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terça-feira, 19 de julho de 2022

Rota 66

Rota 66/Caco Barcellos; 33 ed.; São Paulo: Globo, 1999, é um livro reportagem que aborda a violência policial na cidade de São Paulo de 1970 a 1985, fruto de um rigoroso processo de investigação jornalística. O livro é composto de três partes: 1) O caso Rota 66; 2) Os matadores; 3) Os inocentes. Caco Barcellos se define mais como repórter do que como jornalista porque gosta de investigar, perguntar, conversar com as pessoas, em suma, ir para a rua atrás da notícia. Depois, ele faz um trabalho de confrontar versões em busca da verdade factual. Também é um bom escritor, na medida em que costura com elegância seus achados e descobertas. O autor, além de revelar o peculiar método de investigação jornalística, que incluía a leitura diária do jornal Notícias Populares, bem como visitas diárias ao IML, descreve os fatos com todas as circunstâncias dos crimes, inclusive os nomes dos matadores e das vítimas. Rota 66 foi publicado em 1992 e ganhou o prêmio Jabuti em 1993, na categoria Reportagem; deveria ser leitura obrigatória para estudantes de Direito e Jornalismo.

O livro começa como um "trilher" de filme de ação; descreve uma fuga alucinante de carro pelas ruas de São Paulo, no ano de 1975, a perseguição policial e a execução de 3 jovens na Rua Argentina, Jardim Europa, por PMs da ROTA - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, o 1º Batalhão de policiamento de Choque da Capital. O carro perseguido era ocupado por três jovens de classe média alta, frequentadores do Clube Paulistano, que resolveram aprontar uma traquinagem e furtar um toca-fitas de um amigo deles, que estava devendo no jogo. Na hora que estavam debruçados sobre o toca-fitas, chegou a veraneio da Rota. "- É a polícia! Mãos na cabeça!" Eles saíram correndo, entraram no fusca e Noronha começou a dirigir feito louco pelas ruas de São Paulo. Talvez o erro deles tenha sido fugir; mas a questão é que, depois da perseguição, eles foram brutalmente assassinados com tiros nas costas e na cabeça, sem nenhuma chance de se explicarem. Foram mais três vítimas da "Rota, a polícia que mata", a polícia que primeiro atira e depois pergunta. Todavia, foram três vítimas de classe média alta, cuja abordagem fugiu ao padrão e atraiu o interesse de toda a imprensa (especialmente de um jovem repórter chamado Caco Barcellos). O pai de uma das vítimas era amigo do governador Paulo Egídio Martins. Um promotor de justiça foi especialmente designado para o caso.

O mérito de Caco Barcellos foi ter desmascarado o método de alguns maus policiais da Rota: 1) vontade de matar; 2) predisposição a matar jovens negros e pardos da periferia; 3) o mau policial primeiro atira e depois pergunta; 4) mudança da cena do crime para não levantar suspeita de execução (ao contrário do que determina o Código de Processo Penal, que recomenda aos policiais a preservação da cena do crime); 5) falsificação ideológica do Boletim de Ocorrência, no qual o policial sempre alega que foi recebido a tiros e agiu em legítima defesa. A mudança da cena do crime envolve várias técnicas ilegais, que vão desde retirar o corpo do suposto ladrão ou criminoso do local onde caiu morto e levá-lo para o hospital já sem vida, até "plantar" uma arma na cena do crime para simular um tiroteio, como se fosse do civil morto.

O Brasil é um país extremamente violento. Sempre foi, desde as capitanias hereditárias, passando pela escravidão, pelo coronelismo, pela Guerra do Paraguai, por Canudos, até hoje. Em muitos lugares as coisas são resolvidas à bala, na base da força, no autoritarismo. Em uma Feira Literária em Paraty, Caco Barcellos chegou a comentar: “Nenhuma guerra recente ocorrida no mundo vitimou mais pessoas que os assassinatos acontecidos anualmente no Brasil”, disse ele, lembrando a cifra de 50 mil mortes por ano. “É a pior guerra do mundo.” Uma parte dessas mortes pode ser colocado na conta dos policiais militares, que são mal remunerados, mal treinados e vivem em um corporativismo que incentiva a matar, e não a prender o suspeito e levá-lo para a delegacia, como manda a lei. No fundo, o livro funciona como uma denúncia de uma corporação policial violenta que não respeita a lei. E é uma aula de jornalismo investigativo.

