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domingo, 15 de outubro de 2023

Seca histórica e fumaça em Manaus e no Rio Negro


De longe parece neblina, mas é fumaça. Os olhos ficam irritados, a garganta seca e começa-se a tossir. Não se enxerga o horizonte. (Que triste metáfora...) Há centenas de focos de incêndio na floresta amazônica. Parece filme de ficção, mas é a realidade. Uma espessa fumaça cobriu Manaus e grande parte do estado do Amazonas. A fumaça é resultante de queimadas.  Como não há fiscalização suficiente, a população sofre e os hospitais ficam cheios. O governo estadual e federal demoram a tomar providências. Há um total descaso com a população manauara.

Manaus é uma sauna úmida. Mas agora virou uma sauna seca. O termômetro chega a 40ºC facilmente. Quem não está acostumado, passa mal. A sensação térmica, porém, é mais alta, seja no tempo de chuva (primeiro semestre) ou seca (segundo semestre). Até aí tudo bem, desde que se repetisse os ciclos de secas e chuvas regularmente em um planeta saudável. Mas não é o caso. Com as mudanças climáticas, tudo está mudando rapidamente. A seca e o calor estão mais intensos! Para piorar, tem gente que põe fogo na mata de forma deliberada. Com a fumaça na capital Manaus, a vida ficou mais difícil. Na verdade, a situação ficou fora de controle e as autoridades demoraram para agir. O cheiro da fumaça fica impregnado nas roupas, nas casas e no nariz. As aulas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) chegaram a ser suspensas.
 
A Amazônia sofreu este ano de 2023 a maior seca da sua história (pior que a seca de 2010), já sendo considerada a pior dos últimos 100 anos. Alguns rios baixaram 14 metros do seu volume; os jornais noticiaram a mortandade de botos e peixes devido à água muito quente dos rios e afluentes (por volta de 40º C em alguns pontos). A seca deste ano foi causada pelas mudanças climáticas e pelo El Nino (fenômeno climático causado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico), que impacta o Brasil de diferentes formas. Na Amazônia, o El Nino provoca uma seca mais prolongada e pronunciada.

Uma coisa é a seca histórica, que causa enormes prejuízos econômicos e sociais para o estado do Amazonas. Outra coisa são as queimadas e a fumaça delas resultante, que cobriram Manaus, o Rio Negro e adjacências. O desmatamento desenfreado dos últimos anos, aliado à seca extrema, deixou a floresta mais frágil e suscetível a incêndios. A população está sofrendo doenças respiratórias gravíssimas. Além disso, a fumaça prejudica o trabalho, o comércio, as escolas, o turismo, tudo enfim. Por incrível que pareça, nesse mês de outubro de 23, a qualidade do ar está pior em Manaus do que em São Paulo.

Durante nossa estadia, saíamos de máscara para visitar os pontos turísticos. Lemos nos jornais que Manaus registrou a segunda pior qualidade do ar do mundo, em outubro de 2023. Mas como isso aconteceu? Em decorrência das queimadas legais e ilegais. A tripulação do navio nos contou que essa fumaça vinha das queimadas feitas por pequenos produtores à guisa de preparar a terra para o plantio. Mas era somente isso, pois é muita fumaça. Então, conversando e pesquisando sobre o assunto, descobrimos que o fogo salta e se espalha para áreas maiores. Descobrimos que muitos incêndios criminosos também ocorreram. É sempre assim. No Brasil não faltam os aproveitadores. 

Numa sociedade capitalista como a que estamos inseridos, muitas vezes as notícias sobre a seca surgem não pelos efeitos maléficos que geram nas pessoas, mas pelos efeitos que causam sobre a economia. A lógica do mercado não tem coração. O estado do Amazonas, apesar da exuberância da floresta, sempre foi um estado economicamente pobre se comparado a outros estados da federação. Ficou conhecido e surgiu para o Brasil e o mundo no ciclo da borracha (1890-1920). Terminado o ciclo, porém, o estado passou a viver basicamente da pesca e do turismo. O que fazer? Como incrementar a economia do estado do Amazonas? 

O Poder Público criou a Zona Franca de Manaus, que é essencial para a economia do estado, atraindo fábricas a um custo de produção mais baixo, graças a incentivos fiscais. Em Manaus, por exemplo, encontram-se sediadas as fábricas de motos da Honda e da Yamaha. Pois é... Atualmente, porém, a seca histórica no Amazonas ameaça parar fábricas do polo industrial de Manaus, onde está concentrada a produção nacional de eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos e motocicletas. As condições do transporte de cargas pelo rio Amazonas e seus afluentes pioraram drasticamente nos últimos dias, provocando atrasos na entrega de materiais, assim como um acúmulo de produtos acabados nos estoques das fábricas.  As maiores embarcações não conseguem mais acessar o porto de Manaus devido à redução do nível de água em trechos críticos para abaixo da profundidade mínima necessária para a passagem com segurança dos navios de grande calado. Buscam-se alternativas que aumentam o custo do transporte. No final, todo mundo paga a conta. 

