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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Papa Francisco

"A paz se encontra apenas no momento presente. O passado já foi, o futuro ainda não veio. Deus está no agora". "A pressa e o barulho sufocam a alma. É preciso aprender a arte do silêncio interior". "Deus age conosco, não sem nós. A graça precisa da nossa colaboração". "O primeiro a pedir desculpas é o mais valente. O primeiro a perdoar é o mais forte. E o primeiro a esquecer é o mais feliz". "Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo, nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria". Foram tantas as frases memoráveis do papa Francisco postadas por milhares de pessoas, nas redes sociais, quando da sua morte, que poderíamos ficar aqui o dia inteiro. O mundo ficou comovido naquele dia 20 de abril de 2025, um dia antes de sua morte, quando, já bastante debilitado, Francisco fez um esforço físico tremendo, contrariando seu médico, para ir ao encontro do povo na Praça de São Pedro, para a benção Urbi et Orbe

Um papa profundamente humano, que abriu as portas da Igreja, merecia e precisava de uma biografia à altura. Só não se esperava que essa biografia Esperança: a autobiografia / Papa Francisco, com Carlo Musso. 1ª ed. - São Paulo: Fontanar, 2025, viesse dele próprio. Um papa que acolheu e propôs uma igreja cada vez mais acolhedora (e não julgadora), voltada para todos, mas especialmente para os pobres, os excluídos e os marginalizados, contou a sua história. O "cardeal do povo" como os argentinos o chamavam não mudou a doutrina da Igreja, mas mudou a prática e reinstalou uma Igreja acolhedora. Sem dúvida, uma das coisas mais extraordinárias que aconteceram na Igreja Católica nas últimas décadas foi a eleição do Papa Francisco. O primeiro papa não nascido na Europa (que sopro de renovação!), o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa que falou: "Chi sono io per giudicare?" (Quem sou eu para julgar?). 

O que emerge do livro é a vida de Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), contada de uma forma muito agradável, basicamente em ordem cronológica. Fica-se sabendo um pouco da história da imigração dos seus avós da Itália para a Argentina, a longa travessia, a chegada, a crise econômica, a família, os pais, os tios, os irmãos. Bem por isso, Bergoglio era muito solidário e sensível ao drama dos imigrantes em todo o mundo, questão candente nos dias atuais. O papa Francisco também gasta tinta para falar do seu horror às guerras e da estupidez dos generais e políticos que fazem as guerras. Não existe guerra boa, ele diz. A guerra só traz dor, destruição e morte. Os reis, os políticos e generais são egoístas, orgulhosos e disputam o poder. E o povo sofre; o povo vira bala de canhão para esses canalhas. Isso tudo emerge do livro, apenas numa linguagem mais moderada e reflexiva. 

A narrativa tem um tom sério, confessional, para ser um testemunho do seu tempo. Nota-se em Bergoglio um temperamento melancólico; é uma pessoa reflexiva, que pensa e medita nas coisas. É uma autobiografia sincera. Até seus defeitos e alguma eventual falta de atenção com pessoas queridas são narrados. Detentor de uma consciência moral muito forte, Bergoglio era capaz de ficar décadas com uma culpa ou remorso por uma pequena falha no passado em que não foi devidamente atencioso com outro ser humano. E, décadas depois, quando encontrava a pessoa, pedia perdão e tentava reparar o erro. Também mantinha contato com as pessoas que lhe foram caras ou tiveram significado na sua caminhada. Ele ligava, mandava cartas, procurava entrar em contato com as pessoas. Ele saía da casca. 

Por tudo, contudo e em tudo, a autobiografia do papa Francisco é um depoimento vivo em que o leitor consegue penetrar os pensamentos do pontífice, seus gostos, suas leituras, sua visão de mundo, o despertar da sua vocação, a vida no mosteiro e sua rica trajetória, que incluiu até um curso técnico em química. Se forem ler algum livro sobre o papa Francisco leiam esta autobiografia de um humilde jesuíta, de um cardeal argentino que foi eleito papa contra todas as suas expectativas. Vale a pena! Uma alma simples. Uma vida alegre, de serviço à Deus e ao próximo. Um cardeal que foi eleito papa por dizer a verdade: que a Igreja precisava sair de si mesma e ir ao encontro do povo. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Primeiro Leitor

Como leitor de uma vida inteira, sempre tive curiosidade de saber como funciona uma Editora, o que se passa lá dentro, quais as funções e os cargos nesse tipo de empresa, dedicado a editar livros. Será que eles leem todos os manuscritos que os candidatos a escritores enviam? Como é feita a escolha? Como nasce uma Editora? Quais são os desafios desse tipo de empresa? Luiz Scharwcz responde a algumas dessas perguntas na obra O primeiro leitor: Ensaio de memória/Luiz Schwarcz. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Mas não é um manual de como montar sua própria Editora. São memórias. Ele conta passagens da sua vida e do mundo dos livros.  