terça-feira, 12 de julho de 2022

São Paulo: procura-se uma saída

A cidade de São Paulo tornou-se inviável. É um fato. Tanto assim que, com a pandemia e a implantação do trabalho remoto para uma pequena e felizarda parcela da população, muitas pessoas resolveram migrar para cidades vizinhas, como Santos, Jundiaí, Sorocaba, Piracicaba etc. A pandemia ensinou algumas coisas e muitas pessoas saíram de SP em busca de uma melhor qualidade de vida, de verde, ar puro, silêncio ou, simplesmente, mais tempo com a família.

Da verticalização nem se fala. A cidade cresce para para os lados, mas sobretudo para cima. Foi realmente incrível a quantidade de novos edifícios levantados na cidade nos últimos dois anos. A construção civil foi um dos únicos ramos que cresceu na pandemia. Cada vez mais se vê menos vilas e mais prédios. Na Vila Mariana, em particular, o cenário é triste. A mudança na paisagem está acontecendo a olhos vistos. Grandes construtoras compraram e derrubaram muitas casinhas, predinhos, sobrados... Vem a demolição, colocam tudo abaixo. Constroem prédios altos, de todos os tipos e alguns muito perto da calçada. Caminhões, terra, caçambas, obras, barulho, cimento. A cidade vira um inferno. A verticalização prossegue. Para onde?

Não existe amor em SP já cantou Criolo, "onde os grafites gritam" nos muros, nas pontes e viadutos. É uma cidade de contrastes, que assusta quem a cruza em linha reta, da Faria Lima ao Capão Redondo. Precisa ter estômago... E pulmão de aço. As almas sensíveis sucumbem à degradação da paisagem. A falta de horizontes e de verde acabam por levar à depressão. Nas periferias, a falta de parques, de verde e de equipamentos públicos deixam os jovens sem perspectivas de mudança. Já nos bairros ricos e endinheirados, vê-se surgir na paisagem verdadeiros enclaves fortificados, uma cidade de muros altos e concreto segregador. Leiam Raquel Rolnik, Teresa Pires Caldeira.

Outra marca registrada são os rios poluídos. É de dar dó. E de tampar o nariz... O rio Tietê e o rio Pinheiros são esgotos a céu aberto, principalmente nos trechos em que o rio é considerado "morto", já que não consegue abrigar vida porque há pouco ou nenhum oxigênio dissolvido na água. Se é que se pode chamar aquilo de água. O despejo de esgoto sem tratamento já levou o antropólogo Darcy Ribeiro a dizer, com justeza, que os paulistanos não sabem tratar seus rios.

Há quem goste de morar na cidade. Sem dúvida, é um lugar de oportunidades para trabalhar (comércio, startaps, escritórios, residências, prédios etc.) e estudar (escolas, universidades, faculdades, institutos etc.). Há oportunidade de trabalho em quase todos os ramos, da construção ao comércio, de serviços domésticos a tecnologia de informação. Há cursos de todos os tipos na cidade. Se você quiser aprender grego, hebraico ou mandarim, certamente irá encontrar um curso que atenderá suas necessidades. Mas o preço para se morar em São Paulo é caro. O preço das faculdades, dos transportes e dos aluguéis é caríssimo. Mas não é só. A poluição da cidade também faz o seu estrago. Os níveis atuais de poluição em São Paulo reduzem a expectativa de vida em cerca de um a três anos, gerando problemas como o câncer de pulmão e de vias aéreas superiores, como asma, rinite, bronquite e sinusite. Graças a Deus existe o parque do Ibirapuera para arejar a mente, andar, correr, andar de bicicleta, patins, skate etc. Mas quantos tem a sorte de morar ali por perto?