Por outro lado, até a Zona Franca de Manaus é polêmica e discutível, pois levam-se os insumos todos para a região de Manaus, lá se montam as geladeiras, celulares, eletrodomésticos e motocicletas nas fábricas e depois tem que distribuir essas mercadorias para todo o Brasil, principalmente para o Sudeste. Isso tem um altíssimo custo. A logística não faz sentido. É uma coisa burra! Deveriam inventar um outro jeito de alavancar a economia do estado do Amazonas. A Floresta em pé e a pesquisa científica dariam maior rentabilidade ao estado e seria economicamente sustentável. Preservar a floresta e atrair pesquisa e turismo do mundo inteiro seria muito melhor do que queimar a floresta para criar pasto para o gado. Estamos fazendo tudo errado. Segundo o pesquisador Carlos Nobre, o desmatamento está avançando tão rapidamente, que estamos chegando perto do ponto de não retorno, isto é, a um ponto em que, depois de derrubada grande parte da floresta, não dará mais para recuperar a área degradada e reflorestar, pois o solo amazônico é arenoso. A Amazônia corre o risco de virar uma savana. 

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Federer

Tênis é um jogo mental. Embora o esporte demande força no punho, resistência para longos ralys, agilidade nos pés e flexibilidade para alcançar bolas bem colocadas, para ser um top 10 da ATP, o tênis exige, sobretudo, controle mental. Isso foi o que me atraiu no Roger Federer: sua frieza nas partidas  de grand slam, sua concentração nos pontos decisivos e sua capacidade de se recuperar de um game ou set perdidos. Mas nem sempre foi assim... No livro Federer: o homem que mudou o esporte/Christopher Clarey; tradução Cássia Zanon...[et al.] - 1.ed - Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021, o autor nos conta que o jovem Federer era um rapaz nervoso, irrequieto e explosivo; desses que escutava música alta de péssima qualidade e quebrava a raquete quando perdia. Acredite se quiser.

Mas não é só o controle emocional que faz com que Federer seja o tenista mais querido no Brasil e em outros países. É que, além da diplomacia, da elegância e da capacidade de não se meter em confusões, ele tem uma vulnerabilidade que é perceptível aos olhos do público. Ele não é tão forte e musculoso como Nadal, nem tão elástico e flexível como Djokovic, mas ele tem um carisma que a todos encanta. Federer aprendeu, com o tempo, a ser humilde; aprendeu a vencer e a perder. Ele aprendeu que o resultado nem sempre é justo, e isso é do jogo. Ele sabe vencer sem tripudiar sobre o adversário e perder sem ficar chorando ou culpando os outros ou a si mesmo. 

Outro fator determinante para atrair o gosto do público é o fato de Federer ter uma inteligência social incrível. Ele não só gosta de conversar com as pessoas, como ele se interessa e faz perguntas, seja conversando com o pegador de bolas em Wimblendon, seja com os jornalistas ou os tenistas vencedores mais velhos, como Borg. Ele é gentil com todos. É poliglota, atende aos repórteres, dá autógrafos, brinca com os boleiros e com as pessoas ao redor. Os amigos entregam que Roger tem uma personalidade de brincalhão. Mesmo adulto, ele gosta de pregar peças em seus amigos para dar risada. Essa leveza e espontaneidade é algo raro num ambiente tão competitivo. Ao contrário de outros tenistas, que buscam o isolamento para se concentrarem, Federer se alimenta do contato social. Ele é um ser gregário e gosta de interações sociais, de modo que conversas o deixam relaxado.

O livro tem o mérito de mostrar mais ou menos como foi a adolescência de Federer, quando os pais o deixaram escolher o esporte que queria seguir na vida. Roger adorava jogar futebol (assim como Nadal), mas escolheu o tênis por ser um esporte em que o sucesso ou o fracasso somente dependeria dele, de ninguém mais. O biógrafo também conta algumas histórias que apontam para a personalidade do biografado. Como esta: "Federer enfrentou ceticismo quase imediatamente após sua decisão de deixar a escola. Quando visitou seu dentista na Basileia, a conversa começou, como muitas conversas com dentistas começam, no meio de uma limpeza. 'Ele estava mexendo na minha boca e falando': 'O que você vai fazer agora ?' E eu respondi: 'Vou jogar tênis', lembrou Federer. E ele: 'Certo, e o que mais?' E eu: 'Só isso'. Então ele olhou para mim e disse: 'Só isso!? Só tênis!?'". Federer mudou de dentista. "Nunca mais voltei, porque senti que ele não estava entendendo o que eu queria fazer", disse-me Federer. "Eu estava perseguindo um sonho. Estava tentando mirar nas estrelas, e ele ficava me puxando de volta. E sabe de uma coisa? Não quero me cercar de gente assim".