Luiz Schwarcz é um editor que não se gaba, nem se vangloria de seus feitos. Ele tem horror à vaidade e à autopromoção. Por vezes encontramos passagens em que ele diz que o mérito não é dele, que o trabalho é da equipe, dos escritores etc. Mas o fato é que a Companhia das Letras, editora que ele fundou há 39 anos está viva e funcionando até hoje, coisa rara no Brasil. Então algum mérito aquele rapaz do início da década de 80, aquele rapaz cujos ídolos eram Caio Graco Prado e Jorge Zahar tem. Sim, ele teve uma boa escola, chamada Brasiliense. 

Com efeito, Luiz Schwarcz descreve o início da sua vida profissional na Editora Brasiliense e como essa rica experiência o ajudou a angariar know how para tocar o dia a dia de uma Editora e, um tempo depois, fundar a sua própria. Aliás, Uma das coisas mais saborosas no livro é como surgiu a "Coleção Primeiros Passos" na Brasiliense (quem não se lembra?), a que depois se seguiu "Tudo é História", "Cantadas Literárias" e outras, transformando a Editora Brasiliense, no início da década de 80, em uma usina de ideias e de bons livros.  

Prestando atenção na leitura, fica-se sabendo que dentro de uma Editora existem várias figuras, cada qual com sua função: editor, produção gráfica, preparadores de texto, tradutores, capistas, diretor editorial etc. Na minha opinião, faltou falar um pouco dos bastidores e do intercâmbio desses vários departamentos dentro da editora. Também faltou falar do trabalho dos agentes literários, figura que não existia antigamente e que hoje passou a ser fundamental.  

O livro atendeu minhas expectativas em parte. Fica-se sabendo o início da sua vida profissional na Brasiliense e como era seu relacionamento com Caio Graco Prado; o início da FLIP (Feira Literária de Paraty) e a inveja dos editores do Rio de Janeiro; a fogueira de vaidades que é a Feira de Frankfurt, para onde editores do mundo inteiro se dirigem, levando seus egos enormes a tiracolo para comprar obras que ouviram falar bem, mas não leram; e alguns fatos curiosos do mundo editorial: um deles foi a longa luta para que o romance Ulysses, de James Joyce, fosse publicado nos Estados Unidos no anos 30, em uma época que vigorava uma forte censura por lá. Por outro lado,  ao contar seu relacionamento com autores da Companhia das Letras, muitas vezes de forma superficial, Schwarcz expõe desnecessariamente defeitos e idiossincrasias de autores que a casa abrigou sob o seu teto. 

Ruy Castro, Susan Sontag, Ruben Fonseca, Andrew Solomon, José Saramago e Milton Hatoum são apenas algumas estrelas literárias da Constelação que a Companhia já abrigou ou abriga no seu céu de letras. A proposta, desde o início, foi criar e manter uma editora de qualidade, uma editora de primeiro mundo, por assim dizer, que dignificasse a literatura, os escritores e respeitasse os leitores. Conseguiu. Hoje é referência.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

É preciso vigiar sobre nosso coração

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: "Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: 'Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda'. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!' Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado". 

                                                                                                (Lc 18, 9-14)

Sobre essa passagem, o Bispo Auxiliar de São Paulo, Dom Edilson de Souza Silva, a propósito do Evangelho de domingo, escreveu um belo comentário, que pedimos licença para transcrever: 

"Dois homens sobem ao Templo para rezar: um cobrador de impostos, que descendo ao profundo de si mesmo, com humildade e sem ostentar qualquer tipo de máscara diante de Deus, implora por misericórdia pelos seus pecados, e um fariseu, que sobe ao alto do seu ego inflado e, numa suposta ação graças a Deus, enaltece a si mesmo e suas pretensas virtudes, desprezando os demais. 

Mas, pode algo ficar oculto aos olhos de Deus? Obviamente que não, pois Ele conhece os corações e é justo no julgar. Ele acolhe a prece do cobrador de impostos, uma vez que "a prece do humilde atravessa as nuvens" (Eclo 35,21), ao passo que o fariseu não é justificado, porque "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (1Pd 5,5). 

Jesus afirma que "quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado" (Lc 18,14) e, à luz desta palavra, precisamos examinar nosso coração, pois, disse o Papa Francisco, que "para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio (Encíclica Dilexit nos, cap. I, n.6). Daí ser importante cultivar um coração puro, manso e humilde à semelhança do Coração de Jesus. 