A São Paulo de hoje não é mais a cidade feia e bela de antigamente, a São Paulo dos novos baianos, dos anos 60, da época dos saudosos festivais da Record, quando os artistas moravam no centro, na Avenida São Luiz e Consolação e alguma coisa acontecia quando cruzavam a Ipiranga com a avenida São João. Naquela época ainda era uma cidade de encontros possíveis em espaços públicos, nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nas faculdades, nos teatros. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Rita Lee, Chico Buarque se encontravam nas praças. Igualmente, a São Paulo de hoje não é mais a cidade do início dos anos 90, na administração Luiza Erundina, quando tinha um planejamento da cidade para todas as classes sociais em projeto cultural inclusive, com shows no MASP e no Anhangabaú. A cidade hoje é mais dura, feia, veloz e violenta. E, fora de alguns poucos circuitos, tornou-se uma cidade interditada para o afeto coletivo. "O avesso do avesso do avesso".

terça-feira, 24 de maio de 2022

Shackleton

Imagine uma viagem difícil e com muitos percalços em que o navio afunda e você e seus companheiros precisam desesperadamente sobreviver com a tripulação dividida em 3 pequenos barcos a milhas e milhas de um porto seguro. Em condições de pressão e temperaturas normais já seria complicado. Pois é... A incrível viagem de Shackleton, Alfred Lansing; tradução Sérgio Flaksman, Rio de Janeiro: Sextante, 2004, foi muito mais difícil do que você imaginou, pois foi na Antártida, no continente gelado, com ventos cortantes e congelantes, em uma época em que não havia GPS, e o rádio ainda era um experimento desacreditado. Tal viagem foi relatada com riqueza de detalhes pelo jornalista e escritor americano Alfred Lansing, cujo mérito foi entrevistar os tripulantes e compor um relato completo da expedição, do naufrágio e da tentativa de retorno à civilização. Lançado em 2004 no Brasil pela primeira vez esse é um livro de aventuras. É uma luta pela sobrevivência. Mais do que isso. É um relato minucioso de como 28 homens sobreviveram a uma expedição fracassada, cujo navio encalhou no gelo da Antártida em 1915.
 
A expedição foi composta de 28 homens, sendo um chefe (Shackleton), um subcomandante, um comandante (Worsley), um navegador, três pilotos, dois maquinistas, três médicos, um geólogo, um meteorologista, um físico, um biólogo, um fotógrafo, um desenhista, um especialista em motores, um carpinteiro (McNeish), um cozinheiro (Green), cinco marinheiros, dois foguistas e um passageiro clandestino, depois descoberto e incorporado à tripulação.

Ernest Shackleton era uma espécie de navegador que gostava de desafios e queria deixar seu nome na história. Podia ter defeitos, mas era um líder sem igual. Seu objetivo era atravessar o continente antártico, o continente gelado para ser o primeiro homem a realizar esse feito. O início do século XX era uma época em que algumas regiões do globo ainda não tinham sido visitadas pelo homem, mas tanto o Polo Norte quanto o Polo Sul já tinham sido atingidos por navegadores (Amundsen e Scott, respectivamente) ao tempo da citada expedição. 

O plano geral de Shackleton era levar o navio até o mar de Weddel e desembarcar uma expedição de trenós composta de seis homens e 70 cães.  Atravessar o continente gelado a pé (com os trenós e os cães) e pegar um navio do outro lado, que deveria estar esperando e fazer um retorno glorioso à Europa. Shackleton comprou e preparou o melhor barco que conseguiu, o Endurance, fabricado na Noruega.

Feitos os preparativos o navio partiu da Inglaterra com direção ao Polo Sul. Depois de uma breve escala na Argentina, o navio seguiu seu rumo. Quase chegando na Antártida, o navio atolou no meio de blocos de gelo, em uma espécie de "sopa de gelo". Depois, os ventos mudaram, a temperatura caiu, as gigantescas pedras de gelo endureceram e prenderam o navio irremediavelmente. O navio ficou preso tal qual uma amêndoa em uma barra de chocolate. Depois, ao longo de meses, o navio foi prensado pelas gigantescas pedras de gelo, que faziam sons medonhos, e acabou afundando.