Duas décadas depois desse episódio, os números de Federer são impressionantes: 103 títulos; 20 títulos de grand slam, tendo sido 8 vezes campeão de Wimblendon. 237 semanas seguidas em 1º lugar no ranking. O livro também retrata as rivalidades: Federer x Lleyton Hewit (seu primeiro grande rival); Federer x Nadal (o homem mais intenso no tênis) e Federer x Djokovic (o homem mais elástico do tênis). Aliás, há um capítulo inteiro sobre Rafael Nadal. Nesse passo, o jogo suave de Federer permitiu uma longa carreira sem muitas lesões, já o jogo intenso e bruto de Nadal lhe deixou muitas lesões, ocasionando hiatos em sua carreira. Mas é a rivalidade que o público mais lembra: Federer x Nadal, sendo que o ápice do duelo entre os dois ocorreu no torneio de Wimblendon em 2008.

Federer & Mirka. Esse é um capítulo que vale a pena. Federer conheceu sua futura esposa nas Olimpíadas de Sidney, em 2000, quando se conheceram em uma festa e ficaram juntos pela primeira vez. De volta a Suíça, começaram a namorar. Mirka, também uma tenista profissional, teve que abandonar precocemente o tênis, aos 24 anos, devido a uma lesão no calcanhar. Por volta dessa época, ela já sabia do enorme potencial de Federer e começou a ajudá-lo nas coisas práticas do dia a dia, como reservar hotéis, aviões, ajudar a planejar as viagens do circuito, falar com a imprensa etc. Deu muito certo! Com sua personalidade forte e seu pragmatismo, Mirka ajudou enormemente a carreira do marido. Como disse um dos inúmeros entrevistados no livro, Federer deve 50% de sua carreira à Mirka, porque ela administra muita coisa, de modo que Roger só precise se preocupar em treinar e ganhar troféus. O engraçado é que, quando Federer tinha 19 anos e estava começando a namorar Mirka, com 22, seus amigos o aconselharam terminar o namoro, com a conversa de que ela era mais velha e logo iria querer casar, ao passo que seria bom para Federer continuar solteiro. Federer não escutou os seus amigos. Como disse um deles, anos depois, Federer fez a coisa certa! É de se notar que Mirka já era namorada firme de Federer antes de ele se tornar um astro do tênis e conquistar seu primeiro título em Wimblendon. Isso ajudou muito! Federer é um cara que gosta de estabilidade e tranquilidade para treinar e participar do torneios. No fundo, ela foi um dos segredos bem guardados para a incrível longevidade da carreira de Federer. "Mirka, que não fazia o papel de esposa-troféu, sabia o que era necessário para que o marido continuasse ganhando torneios", diz o autor. 

Alguns discordam, dizendo que o cara mais importante na carreira de Federer foi Pierre Paganini, o seu preparador físico e conselheiro espiritual, que o ensinou a fazer exercícios na medida certa, sem excessos, deixando mais tempo o atleta na quadra de tênis do que na sala de musculação ou na pista de corrida, livrando Federer de muitas lesões desnecessárias ao longo da carreira. Outros diriam que o elemento mais importante foram os pais de Federer, que educaram o filho com liberdade e senso de responsabilidade. Outros diriam que foi Peter Carter, seu primeiro treinador. Outros diriam que foi o psicólogo Christian Marcolli que o ajudou na época do juvenil a ter menos explosões e ter mais controle emocional. Seja como for, todas essas pessoas tiveram um influência capital na carreira do maior campeão de Wimblendon.

Outro ponto positivo do livro foi mostrar a família Federer unida rodando o mundo. Roger e Mirka casaram-se em 2009, mesmo ano em que Mirka deu à luz duas filhas gêmeas. O aumento da família não foi um obstáculo ao tênis. Ambos sabiam que Roger não poderia parar de jogar estando no topo e no auge da carreira. Mirka sempre foi pragmática, Roger adorava jogar tênis e o dinheiro sempre pode facilitar as coisas. Desse modo, contando com jatos particulares, um elenco rotativo de babás e reservas em hotéis centrais e bem localizados, o casal deu um jeito de toda a família (com mais um casal de gêmeos nascidos em 2014!) acompanhar Federer no circuito internacional de tênis, desde o Aberto da Austrália até o US Open. A família Federer, feliz, rodando o mundo, com Roger vencendo torneios com seus movimentos suaves. Essa é a imagem que fica. Assim parece fácil jogar tênis nesse nível. Mas não é. Daí porque tanta gente gosta dele. Entendeu? "Roger that".

