado, se deu ao luxo de jogar com o time reservas contra Camarões, contra o qual perdeu. Foi pras oitavas e ganhou da Coréia do Sul. Foi para as quartas de final e perdeu para a Croácia. Não era um jogo pra perder. Tomar um gol no segundo tempo da prorrogação faltando 4 minutos para acabar o jogo é coisa de amador, não de profissional. Faltou liderança dentro e fora de campo. Depois do gol do Neymar, a seleção tinha que se retrancar, fazer falta, furar a bola, jogar a bola pro mato, qualquer coisa, menos deixar espaço para um contra-ataque croata, que empatou a partida. Ali, psicologicamente falando, nós perdemos o jogo. O Brasil já foi para o penaltys de moral baixa. Para piorar, o Tite colocou um garoto para bater o primeiro penalty. Deu no que deu. 

Foi uma Copa diferente, de zebras. A Itália nem se classificou. A Alemanha não passou da fase de grupos. A Espanha perdeu de Marrocos nas oitavas. O Brasil perdeu da Croácia nas quartas. E a Argentina ganhou a Copa depois de 36 anos! E que vitória! Suada, construída, lutada! A partida final foi um jogo dramático! Como numa canção de Jorge Ben Jor, aos 33 minutos do segundo tempo, depois do placar estar 2 x 0 para a Argentina  e quando a torcida portenha já gritava olé olé, a França fez um gol. Aí a França entrou no jogo. 4 minutos depois Mbappé fez talvez um dos gols mais bonitos da Copa. O jogo incendiou. A essa altura, mais de um bilhão de pessoas assistiam a partida ao redor do planeta. O mundo é uma bola. 

A Copa do Mundo de 2022 foi a Copa de Lionel Messi, cuja história pessoal é digna de um filme. Após ser diagnosticado com uma doença que retarda o crescimento, sua família procura ajuda na Argentina e não a encontra, até que um olheiro do Barcelona vê uma promessa e faz uma proposta. Então, aos 13 anos, Messi se muda para a Espanha, depois que o Barcelona aceitou pagar seu tratamento. Treina, treina, treina. Em 2004 faz sua estreia e atua pela primeira vez em um jogo oficial. Em 2005, aos 17 anos, marca seu primeiro gol profissional e também estreia pela seleção Argentina. Em 2006 conquista sua primeira Liga dos Campeões. O resto é história.