Após o naufrágio do Endurance e antes de se afastarem do navio à pé, arrastando os trenós e os três barcos pequenos no gelo, Shackleton exorta a tripulação a reduzir o peso e a carga ao mínimo essencial. "Cada um, disse, ficaria com as roupas que estava vestindo e mais dois pares de luvas, seis pares de meias, dois pares de botas, um saco de dormir, uma libra (cerca de meio quilo) de tabaco - e duas libras de artigos pessoais. Falando com a máxima convicção, Shackleton afirmou que nada tinha o menor valor se comparado à sobrevivência, e exortou todos a serem impiedosos ao se desfazerem de cada grama de peso desnecessário, qualquer que fosse seu valor. Depois de falar, enfiou a mão sob sua parka, tirou uma cigarreira de ouro e vários soberanos de ouro e os atirou na neve a seus pés. Depois, abriu a Bíblia que a rainha Alexandra lhe dera, arrancou a folha de rosto e a página que continha o Salmo 23. Também arrancou a página do Livro de Jó que continha o seguinte versículo: 

De que seio saiu a geada?
E quem gerou o gelo do céu?
As águas se endurecem a modo de pedra, 
E a superfície do abismo se aperta. 

Depois, atirou a Bíblia na neve e se afastou. Foi um gesto teatral, mas era o que Shackleton pretendia".

Livre dos excessos e apenas com o essencial, era preciso seguir em frente.

domingo, 24 de outubro de 2021

MAID

A câmera foca Alex Russel. A protagonista está acordada, assustada e deitada na mesma cama do marido, Sean, mas ele dorme. Ela esperou ele dormir e o momento certo para levantar da cama, pé ante pé, sem fazer barulho, vestir uma roupa, calçar um tênis, sair do quarto, pegar a filha no outro quarto e zarpar. Sair de uma casa que já mostra na parede as marcas da violência doméstica. O primeiro episódio mostra Alex fugindo de um casamento abusivo e de uma marido violento, com sua filha de 3 anos no colo. Assim começa Maid, série produzida pela Netflix e Warner Bros. É um drama. E dos bons. 

No dia seguinte à fuga da violência doméstica, Alex (Margareth Qualley) vai numa agência da Previdência social (Social Security), mas como não quer denunciar o marido por agressão ou abuso, não tem emprego e declara não ter habilidades específicas, a atendente a encaminha para a empresa "Value Maids", serviço de limpeza de casas feito por diaristas. Assim também começa o drama de refazer a vida a partir do zero, a partir do nada, com uma criança de colo. É duro. O espectador sofre junto e torce por uma volta por cima. Mas a estrada é longa... 

Aos poucos a série mostra que Alex não tem com quem contar. Está praticamente sozinha no mundo, por assim dizer. Paula (Andie McDowell), sua mãe, é uma artista hippie, bipolar e atraída por homens autoritários e problemáticos. Um foco de confusões. Seu pai também é alcoólatra e está tentando se reerguer na vida com a ajuda do AAA, mas Alex não tem confiança nele porque ele era violento com sua mãe antes do divórcio. Assim, de um dia para o outro Alex se vê na rua, sem teto, sem dinheiro e sem pai nem mãe confiáveis. Também não dá para Alex desabafar com ninguém. Os americanos são meio travados para falar de sentimentos.

Como Alex não prestou queixa logo em seguida à fuga de casa e não sofreu violência física, ela fica numa espécie de limbo jurídico. Para piorar a situação, Sean (Nick Robinson), o ex-marido, entra na justiça pedindo a guarda da filha. Os problemas vão se avolumando nos ombros da jovem mãe. Ela não sabe, nesse ponto, que violência psicológica também é violência. O filme tem o mérito de retratar o percurso da protagonista, com suas quedas e reerguimentos. Há um abrigo (shelter) no meio do caminho. Um abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica. Uma chance de recuperação. 