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Yosemite

Yosemite é um mergulho na natureza norte-americana que vale a pena fazer uma vez na vida! O Yosemite National Park é gigantesco, com dezenas de trilhas, muitas cachoeiras, rios, um imenso vale e montanhas lindas. Os americanos adoram! Para quem gosta de turismo ao ar livre, natureza, trilhas e respirar ar puro, é uma ótima ideia. Mas cada épocas do ano tem sua beleza e seus inconvenientes. Pesquise antes de ir.

Os EUA têm parques nacionais gigantescos com uma beleza selvagem e protegidos por leis federais. Yosemite é um deles e fica no norte do estado da Califórnia.São mais ou menos 4 horas de viagem a partir de São Francisco, a cidade grande mais perto de Yosemite. A estrada é boa, mas antes de chegar no parque pega-se uma rodovia com muitas curvas acentuadas que vai subindo e serpenteando a montanha. Dica: vá devagar, apreciando a paisagem. No caminho até lá, passa-se por uma região que foi muito explorada por mineiros e garimpeiros na época da "febre do ouro". 

No primeiro dia, chegamos ao parque com o sol a pino e pegamos muito sol e calor na trilha das sequoias gigantes, que não tem muita cobertura vegetal, ao contrário do que eu esperava. Vimos muitas sequoias queimadas. Depois, ficamos sabendo que o fogo controlado é uma técnica para incentivar as sequoias a se reproduzirem. O resultado, porém, pelo menos no verão, não é muito agradável de se ver. A temperatura estava em torno de 33º C, 34º C. O calor estava infernal nesse verão de 2023. Hoje em dia, qualquer pessoa pode constatar, por experiência própria, como as mudanças climáticas estão atuando fortemente no planeta, que está aquecendo. No verão, é preciso um bom boné ou chapéu, roupas leves e uma garrafa de água. Mas esse primeiro dia valeu a pena para conhecer o Glacier Point, um lugar alto do qual se tem uma vista deslumbrante e é possível ver o Half Dome. 

O lugar era habitado por indígenas na época da colonização espanhola. Conta-se que quando os espanhóis puseram os pés naquelas terras encontraram indígenas de uma tribo que, ao serem interrogados, apontaram o dedo para lá e disseram: "-Yosemite", que quer dizer "killers" (assassinos), querendo dizer que lá estavam indígenas de outra tribo que tinham assassinado um dos seus. Tempos depois, já em domínio dos EUA, em 1864, Yosemite Valley e Mariposa Grove foram cedidos ao estado da Califórnia para que fosse administrado. No mesmo ano foi assinado o Yosemite Grant Act pelo então presidente Abraham Lincoln, uma lei para regulamentar a região e torná-la um parque nacional.

Yosemite é um parque gigantesco em que os visitantes entram de carro e gastam um bom tempo nas estradas. O bom de fazer excursão é que o guia já te leva nos melhores pontos para fotos e para apreciar a paisagem sem perda de tempo e sem risco de se perder. Sim, muita gente se perde dentro do parque, de carro ou a pé, nas trilhas. E são vários os pontos de parada obrigatória para conhecer: Glacier Point, Merced River, Half Dome, El Capitan, Yosemite Valley, Yosemite Fall trail, e muitos outros pontos. Isso só para ficar no que eles chamam de "Yosemite basics". Não dá para conhecer tudo. Não a toa, tem famílias americanas que vão e ficam no parque por uma semana inteira. 

Uma boa notícia é que você pode se hospedar lá dentro do parque, ou melhor, do vale, seja nos acampamentos, nos Lodges ou ainda nos dois hotéis que tem lá. A região é bem guarnecida de opções para dormir. Pesquise antes de ir. Também há locais para refeições, como o Yosemite Lodge Food Court, no Base Camp, uma boa opção antes de começar o dia e fazer qualquer uma das dezenas de trilhas. Tomamos café da manhã lá e depois de dormir e descansar, numa temperatura agradável, conseguimos fazer uma trilha de 3 horas curtindo a natureza, os esquilos, as cachoeiras e as montanhas. Foi incrível. Yosemite é um mundo à parte, como dizem alguns americanos.

domingo, 21 de maio de 2023

O que é meu é tudo aquilo que eu vi e gravei na memória

Um filho, que é sociólogo, escreve, em tom intimista, sobre o pai, José Bortoluci, nascido em Jaú/SP, em 1943, cujo apelido era Didi, mas na estrada era conhecido como Jaú. O pai, que trabalhou a vida inteira como caminhoneiro, foi diagnosticado com câncer colorretal em dezembro de 2020. O livro é uma aproximação, um encontro e uma despedida.

