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domingo, 22 de junho de 2025

Não diga que a canção está perdida

Raul Seixas devia estar contente, porque tinha um emprego, era considerado um cidadão respeitável, ganhava quatro mil cruzeiros por mês e tinha até conseguido comprar um corcel 73. Mas tudo isso era "Ouro de tolo", pois ele não estava feliz. Nessa encruzilhada da vida, Raul trabalhava como produtor da CBS, mas não estava plenamente realizado. Então, em 1973, influenciado pelo início de carreira do colega e músico Sérgio Sampaio, ele decidiu dar um passo que iria mudar a sua vida: pediu demissão da gravadora para seguir seu sonho: lançar-se como músico e cantor, na esperança de fazer sucesso no Brasil.

Foi uma aposta arriscada. Este é o "turning point" da biografia "Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida, Jotabê Medeiros. - I. ed. - São Paulo: Todavia, 2019". Oriundo de uma família de "classe média bem-posta", na Bahia, Raul Seixas era filho do Sr. Raul Varella, engenheiro da RFFSA e de dona Maria Eugênia. Tinha um irmão mais novo, Plínio e a família tinha uma propriedade rural de veraneio em Dias d'Ávila, a sessenta quilômetros de Salvador, local onde iam relaxar e passar fins de semana. Foi lá que Raul conviveu mais de perto com seu primo José Walter. Nas palavras do autor, "Zeva seria uma influência decisiva para a primeira consciência do mundo que Raul desenvolveria", ao dizer que a sociedade de consumo era uma engrenagem que não emancipava o homem, mas usava-o como mercadoria, "tirava-lhe a capacidade de autogestão, comercializava sua vontade, espoliava sua originalidade". Raul acrescentaria alguns itens a esse carrinho ideológico e faria uma obra estruturada em princípios humanistas e focada em contestar as convenções sociais. 

O que muita gente não sabe é que, antes de se lançar como artista e conquistar o público com "Ouro de tolo", Raul aceitou o convite de Evandro Ribeiro, na virada dos anos 60 para os 70, e foi produtor de música contratado pela gravadora CBS. Ele trabalhava de terno e gravata, carregava uma maleta 007, batia ponto e voltava para casa no fim do dia para junto de sua esposa, Edith e a filha Simone. Ou seja, nessa altura, Raul tinha uma vida de pacato cidadão, como assalariado. Foi com esse modo de vida que Raul ajudou a produzir a música considerada brega dos anos 70, tendo contribuído para o lançamento de muitos cantores, como Leno, José Roberto, Diana, José Ricardo e Odair José. Nessa época, Raul Seixas, que fazia parceria com Mauro Motta, aprendeu tudo sobre música. Segundo a biografia, a exemplo do que Phil Spector fazia, "Raul e Mauro se postavam em todas as fases de produção de um álbum": eram compositores, escolhiam o material, decidiam sobre arranjos, melodia, comandavam a gravação de estúdio e tocavam instrumentos.  

Raul Seixas encarnou a contestação, a rebeldia e a busca por novos caminhos na música, trilhando uma rota musical original, misturando rock e baião. Mas Raulzito não teria sido Raul Seixas, nem teria ficado tão famoso sem a parceria com Dom Paulete. O início da amizade dos dois é descrita de forma detalhada e vale a compra do livro. Na mesma época que Raul pede demissão da gravadora e decide se lançar como artista, ele conhece Paulo Coelho, na época apenas um cara obscuro, que escrevia textos com pretensão filosófica num jornal alternativo. A sintonia não foi imediata, mas vingou e rendeu uma das melhores parcerias da música brasileira. Não por acaso, os álbuns de maior maturidade de Raul foram Krig-ha bandolo (1973), Gita (1974) e Há 10 mil anos atrás (1976), ambos com a maioria das músicas em parceria com o mago. Ou seja, o auge musical de Raul se deu entre 1973 e 1976, mais ou menos. Pensando nisso, é uma ironia verificar que o auge da carreira de Raul tenha se dado durante os "Anos de Chumbo", o período mais violento do Regime Militar. Não por acaso, foi por isso que também se deu o início da separação dos dois parceiros e amigos, quando ambos foram intimados a depor no Dops. Depois de Raul ter sido liberado, Paulo Coelho ficou detido e foi torturado pela Polícia Política, fato que o marcou por toda a vida. A partir daí a amizade azedou do vinho para o vinagre. 