A série vale a pena. O espectador fica grudado na tela na torcida pela protagonista. A série mostra o lado proletário dos Estados Unidos, o duro trabalho da empregada doméstica, a rudeza da agência de emprego. A falta de proteção social que se dá em alguns pontos cegos no sistema. Mas, por outro lado, também mostra um abrigo exemplar para mulheres vítimas de abuso. No caso de Alex, além da missão de se sair da esfera de violência do marido e conquistar sua independência financeira para garantir a guarda da filha, ela também tem que se refazer como pessoa e como mulher. 

De fato, além do marido, Alex ainda tem um conflito com Paula, no qual ela precisa quebrar um círculo vicioso de dependência emocional e se libertar da mãe, que hora sim hora não, faz comentários maldosos, denegrindo filha. Há uma ambivalência aí, pois, por outro lado, foi Paula quem a protegeu do pai violento. Muitos filmes já falaram da mãe tóxica ou da mãe dominadora, que atrapalha, atrasa ou quebra a autoestima dos filhos. É duro a escolha de seguir a estrada com ou sem a mãe, mas Alex vai ter que escolher. Ou o destino vai dizer...

sábado, 2 de outubro de 2021

Justiça - Maria Augusta Ramos

"Justiça" é o título de um documentário (2004) de Maria Augusta Ramos (disponível na Netflix) retratando o sistema de Justiça penal no Brasil e cenas do cotidiano dos operadores do Direito. Os personagens são: uma juíza durona, que depois é promovida à Desembargadora; um réu que está sendo processado por um crime; outro juiz, que é professor de Direito Processual Penal e uma defensora pública, entre outros. É um retrato da realidade. Não tem glamour nenhum. É um choque de realidade, mas é muito instrutivo e revelador das engrenagens do sistema penal brasileiro. De quebra, também retrata o Rio de Janeiro com sua mazelas.

As cenas mais longas, retratos da realidade no fórum, nos convida a pensar. É um filme que convida à reflexão. Acompanha-se o julgamento de um réu. Carlos Eduardo foi denunciado e processado pela prática do crime de receptação (art. 180 do Código Penal). Acompanha-se o drama da família, a dor da mãe, que visita o filho na cadeia, chora e vai a um culto pedir forças. A luta da namorada que está grávida e enfrenta uma gravidez sem o companheiro, que está preso. A cena em que ela, grávida, sobe o morro é reveladora da dura luta da classe menos favorecida.

Maria Augusta Ramos apenas mostra a realidade, ela não aponta o dedo para acusar o sistema de justiça penal brasileiro. Não há panfletagem, acusações nem discursos veementes. Pelo contrário. O filme é calmo, quase silencioso. A câmera é uma testemunha das cenas da Justiça. A câmera entra nos recintos, nos fóruns, nos presídios, nas celas, nas casas dos juízes e defensores públicos. A diretora apenas mostra, expõe, revela como funciona o sistema penal. É um sistema que dá emprego e função para muita gente: promotores, juízes, defensores públicos, advogados, escriturários, e servidores da justiça, mas que não resolve o problema. É um girar a roda sem fim. Crime, julgamento e punição. Mas sem reeducação. A cada ano com novas e novas levas de condenados, de apenados, de reincidentes, sem que se eduque ou dê ocupação lícita ou novas oportunidades a essa gente. É claro que é necessário punir os criminosos e os malfeitores, mas é necessário dar a eles oportunidades de regeneração, de mudarem de vida.

Há uma cena chocante em que é mostrada a cela lotada em que fica o réu Carlos Eduardo, enquanto espera por seu julgamento. É uma carceragem para presos provisórios, isto é, aqueles que estão sendo processados criminalmente, mas ainda não foram condenados definitivamente, e tampouco conseguiram obter liberdade provisória por habeas corpus. Na carceragem referida não há espaço sequer para metade dos detentos ficarem deitados. Para caber todos os presos naquele exíguo espaço, todos os presos precisam ficar de pé para que alguns fiquem deitados em redes, no alto. Para quem trabalha com a Justiça Penal no Brasil, sabe-se que ela é um rolo compressor, onde os operadores do Direito atuam mecanicamente, dado o elevadíssimo número de processos, e que ela é seletiva, isto é, condena mais pobres do que ricos, mais negros do que brancos.