Enquanto concebia um jeito para escrever sobre o pai e sua profissão, talvez uma biografia, talvez um história social dos caminhoneiros, José Henrique Bortoluci, o filho, foi pego de surpresa pela notícia de uma metástase e os acontecimentos se precipitaram. O resultado foi um relato sobre as estradas que o pai já percorreu, uma espécie de memórias do pai e, de quebra, um ensaio sociológico sobre o Brasil de meados da década de 1960 para cá.

"Palavras são estradas", escreve o filho. "É com elas que conectamos os pontos entre o presente e um passado que não podemos mais acessar. (...) Palavras eram o presente que meu pai trazia de caminhão em minha infância. Elas ressoavam isoladas - boleia, transamazônica, carreta, rodovia, pororoca, Belém, saudades -, ou então formavam narrativas sobre um mundo que parecia grande demais. Eu tinha que imaginá-las com todas as cores, gravá-las na memória, me agarrar a elas, pois logo meu pai iria embora para voltar só dali a quarenta, cinquenta dias".

O filho, para superar o choque e a tristeza do diagnóstico dessa doença implacável chamada câncer, grava seis longas entrevistas com o pai, enquanto este está vivo, para entender esse pai e se aproximar do seu universo, que foi passar a vida na estrada, a carregar mudas de cana, soja, mantimentos, areia, pedra, o que fosse, percorrendo as estradas do país. O livro, escrito em plena pandemia do coronavírus, foi uma forma de superar a dor individual e coletiva.

Eu vi tanta coisa, filho. Devia ter tirado foto, ter escrito. Celular, essas coisas assim, não tinha. Não existia não. A única coisa que dava era pra ter fotografado com uma Kodak, essa máquina de fotografia branco e preto, mas o pai nunca teve. Porque se eu tivesse gravado tudo que eu fiz, você ia sentir o maior orgulho do seu pai. O que é meu é tudo aquilo que eu vi e gravei na memória. Então a única coisa que posso fazer é tentar recordar e contar.

O autor consegue costurar as memórias do "seu velho" pai caminhoneiro com suas análises sociológicas sobre esse Brasil grande e contraditório, que aposta no progresso, mas não investe na educação; que constrói estradas e abandona as ferrovias; que prega a liberdade de expressão, mas pede a volta da Ditadura; cuja elite ilustrada se instala no Sudeste e  dá as costas para a preservação da Amazônia. O filho culto, doutor em sociologia, entrevista o pai, que cursou só até a quinta série, mas que tem uma visão prática da vida, trabalhando desde menino e depois carregando muita carga debaixo da lona do seu caminhão. Ficam as histórias... 

Eu comecei a trabalhar com sete anos de idade com trator, arando terra. O vô Joanin naquela época tinha um sítio pequeno com os irmãos dele e tinham um tratorzinho. E sabe como que é criança... Eu via o vô guiar, subia no trator. Aqueles tratorzinhos de antigamente era igual aos de brinquedo de hoje, bem pequeno, mas eu era menor ainda. Então não tinha como eu trabalhar sentado no banco, eu ficava de pé no estribo. E arando terra a tarde inteira. Eu saía da escola, ia pra roça, ficava até cinco, seis horas da tarde. De sete até dez anos fiquei nessa vida, e foi aí que abandonei a escola e só trabalhava. Aos quinze ano, os meus pai mudou para a cidade e eu entrei pra trabalhar numa oficina. E trabalhei sete anos nessa oficina. Então foi assim: dos sete aos quatorze eu trabalhei como tratorista, dos quatorze até os vinte e um mais ou menos eu trabalhei como mecânico, e já com vinte e dois deixei a profissão de mecânico e fui pra pista.

"Pé na estrada e chuva no rastro", diz o ditado. É preciso sempre seguir em frente! No decorrer dessa longa estrada da vida, no deparamos com trechos fáceis e difíceis, muitas curvas, às vezes um lamaçal e até atoleiros dos quais precisamos de ajuda para sair. A estrada é uma metáfora da vida. E cada qual carrega uma carga no seu caminhão. Carga emotiva, inclusive. O que é meu, José Henrique Bortoluci, São Paulo: Fósforo, 2023, 138 pág. é um livrinho pequeno, quase de bolso, mas é enorme na grandeza emocional. O livro é uma preciosidade, uma viagem sobre o Brasil. Uma estrada sentimental que vale a pena ser percorrida. 

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Menina de ouro

Boxe é a magia de lutar além da resistência, "é a magia de arriscar tudo por um sonho que só você vê", diz a certa altura Scrap (Morgan Freeman), personagem e narrador do filme "Million Dollar baby" (Menina de ouro), 2005, filme dirigido e atuado por Clint Eastwood e com roteiro de Paul Haggis. A trilha sonora é composta de uma única música de piano, melancólica, que dá o tom emocional da trama. A medida que Eastwood foi envelhecendo foi tornando-se minimalista na direção.