Tanto o publicano quanto o fariseu vão ao Templo para rezar, mas os corações deles vão em direções diferentes: um reconhece a necessidade da graça e o outro se gaba de seus méritos, desprezando os que ele julga inferiores a si. Nós também corremos o perigo de cair na tentação do fariseu e desembocar no que o Papa Francisco chamou de "mundanismo espiritual", no qual se busca a glória humana e o próprio bem-estar no lugar da glória de Deus, "uma maneira sutil de procurar os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo (Fl 2,21)".  

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O maior vendedor do mundo

"Saudarei esse dia com amor no coração. Pois este é o maior segredo do êxito em todas as aventuras. Os músculos podem partir um escudo e até destruir a vida, mas apenas os poderes invisíveis do amor podem abrir os corações dos homens, e até dominar esta arte não serei mais que um mascate na feira. Farei do amor minha maior arma e ninguém que a enfrente poderá defender-se de sua força". É assim que começa o Pergaminho nº 2. Todas as gerações que leram o livro com o coração o trazem de cor. O autor estava profundamente inspirado quando o escreveu. Desde que li, virei fã de Og Mandino. Mas é bom avisar aos navegantes: trata-se de uma obra de autoajuda. E das melhores!

Og Mandino (1923-1996) foi um escritor estadunidense, que escreveu 17 livros. Presidiu a revista Success Unlimited até 1976, quando, aos 52 anos, chocou o setor ao renunciar à presidência para dedicar-se em tempo integral a escrever e dar palestras. Na época, não era comum fazer isso. Antes de chegar lá, porém, passou por maus bocados. Alcoólatra que quase chegou ao suicídio, conseguiu ficar sóbrio para se dedicar à escrever, tornando-se milionário ao publicar O maior vendedor do mundo. Tornou-se um dos autores mais inspiradores e bem sucedidos no segmento denominado auto-ajuda, principalmente com livros voltados para vendas. Ele era fã de Norman Vincent Peale, autor do livro O poder do pensamento positivo. Seus livros venderam milhões de cópias e foram traduzidos em diversos idiomas. Segundo a orelha do livro, Og Mandino integra o Hall da Fama do "National Speakers Association", nos Estados Unidos. 

O miolo do livro são 10 pergaminhos com instruções de como encarar a vida com amor, coragem e fé e ter uma postura mais positiva na sua vocação e no seu trabalho, sejam quais eles forem. O mérito do autor, além das mensagens de fé, esperança, com estímulos ao trabalho árduo e ao agradecimento, está em emoldurar esses 10 pergaminhos em uma história cristã muito tocante, envolvendo um rico mercador, que é o maior vendedor do mundo, um guardador de camelos, que quer subir na vida para ganhar o coração de sua amada e, por fim, a sagrada família no nascimento de Jesus em uma humilde estrebaria em Belém. É uma história que emociona. 

No primeiro pergaminho ele instrui cuidadosamente o leitor a ler os 9 seguintes da seguinte maneira: 1) ler cada pergaminho por 30 dias antes de passar para o seguinte; 2) ler o pergaminho 3 vezes ao dia, uma vez ao acordar, outra depois do almoço e a terceira antes de dormir. Algumas passagens são marcantes, de uma beleza incomum. Depois de 30 dias lendo o mesmo pergaminho, o leitor incorpora aquelas mensagens. Esse é o truque do livro. É que, segundo o autor, somos escravos dos nossos hábitos. E para se tornar uma pessoa melhor, é necessário trocar maus hábitos por bons hábitos. Daí essa repetição e esse ritual. 

É um livro que ajuda mais quem tem um propósito claro ou uma meta à sua frente, como arrumar emprego, passar em provas ou concursos, realizar um sonho etc. Me ajudou a passar no vestibular. Li pela primeira vez em 1989, quando eu estava estudando para passar no vestibular. Foi um livro que me cativou imensamente. Bebi de suas palavras como se fossem sagradas. Li os pergaminhos religiosamente, da forma como foi orientada, três vezes ao dia, por 30 dias cada pergaminho. Foi assim que eu comecei a saudar cada dia com amor no coração, a persistir até alcançar êxito e a aplicar outras lições ensinadas no livro.  

Mais de 30 anos depois, reli o livro e me emocionei novamente. É tocante. Vale a pena! Só que dessa segunda vez li o mesmo livro com olhos mais críticos. Apesar de já não me impressionar tanto e não concordar com 100% do conteúdo do livro, fiquei espantado com a beleza das frases e do conteúdo e concordei com uns 70% dos seus ensinamentos, que espremidos, resultam em uma vitamina que pode ser tomada todos os dias, com afirmações positivas para o indivíduo. 