A biografia é uma viagem na vida e na carreira desse grande artista, chamado Raul Seixas (1945-1989). Um cometa que passou pela Terra e deixou o seu brilho. A biografia tem o mérito de analisar, de forma cronológica, a vida e os álbuns de Raul em detalhes, desde o álbum "Raulzito e Os Panteras" (1968) até "A panela do diabo" (1989), em parceria com Marcelo Nova. Mas, no geral, é mais uma biografia musical do que humana. Jotabê Medeiros analisa bastante as músicas e conta pouco do homem. Assim, a biografia toca pouco na questão do alcoolismo (hoje reconhecido como doença pela OMS), que corroeu Raul por dentro, causando estragos na sua vida pública e privada, até sua morte. Mesmo assim, é um livro que deve ser festejado, pois prima pela pesquisa aprofundada e toca em pontos delicados da vida de Raul, que talvez seriam omitidos por um fã mais apaixonado. Fica-se sabendo das mulheres de Raul Seixas: Edith Nadine Wisner, Glória Vaquer, Tania Menna Barreto, Ângela Maria de Affonso Costa (Kika) e Helena Coutinho (Lena), de suas pisadas na bola e separações. Todas as companheiras contribuíram, de alguma forma (até como compositoras), com as músicas e a produção artística de Raul.  

Daí ser interessante notar os paralelos entre as músicas e a vida pessoal do artista. Em 1974, quando Raul Seixas grava pela primeira vez "Medo da Chuva" e canta que "É pena que você pense que eu sou seu escravo dizendo que eu sou seu marido e não posso partir (...)", ele está muito influenciado pela doutrina mequetrefe do mago britânico Aleister Crowley, um obscuro escritor, adepto do ocultismo, que pregava o amor livre e a poligamia. Não por acaso, 1974 é o ano em que Edith, sua primeira mulher, já não suportando mais as aventuras extraconjugais do marido, regressou para os EUA com a filha Simone e nunca mais voltou. Já em 1979, quando Raul grava pela primeira vez "Diamante de mendigo" ele já é um cara que caiu, sofreu, que conheceu a ascensão e a queda nas paradas de sucesso e que teve duas esposas norte-americanas que o deixaram. Não é a toa que nessa última canção ele canta: "Eu tive que perder minha família para perceber o benefício que ela me proporcionava (...)" 

Por essas verdades nuas esculpidas nas letras, aliadas à melodias que não saem da cabeça, Raul se tornou uma lenda reverenciada por jovens, universitários, pedreiros, empregadas domésticas, garimpeiros e toda uma gama de trabalhadores do chamado "lumpem" proletariado. A veracidade que sai de suas músicas é uma coisa impressionante. E é isso que cativa. A música que Raul faz é de fácil assimilação. E é uma música em prol da liberdade do indivíduo, de poder escolher o seu caminho e assumir os seus tombos. E também é uma música de contestação do status quo, dos valores vigentes, das convenções sociais etc. Então é uma música que agrada muito o público jovem e as classes mais pobres e sofridas.    

A música de Raul Seixas não pode ser rotulada. Não é MPB, nem Tropicália, muito menos Bossa Nova, nem Jovem Guarda ou Rock dos anos 80, nem música brega. A música do Maluco Beleza fica numa encruzilhada que não pode ser definida; por isso ele é também considerado um outsider. O músico que não podia ser classificado também era pra lá de eclético. Como sintetiza parte do texto da orelha do livro "[e]m 44 anos de vida, Raul Seixas deixou 312 canções registradas como composições suas, trabalhando gêneros tão distintos quanto tango, country, baião, samba, acid rock, iê-iê-iê, marchinha, forró, folk, brega, xote, xaxado, balada". Não é para qualquer um. Tem que ser um baiano arretado, fã de Elvis Presley e com uma intuição genial para misturar rock com baião para dar conta do recado. 

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