Frankie Dunn (Clint Eastwood) é um cara "casca grossa", passou a vida nos ringues, tendo agenciado e treinado grandes boxeadores. Sua sala está cheia de troféus, mas ele já está numa fase decadente. Magoado com o afastamento de sua filha, Frankie apenas se relaciona com Scrap (Morgan Freeman), seu único amigo, que cuida também de seu ginásio. Até que surge Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), uma jovem determinada que possui um dom ainda não lapidado para lutar boxe. Maggie quer que Frankie a treine, mas ele não aceita treinar mulheres. Apesar da negativa, Maggie decide treinar mesmo assim e insiste. Vencido pela determinação de Maggie, Frankie finalmente aceita treiná-la. 

Maggie chega do escuro, do nada, da sarjeta para tentar a glória num ginásio decadente em Los Angeles. Um sonho impossível. Ela veio do Missouri, da parte profunda dos EUA, daqueles americanos caipiras. Ela cresceu sabendo que era pobre, fazendo parte daquela camada social que é considerada trash, a ralé, que serve os fregueses, que limpa as mesas e varre o chão. No fundo, é a camada que faz o mundo girar, pois sem eles não haveria nenhum tipo de serviço (a cena em que ela limpa mesas foi filmada em Venice Beach, Los Angeles). Maggie é uma moça que não tem nada de material. Vive uma vida simples de proletária e mora num pardieiro. Ao mesmo tempo, ela é vontade, coração, músculo, pulmão, gana, tudo! Ela encarna a busca americana por uma oportunidade. Hilary Swank convence no papel, tanto assim, que ganhou o Oscar de melhor atriz nesse filme. Quando Frankie finalmente aceita treiná-la, ela parece uma criança de tanta felicidade! Ela não quer caridade, nem favores. Ela só quer lutar boxe profissional e quiçá ser campeã. Aliás, ela tem certeza que será campeã.

Mas o filme é triste. Há golpes da vida que nos derrubam às vezes. Golpes, pancadas, deslealdades. Há golpes da sorte ou do destino... Bem por isso Frankie costuma passar aos lutadores sua regra número um: lute, mas proteja-se o tempo todo. Mesmo assim, há conflitos, como na vida real, que parecem insolúveis. Há o afastamento da filha de Frankie que, apesar das dezenas de cartas, nunca lhe responde, nunca dá sinal de vida. Há também a ingratidão da família de Maggie, composta por um bando de aproveitadores. Não se compra o amor de ninguém. Abandonados, por assim dizer, por seus familiares, Frankie e Maggie tem um ao outro. Treinador e lutadora. "Mo Cuishle".  

Cinema e boxe foi um casamento que deu certo, haja vista os filmes "Touro indomável", de Scorsese, a saga Rocky, com Sylvester Stalonne e inúmeros outros. O boxe é uma metáfora da vida. Afinal, a vida é luta! A vida é feita de derrotas e vitórias. A vida é uma questão de manter o equilíbrio, apesar de todos os socos e golpes que sofremos. 

Lembro que fui assistir "Menina de ouro" no cinema, no Gemini, da Av. Paulista em São Paulo. No tempo dos cinemas de rua... Fui duas vezes e chorei as duas vezes. Filme bom é aquele que te emociona ou faz pensar. Esse faz as duas coisas, com o toque sutil de Eastwood, no auge da direção. No meio de tantas porcarias hoje em dia no streaming, esse é uma filme que vale a pena ser visto e revisto. Não é o melhor filme de Clint Eastwood como diretor, mas é um dos cinco melhores. 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

A batalha das biografias

O maior trauma do "rei" Roberto Carlos ocorreu em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim/ES, aos 6 anos, quando um trem passou por cima de sua perna, o que lhe custou uma amputação logo abaixo do joelho. De outro lado, o maior trauma de Paulo Cesar Araújo ocorreu no dia 27 de janeiro de 2007 no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo/SP, quando, depois de 6 horas de audiência, na condição de réu em uma ação penal privada movida por seu ídolo, viu-se obrigado a assinar um acordo com o querelante e com os representantes da editora Planeta, o que significou a proibição e a retirada de circulação do livro Roberto Carlos em detalhes, fruto de laboriosos 15 anos de pesquisa. O escritor se sentiu abandonado pelos advogados da editora Planeta. Ambos tiveram perdas na vida. Não por acaso, traumas, é o título de uma das canções de Roberto. 