O filme só não mostrou o lado do Ministério Público e isso foi uma falha. O documentário revela o Ministério Público, o órgão acusatório no sistema brasileiro, como um trator, que vai oferecendo denúncia, sem discriminar muito e agindo pelos critérios da produtividade, pelo número de denúncias que um promotor consegue oferecer por mês. Isso até pode corresponder à realidade, mas o documentário não acompanhou o dia a dia de um promotor, como fez com um juiz e com a defensora pública.

De qualquer modo, trata-se de programa obrigatório para todos aqueles que desejam ver como funciona o Direito Penal na prática, na vida real, e não em teoria ou nos livros de doutrina. E revela o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade. 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Na natureza selvagem

Christopher Johnson McCandless era um jovem norte-americano saudável, inteligente e que se saia bem em quase tudo o que fazia. Mas era inconformado com o sistema e incomodado com duas coisas em sua família: a obsessão dos pais em aparentar uma família perfeita para encobrir uma família problemática e o autoritarismo do pai, que o forçou a cursar faculdade contra a sua vontade. O jovem, que sempre tivera problemas com o pai, assentiu e cursou a bendita universidade de Emory por 4 anos. E tirou excelentes notas, além de ter trabalhado e economizado uma boa grana. Uma vez formado, porém, empreendeu uma longa viagem sem dar noticias do seu paradeiro. Desapareceu simplesmente, sem deixar rastros. Mergulhou na solidão da estrada em busca da natureza selvagem.

 "Tomar a trilha e não olhar para trás". Esse era o propósito de Chris McCandless quando deixou Atlanta para sempre e começou sua aventura pelos Estados Unidos da América. Leitor de Tolstoi, Jack London e Henry David Thoreau, o jovem tinha muitas críticas ao conforto da civilização e ao sistema capitalista, que incentiva o consumo em excesso, inclusive de coisas supérfluas. Desse modo, McCandless era um romântico, no sentido daquele que busca a natureza para entrar em contato com a pureza e a essência das coisas. Ele escreveu em seu diário, já no final de sua jornada, dentro do ônibus em que veio a morrer de inanição: "Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque "o Oeste é o melhor". E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual".

McCandless, que em sua jornada autodenominava-se com outro nome, Alexander Supertramp, escreveu um diário e referia-se a si próprio na terceira pessoa, num tom pomposo. Pelos relatos, nota-se também significativas variações de humor, indo da euforia à melancolia, o que sugere algum tipo de transtorno psiquiátrico ou emocional. A personalidade e a aventura de McCandless divide opiniões. Alguns o admiram pela sua coragem e desapego; outros acreditam que ele era um desajustado e foi burro na sua empreitada, além de egoísta com os pais. Bom... acredito que ambos os lados tem sua razão. Tem muita gente maluca que se aventurou no Alasca e morreu. No caso de McCandless, tratava-se de um jovem com uma tremenda necessidade de afirmar, de modo inflexível, a sua autonomia, de fugir da neurose de seus pais, desligando-se temporariamente da família e dos valores conhecidos da civilização.

Como é sabido, o livro Na natureza selvagem, Jon Krakauer; tradução Pedro Maia Soares, Companhia das Letras, virou um belo filme em 2007, dirigido por Sean Penn. Em uma época de revolta contra a sociedade e o sistema, lembro-me de ter assistido ao filme e o impacto que teve sobre meus pensamentos. Foi inevitável a identificação com o personagem e os seus sentimentos, embora não totalmente, por ele levar tudo ao extremo, às últimas consequências. No filme, fiquei chocado com a cena em que, logo após abandonar seu carro, McCandless queima o resto do dinheiro que levava consigo. Ali se dá um corte, em que ele dá adeus à civilização. É o tipo da cena que, pelo absurdo, leva o espectador a arregalar os olhos ou gargalhar, tomado pelo espanto. O filme é lindamente dirigido e editado. Mas é perturbador.

