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sábado, 7 de novembro de 2026

O Chamado da Floresta

Cães puxando trenós. Pessoas brutas tentando sobreviver. Uma natureza selvagem e hostil. Um clima gelado com tempestades de neve inclementes. O povoamento do Alasca no final do século XIX e começo do século XX. A chamada corrida do ouro. A forte demanda por cães fortes e saudáveis para puxar trenós. Esse é o panorama de O Chamado da Floresta / Jack London; tradução de Maria Emília de Oliveira; ilustrações de Áthila Fabbio. 1ª ed. Campinas, SP: Texugo, 2025 (ou O Chamado Selvagem, em muitas traduções para o português). The call of the wild (no título original) é o livro mais notório e conhecido do famoso escritor Jack London. 

O livro narra as aventuras e desventuras de Buck, um cão domesticado que é capturado para ser vendido para trabalhar no Alasca. Antes de ser raptado, Buck era o cão do juiz da cidade de Santa Clara, na Califórnia, onde tinha uma vida confortável e feliz. Buck brincava com os filhos do Juiz Miller e tomava conta dos seus netos. Esse foi o primeiro dono de Buck, o primeiro de muitos, alguns bons, outros maus.  Mas, um dia, Buck foi raptado, vendido e levado para "as terras do Norte". O corte é abrupto, terrível, como é, às vezes, o destino de muitos. Longe de ser apenas uma história de maus-tratos, o livro registra a sua metamorfose sob a égide da "lei do porrete e das presas afiadas": de cão doméstico a robusto puxador de trenó, disputando espaço com huskies endurecidos pela fome e pelo frio. Ao fazer o caminho inverso das fábulas de domesticação, Jack London constrói uma jornada na qual Buck, ao ouvir o chamado ancestral da floresta, vai gradualmente tirando a casca de civilização.  

Buck não é um cachorro de raça puro; é uma mistura de São Bernardo com Collie. Portanto, o personagem principal é um cachorro, algo que se tornou moda e lugar comum décadas depois, com as produções da Disney. Jack London, com sua escrita certeira, empresta personalidade, cara, vida e até sentimentos ao cachorro protagonista. Buck vai passar por trabalhos extenuantes, castigos, fome, sede, frio, brigas ferozes até se fortalecer por dentro e por fora; até se tornar uma fera terrível e temível, uma lenda das terras do Norte. 

O contexto histórico da narrativa de O Chamado Selvagem (frequentemente traduzido como O Chamado da Floresta) é a Corrida do Ouro na América do Norte, que teve seus epicentros no Alasca e no território canadense de Yukon. Levas inteiras de homens alucinados pelo sonho dourado arriscavam a própria pele e a sanidade em meio a paisagens implacáveis. Enfrentando invernos de rachar os ossos, o tifo e a fome, esses aventureiros rasgaram florestas, compraram picaretas, abriram minas e transformaram a vastidão branca em núcleos de povoamento. Assim nasceram cidades de fronteira,  portos de entrada onde os garimpeiros desembarcavam devido à cobiça pelo ouro.  

"John Griffth Chaney, mais conhecido como Jack London, foi um aventureiro e um homem de ação como poucos escritores jamais foram: sua vida é ainda mais impressionante do que as histórias de seus livros (...). Desde pequeno precisou lutar para sobreviver. Foi entregador de jornais, ajudante em uma pista de boliche, operário de uma fábrica de conservas e até pescador de ostras". Gostava de ler e devorou dezenas de livros na adolescência. Mas seu maior gosto era por aventuras. Com 17 anos, Jack London embarcou em uma expedição de caça às focas, navegando pelo Pacífico até o Japão. Após essa experiência, decidiu estudar. Mas, aos 22 anos, precisou abandonar a Universidade da Califórnia, por não ter mais dinheiro para pagar a mensalidade. Foi nessa época que London tentou a sorte numa expedição ao Alasca, durante a famosa Corrida do Ouro de Klondike. Somente depois dessa experiência e de outras viagens é que Jack London tirou o pé da vida aventureira e se dedicou a escrever livros. 

Publicado primeiramente no formato de folhetim, o texto fez um enorme sucesso e logo se tornou um livro famoso nos EUA. A leitura é agradável e nos transporta para um mundo hostil e selvagem. Jack London escreve bem, tem o domínio da escrita. O livro tem uma escrita fluida e simples, sem complicações ou palavras sofisticadas. 

A jornada de Buck representa não somente a luta pela sobrevivência em um mundo hostil, inóspito e injusto, mas também o desejo de reconexão com a natureza. Ouvir o chamado da floresta, ir além das linhas divisórias, encontrar o irmão lobo, aguçar os instintos mais primitivos. Incrível pensar que, em 1903, ano em que a obra foi lançada, com apenas 50 ou 60 anos de Revolução Industrial nos EUA, já havia esse anseio coletivo de reconexão ou busca pela natureza ou, ainda, de cansaço com o mundo industrial e dito civilizado.