A sorte é que os traumas podem ser superados. Roberto Carlos aprendeu a conviver com a amputação da perna, tornou-se um cantor, buscou o sucesso, deu a volta por cima com a Jovem Guarda e o resto é história. Que, aliás, merece ser contada! Paulo Cesar de Araújo não desistiu daquela derrota no acordo judicial celebrado no Fórum da Barra Funda, que significou a proibição do seu livro e foi à luta. Para quem gosta de história da MPB, de biografias, de pesquisa, de Roberto Carlos, de batalha jurídica ou de tudo isso junto, recomendo a obra O réu e o rei: minha história com Roberto Carlos, em detalhes, Paulo Cesar de Araújo, 1ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 

Roberto Carlos é um artista incontestável, pelo sucesso e pela discografia. Eu mesmo que nasci em 1971 e cresci nos anos 80, achava na minha adolescência suas músicas bregas e piegas. Até que depois dos 30 anos me apaixonei e num momento de separação da minha atual mulher, um momento de muitas saudades, ouvi toda a discografia do Roberto Carlos dos anos 70, para mim indiscutivelmente a melhor fase do artista, e me rendi ao seu inegável talento. Mas o que fez Roberto Carlos processar o autor de sua biografia? Na cabeça de Roberto Carlos era inadmissível que uma terceira pessoa desconhecida contasse a sua história, incluindo momentos doloroso e íntimos, explorando a vida privada do cantor e ganhando dinheiro com isso. Ele viu exploração comercial. Na cabeça de RC, malgrado ele seja um artista famoso, somente ele poderia contar a sua própria história. Contudo, é sabido que os artistas são pessoas públicas, que fazem parte da história cultural do Brasil, de modo que é óbvio que, num país sério, com liberdade artística e de expressão, uma biografia respeitosa escrita por um autor sério não poderia se proibida como foi. Além disso, o próprio Roberto Carlos já contou trechos e momentos muito dolorosos e íntimos de sua própria vida em muitas canções confessionais. Falou de momentos difíceis da infância na música "O Divã", falou das dores pós acidente na música "Traumas"; de sua cidade natal na música "Meu pequeno Cachoeiro"; da vida conjugal na música "Quando as crianças saírem de férias"; do pai na música "Meu querido, meu velho, meu amigo"; do amigo Erasmo Carlos na música "Amigo"; da mãe na música "Lady Laura" e de sua fé na música "Jesus Cristo", entre tantas outras músicas confessionais.

O réu foi inteligente. Impedido de comercializar sua obra, por conta de um acordo judicial discutível, trazido à fórceps pela vontade e pressão do cantor em proibir aquela obra, de um juiz imparcial, de um entendimento de se proibir a publicação de biografias não autorizadas à época, da interpretação do art. 20 do Código Civil e de um medo da editora Planeta de pagar uma multa milionária, Paulo Cesar de Araújo mudou de tática. Ele então contou a história da sua vida, desde que era menino em Vitória da Conquista e comprava os discos de seu ídolo, passando por seu gosto por música nacional, pelo trabalho na ótica, pelas faculdades que cursou até a sua carreira como pesquisador e escritor. O livro que lhe rendeu mais alegria e não foi censurado foi "Eu não sou cachorro não", sobre a dita música brega e a coragem importância desses artistas, como Odair José e Agnaldo Timóteo, escrito e lançado antes do livro que foi censurado pelo "rei". 

Pesquisador incansável, Paulo Cesar de Araújo pelejou para entrevistar Tom Jobim, o primeiro de sua lista. Depois conseguiu entrevistar Caetano Veloso e por aí a lista só engrossou. Paulo Cesar entrevistou praticamente todos os músicos, cantores e cantoras do Brasil, de Tim Maia a Wanderléia, de Waldick Soriano a Chico Buarque. Nessa busca por entrevistas que começou na década 90, uma das passagens mais inusitadas e divertidas do livro é a amizade que fez com ninguém menos do que João Gilberto. Buscando marcar uma entrevista com o inventor da Bossa Nova, o pesquisador telefonou para João Gilberto, apresentou seu projeto de pesquisa e perguntou se poderia entrevistá-lo. Este, que é conhecido por ser um artista recluso e adorar um papo por telefone, a ponto de Tim Maia dizer que "João Gilberto não é uma pessoa, é um telefone",  lá pelas tantas perguntou ao pesquisador: "Você é baiano?". A partir daí começou uma conversa de quase uma hora. Meses depois, retomando a conversa, ao saber que Paulo Cesar não falava há 13 anos com seu pai, João Gilberto se espantou e o aconselhou de forma veemente: "Um pai nunca esquece um filho. Pois escreva uma carta para ele e vai ver como tudo irá melhorar. Isso vai fazer um grande bem para todo mundo (...)". O autor seguiu os conselhos do artista e tudo ficou bem. 