Eu sabia da existência do livro mas, de forma consciente, esperei alguns anos para ter maturidade suficiente  para lê-lo. Alguns livros são assim: requerem um amadurecimento do leitor para serem desfrutados. É um livro triste. Chorei duas vezes durante a leitura e fiquei embargado outra. Um rapaz inteligente, saudável, cheio de vida, mas que brigou com os pais de forma irremediável, deu adeus para eles em seu íntimo (sem se despedir), se embrenhou na natureza selvagem e morreu. Hoje, embora compreenda a revolta e a atitude do rapaz, próprias da juventude, consigo enxergar melhor a dor e a angústia que ele causou a seus pais. Se antes eu me identificava com ele, por causa de revolta com pai e mãe, com o establishment e a hipocrisia da sociedade, hoje em dia não tanto, e fico triste por ele não ter tido tempo para sentar, conversar e perdoar pai e mãe, ventilar os assuntos, fazer terapia e superar as mágoas e os ressentimentos. Afinal, ele era um bom rapaz, de bom coração.  No final de sua vida e epopeia, dentro do ônibus e antes de morrer de inanição, sozinho, longe de tudo e de todos, McCandless finalmente compreendeu uma lição: "A felicidade só é real quando compartilhada".

McCandless foi criado em Annandale, nos arredores de Washington - Virgínia. Quando ele era criança, seus pais compraram um trailer Airstream e fizeram andanças pela Virginia, Carolina do Norte e Colorado.  Há uns dois capítulos em que o autor disseca a personalidade de McCandless, que julgava a si próprio e aos outros com rígidos padrões morais. Um jovem aventureiro, cheio de vida e disposto a correr riscos despertou sentimentos variados nas pessoas. McCandless despertava um instinto paternal nas figuras masculinas com quem se encontrava, entre eles Jim Gallien, Wayne Westerberg e principalmente Ronald Franz. Cada um a seu modo, tais figuras viam em McCandless seu filho, um jovem romântico e bom papo que buscava a liberdade, mas que precisava ser acolhido, amado e compreendido.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Gandhi - Autobiografia

Teimoso, obstinado, simples, idealista, conciliador, cuidador, político, orador, advogado, filho, marido, pai, amigo. Assim era Mohandas K. Gandhi, mundialmente conhecido como uma figura esquálida, que jejuava com objetivos políticos e altamente espiritualizada. Pacifista e personagem crucial para a independência da Índia, Gandhi (1869-1948) foi uma pessoa extraordinária. Logo cedo descobriu algumas regras de vida que o ajudaram, entre elas a regra de seguir sua voz interior.

Nascido na Índia, formado em Direito na Inglaterra e advogado na África do Sul, Gandhi foi um cidadão do mundo. Não foi um intelectual, mas leu bastante durante a juventude. Não foi um trabalhador rural, mas trabalhou bastante nas fazendas comunitárias que ajudou a construir. Não foi um político profissional, mas fez política para ajudar as causas das comunidades mais pobres e injustiçadas. Não foi um líder espiritual nem fundador de igrejas, mas ajudou milhares de pessoas a ter fé em Deus e a praticar o bem. Gandhi foi um espírito altamente evoluído que passou pela experiência humana.

Gandhi casou-se precocemente, aos 13 anos, com Kasturbai, em um casamento arranjado, como era costume na Índia do século XIX. Curioso descobrir que Gandhi era ávido por sexo na juventude, só tendo controlado os desejos da carne posteriormente, quando começou a praticar a Brahmacharya, filosofia segundo a qual o sexo somente deve ser feito com o fim de reprodução. Gandhi escreveu que "o casal que se der conta disso jamais empreenderá a união sexual com o objetivo de satisfazer sua luxúria, mas apenas para gerar descendência. Considero ser o auge da ignorância a crença de que o ato sexual é uma função necessária, tal como dormir ou comer". 

