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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Resolvendo as tretas da comunicação

"Muitas pessoas da nossa indústria não tiveram uma vida com experiências diversas. Então elas não tem pontos a ligar. Acabam trazendo soluções lineares, sem uma perspectiva ampla do problema. Quanto mais amplo é o entendimento da experiência humana, melhor é o desenho de soluções para os problemas". Com essa citação de Steve Jobs, que é a linha condutora do livro, o caipira de Araçatuba que ganhou espaço na telinha da televisão, desde os anos 80, Marcelo Tristão Athayde de Souza, o nosso querido Marcelo Tas, começa seu livro "Hackeando sua carreira: como ser relevante num mundo em constante transformação/Marcelo Tas. - São Paulo: Planeta do Brasil, 2024, 240 p".  

O livro se propõe a ser uma mexerica. Isso mesmo! Uma Mexerica Thinking! Uma fruta de saberes e experiências, na qual você pode, de forma aleatória e sem prejuízo, consumir (ler) qualquer gomo (capítulo) da obra. Ao longo do livro, Marcelo conta suas diversas experiências profissionais e compartilha aprendizados importantes como esse que aprendeu na engenharia: "todo problema pode ser fatiado em pedaços. É um jeito especialmente eficiente de lidar com os problemas da nossa era, que são cabeludos. A engenharia é a ciência de fatiar um problema em pedaços que caibam dentro da boca, como faz o chef japonês com o atum na hora do sushi".  

Marcelo Tas teve muitos pontos a ligar. Frequentou a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, submetendo-se a disciplina militar; estudou engenharia na Poli; estudou teatro no CPT com Antunes Filho; participou do início da cena audiovisual no Brasil, nos anos 80; criou o inesquecível personagem Ernesto Varela; trabalhou no Vídeo Show da Rede Globo; estudou na escola de cinema da NYU, em Nova York; participou do Rá Tim Bum da TV Cultura; ajudou a lançar e desenvolver o Telecurso 2000; apresentou o famoso CQC -Custe o que Custar na Band, a partir de 2008 e, como se não bastasse, sucedeu o saudoso Antonio Abujamra, no programa "Provocações", que foi repaginado e virou "Provoca". Tas é um multi-artista que parece não ter medo de se arriscar.  

Assim como Steve Jobs discursou em 2005, na Formatura dos alunos da Universidade de Stanford, Marcelo Tas, depois dos 60 anos, olhou para trás, examinou sua trajetória profissional e ligou os pontos. Ele concluiu que todas as experiências pelas quais passou, desde o início da carreira militar e seu curso de engenharia, foram úteis e o ajudaram a fazer as coisas que fez na televisão e na sua carreira de comunicador. Todas as experiências foram tijolos, argamassa, parafusos e cimento na construção da sua carreira profissional. Exemplo: o curso de artes na NYU o ajudou, depois, a criar conteúdos e organizar os programas da TV Cultura. 

Nascido em 1959, Tas viveu uma infância rural em Ituverava; mas, desde criança, era obcecado pelo rádio. Ganhou um radinho de pilha de Natal, que pegava AM, FM e ondas curtas e era fascinado pelos programas de rádio que chegavam ao seu ouvido curioso, principalmente a noite, quando era possível ouvir emissoras do Brasil inteiro, devido a um fenômeno na ionosfera. Ouvindo rádio, sua consciência do mundo se ampliou e, chegando perto dos 18 anos, viu na Escola Preparatória de Cadetes uma oportunidade de sair de casa. Mas sua alma inquieta não cabia dentro dos muros da instituição militar e, assim, Tas, decidiu sair da Academia e mudar-se para São Paulo para prestar vestibular e cursar engenharia na Poli. Ali, foi um peixe fora d'água, mas fez uma poesia que saiu no jornalzinho da escola, ganhou confiança, começou a olhar novas oportunidades e entrou na Escola de Comunicação e Artes (ECA), ao mesmo tempo que fazia curso de teatro. Logo depois se juntou à turma da Olhar Eletrônico Vídeo (onde se aproximou de Fernando Meirelles), que fazia vídeos caseiros e artesanais no início dos anos 80. Aí um novo mundo se abriu. Esse gomo da mexerica é chamado "Encruzilhadas". 

Sendo um profissional da área de comunicações e um baby boomer, isto é, tendo passado por todas as inovações tecnológicas desde os anos 60 até os dias de hoje, Marcelo Tas ainda nos brinda com reflexões importantes, como a de que a criatividade nasce da escassez, da falta de recursos mesmo, quando é necessário botar a cachola pra funcionar. Mas a criatividade só aparece quando você está num ambiente em que se sente confortável, um peixe dentro d'água. Aí é só acrescentar o bom humor e não ter medo de errar.

É muito original sua concepção sobre o viés. Num mundo de informações fragmentadas, redes sociais e fake news, é grande a chance de, numa conversa em grupo, cada pessoa enxergar uma parte da realidade. Na comunicação digital isso acontece o tempo todo. E muitas pessoas só querem ver aquilo em que acreditam, só consomem aquilo, e ficam reféns do algoritmo. Antes de uma conversa que se pretenda produtiva é importante certificar-se de que todos estão vendo o mesmo problema. E ao entrar em uma conversa você precisa estar disposto a ouvir (capacidade rara hoje em dia) e a aprender. "Onde não há espaço para a dúvida, não há chance de aprendizado. Quem não está disponível para perder uma discussão nunca aprende coisas novas. Aí está o papel central da educação". Então é importante que cada pessoa tenha consciência do próprio viés e do viés do outro. É normal ter visões de mundo diferente. E acolher diversos pontos de vista, numa diagonal, amplia nossa percepção da realidade. 

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