Fazer um bem para todo mundo fez o plenário do STF, em 10/06/2015, quando julgou a ADI 4815, que liberou as biografias ditas não autorizadas. "Cala a boca já morreu", disse Carmem Lúcia, relatora da ação, ao dizer que, no caso, o direito à informação e à cultura é mais importante do que o direito à privacidade do biografado. E, caso o biógrafo ofenda o biografado ou falte com a verdade, o Direito Brasileiro já tem instrumentos para reparar o dano. A ação direta de inconstitucionalidade proposta pela ANEL (Associação Nacional dos Editores de Livros) foi julgada procedente "para dar interpretação conforme à Constituição aos arts. 20 e 21 do Código Civil, sem redução de texto, para, em consonância com os direitos fundamentais à liberdade de pensamento e de sua expressão, de criação artística, produção científica, declarar inexigível autorização de pessoa biografada relativamente a obras biográficas literárias ou audiovisuais (...)".  Mas até lá a batalha jurídica foi longa e o livro, que foi escrito antes do julgamento da ADI 4815, conta essa batalha. O autor conta os bastidores dos dois processos judiciais que Roberto Carlos lhe moveu: um cível e outro criminal. Como num processo terapêutico, ele conta tudo para superar seu trauma.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Razão para viver

Viktor E. Frankl teve muito a dizer. Não só por conta de seus estudos de psiquiatria e psicologia na Viena de Freud, mas também pelas suas experiências pessoais e coletivas. Prisioneiro de guerra, ele conta sua experiência em quatro campos de concentração nazista. Frankl narra o sofrimento dos judeus na Segunda Guerra Mundial, com todas as letras e de forma consciente. Eu nunca havia lido um relato tão detalhado sobre a rotina de um prisioneiro num campo de concentração. Já havia assistido a filmes, como a Lista de Schindler, o Resgate do Soldado Ryan e A vida é bela, apenas para ficar nos mais famosos. Aqui, porém, o mergulho é mais realista e convida o leitor a reflexões sobre a dor, o sofrimento, a insanidade e o sentido da existência humana.

O relato da chegada do trem em Auschwitz é muito impactante. Assim como os primeiros dias, a seleção dos prisioneiros (quem ia trabalhar e quem ia para a câmera de gás), a fome, a apatia, as humilhações, as condições sub-humanas a que os judeus eram submetidos, o medo dos prisioneiros, a tensão pela sobrevivência, as mortes, o escárnio dos soldados alemães, o sadismo dos guardas, a inspeção dos alojamentos, os castigos, os trabalhos forçados, o caminho até a plantação, os sonhos dos prisioneiros e uma variedade enorme de detalhes são narrados por Frankl. O autor escreveu o livro em 1945, ao longo de apenas nove dias. Muito provavelmente ele sentiu a urgência de escrever enquanto seu ser estava impregnado com aquela experiência terrível e antes que sua memória se esvaísse. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração; Viktor E. Frankl, traduzido por Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline, 48.ed. - São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2019, é um livro dividido em 3 partes: 1) Em busca de sentido, onde é contada sua experiência no campo de concentração; 2) Conceitos fundamentais de logoterapia e 3) A tese do otimismo trágico. O livro tornou-se um clássico da psicologia e um best-seller internacional.

Para que continuar vivendo em um ambiente desses? Por que não cometer suicídio, como muitos prisioneiros fizeram? Por que a vida tem um sentido. Toda vida tem um sentido. Único. A razão pode ser um filho, uma esposa, um marido, uma mãe, um pai ou alguém que lhe seja especial. Também pode ser um trabalho, um dom, uma obra inacabada, um serviço para o bem ou inúmeras outras coisas. A vida tem sentido. Você só precisa encontrá-lo. Nenhuma vida é sem sentido. A vida é o bem mais precioso que um ser humano tem. Podem lhe tirar tudo, a casa, o trabalho, o dinheiro, a família e até a liberdade, mas ainda sim o prisioneiro conserva a vida. As pessoas com mais força interior conseguem conservar a dignidade e essa chama divina chamada esperança. A vida nos foi dada com percalços e pedras no caminho. Nem tudo são flores. São espinhos também. E a vida não é só o resultado do meio, das condições físicas, econômicas e psicológicas em que a pessoa vive. Mesmo vivendo em condições terríveis, remanesce na pessoa, no fundo do seu ser, uma liberdade interior capaz de optar, a cada hora, a cada segundo, se deseja progredir ou regredir na escala evolutiva; se deseja dar uma palavra de conforto ao seu colega que sofre ou fechar a cara e chutar as pedras do chão; se deseja manter a luz da esperança ou se entregar ao desânimo e ao desespero. Há sempre opção. Há sempre uma escolha na forma como encaramos a vida, mesmo nas condições mais miseráveis. Viktor Frankl, por pura sorte, escapou da morte mais de uma vez. Uma vez poupado, escolheu viver. Resistiu. Sobreviveu ao horror. Foi libertado. Recuperou-se, voltou a lecionar e a escrever, dedicando-se à nobre tarefa de não somente prevenir suicídios, mas ajudar as pessoas a encontrar um propósito para suas vidas.