Vocacionado a cuidar dos outros, ainda adolescente, Gandhi cuidou do pai no fim da vida deste. Ele gostava de cuidar de pessoas, tanto que por mais de uma vez serviu no grupo de ambulâncias em guerras que tomaram lugar na África do Sul, inclusive na Guerra dos Bôers.  Realmente, olhando em perspectiva, nota-se que Gandhi tinha uma alma que transbordava, ajudava, cuidava do outro. Não era suficiente estar bem, cuidar da própria saúde, do próprio bem-estar. Era preciso olhar para o lado, trabalhar em prol da comunidade. Autobiografia - minha vida e minhas experiências com a verdade / Mohandas K. Gandhi; tradução Humberto Mariotti et al.-São Paulo: Palas Athena,2014 é um relato sincero da vida do personagem mais conhecido da Índia moderna. Sempre me pergunto qual seria o momento certo para alguém escrever a história de sua vida. Creio que não pode ser cedo demais, nem tarde demais. Gandhi escreveu a biografia em 1936; portanto, aos 67 anos. Dividido em 5 partes, o livro é composto por capítulos curtos, fáceis de ler. O difícil para nós ocidentais são os complicados nomes indianos. A narrativa, empolgante no início, perde um pouco o ímpeto no final.

Gandhi estudou Direito em Londres, tendo-se formado em 1891. Ele conta que, naquele tempo, o ensino do Direito na Inglaterra era arcaico, muito preso a convenções e um dos requisitos para se formar consistia em participar de jantares. Era possível formar-se sem muito estudo. Porém, por honestidade intelectual, resolveu ler obras de Direito Romano, como Justiniano e alguns clássicos, como "o livro de Goodeve, Personal Property [Propriedade Privada]", entre outros. O objetivo de Gandhi não é tanto falar da advocacia, mas por vezes ele fala, pois essa profissão foi um meio para ele se colocar no mundo, ganhar a vida e reparar iniquidades. A formatura em Londres, os livros, o começo da prática na Índia, e uma contenda especial na África do Sul valem a leitura. Gandhi enfrentou dificuldades para exercer a advocacia na Índia, tendo realmente iniciado a profissão na África do Sul. Sempre lutava contra as injustiças e advogava em prol dos indianos discriminados. Naturalmente, Gandhi chega à conclusão que é melhor fazer acordos para resolver os conflitos entre as partes. Desse modo, ele era um homem que aliava a advocacia à prática do ahimsa, termo sânscrito que designa a filosofia da não violência, quer por meio de pensamentos, palavras ou ações. 

Além disso, a devoção à Verdade de Gandhi irradiava por todos os aspectos de sua vida, inclusive na prática da advocacia. Assim, ele jamais admitia que um cliente ou testemunha do seu cliente pudesse mentir perante o tribunal. E se percebia qualquer tentativa de mentira, não aceitava a causa ou, se já a tivesse aceito, renunciava ao mandato. Era, sobretudo, um advogado das causas justas. E nas causas em que havia uma grande injustiça, além de defender a parte mais fraca, não cobrava honorários dos clientes, contentando-se com o que seria arbitrado ao final da demanda pelo juiz.

O livro nos conta da sua ida e longa permanência na África do Sul. Naquele tempo de colonialismo, a Índia mandava trabalhadores para a África do Sul, que não eram muito bem tratados. Gandhi resolveu lutar nos tribunais para que esses indianos imigrantes tivessem melhores condições de vida, saúde e higiene. O livro revela a inclinação de Gandhi pela vida comunitária e pelos serviços comunitários, o que fica claro e evidenciado com a Fazenda Tolstoi.  Por vezes é angustiante ver o obstinado Gandhi tratando seus familiares com métodos alimentares heterodoxos. Certa vez, não deixou que sua mulher tomasse caldo de galinha, conforme prescrito pelo  médico. Gandhi era um vegetariano radical, era vegano e por vezes preferia sofrer os desígnios de Deus a comer qualquer coisa de origem animal.

O desapego a bens materiais foi sendo praticado ao longo da vida. Mahatma, inclusive, é um título do qual ele não gostava. Ele conta que sua vida era mais simples antes desse pesado título. Certa vez, Gandhi conseguiu convencer sua esposa a se desfazerem dos presentes caros que tinham recebido, entre eles, joias de safira e ouro, o que é surpreendente. Gandhi viajava de terceira classe por livre e espontânea vontade; não porque gostasse de sofrer, mas para se colocar no lugar do outro, dos desafortunados. Houve, desde o início, uma escolha por um modo simples de vida. Sem luxo, sem ostentação. Viver somente com o essencial.