Há nobres verdades, mas também há meias verdades. Por exemplo, no pergaminho que emula o leitor com a frase "Hoje serei senhor de minhas emoções", é bom que se diga que ninguém é dono das suas emoções. Todo mundo sente raiva, mas não são todos que saem esmurrando ou xingando os outros. Tem gente que sente a raiva, respira, conta até 10 ou até 100, e não reage imediatamente. Apenas vai embora e abandona aquele ambiente tóxico. É uma atitude mais saudável. Mas todos nós estamos sujeitos às emoções, que passam pelo nosso ser. Todo mundo sente alegria, tristeza, raiva, medo, gratidão, mágoa, etc. O que você faz com esses sentimentos é outra coisa. Eu diria que não controlamos as emoções, mas podemos controlar nosso comportamento. 

Consta da contracapa que esse livro "foi adquirido por companhias importantes como a Coca-Cola e a Volkswagen" para ser distribuído aos seus funcionários. Por esse prisma, algum sociólogo poderia dizer que se trata de doutrinação para aumentar a produtividade das empresas e gerar mais lucro. Pode até ser. Mas, inegavelmente, o livro pode ser visto como uma oportunidade de crescimento pessoal. Ou, simplesmente, para se tornar uma pessoa melhor. A receita é boa: aumentar a capacidade de amar a Deus e ao próximo, trabalhar com afinco, pensar positivo, não deixar a tristeza e o desânimo entrarem por muito tempo, não viver no passado nem no futuro, dando valor ao dia de hoje! E sentir gratidão por cada nascer do sol, por uma nova oportunidade de mostrarmos o nosso valor!

domingo, 22 de junho de 2025

Não diga que a canção está perdida

Raul Seixas devia estar contente, porque tinha um emprego, era considerado um cidadão respeitável, ganhava quatro mil cruzeiros por mês e tinha até conseguido comprar um corcel 73. Mas tudo isso era "Ouro de tolo", pois ele não estava feliz. Nessa encruzilhada da vida, Raul trabalhava como produtor da CBS, mas não estava plenamente realizado. Então, em 1973, influenciado pelo início de carreira do colega e músico Sérgio Sampaio, ele decidiu dar um passo que iria mudar a sua vida: pediu demissão da gravadora para seguir seu sonho: lançar-se como músico e cantor, na esperança de fazer sucesso no Brasil.

Foi uma aposta arriscada. Este é o "turning point" da biografia "Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida, Jotabê Medeiros. - I. ed. - São Paulo: Todavia, 2019". Oriundo de uma família de "classe média bem-posta", na Bahia, Raul Seixas era filho do Sr. Raul Varella, engenheiro da RFFSA e de dona Maria Eugênia. Tinha um irmão mais novo, Plínio e a família tinha uma propriedade rural de veraneio em Dias d'Ávila, a sessenta quilômetros de Salvador, local onde iam relaxar e passar fins de semana. Foi lá que Raul conviveu mais de perto com seu primo José Walter. Nas palavras do autor, "Zeva seria uma influência decisiva para a primeira consciência do mundo que Raul desenvolveria", ao dizer que a sociedade de consumo era uma engrenagem que não emancipava o homem, mas usava-o como mercadoria, "tirava-lhe a capacidade de autogestão, comercializava sua vontade, espoliava sua originalidade". Raul acrescentaria alguns itens a esse carrinho ideológico e faria uma obra estruturada em princípios humanistas e focada em contestar as convenções sociais. 

O que muita gente não sabe é que, antes de se lançar como artista e conquistar o público com "Ouro de tolo", Raul aceitou o convite de Evandro Ribeiro, na virada dos anos 60 para os 70, e foi produtor de música contratado pela gravadora CBS. Ele trabalhava de terno e gravata, carregava uma maleta 007, batia ponto e voltava para casa no fim do dia para junto de sua esposa, Edith e a filha Simone. Ou seja, nessa altura, Raul tinha uma vida de pacato cidadão, como assalariado. Foi com esse modo de vida que Raul ajudou a produzir a música considerada brega dos anos 70, tendo contribuído para o lançamento de muitos cantores, como Leno, José Roberto, Diana, José Ricardo e Odair José. Nessa época, Raul Seixas, que fazia parceria com Mauro Motta, aprendeu tudo sobre música. Segundo a biografia, a exemplo do que Phil Spector fazia, "Raul e Mauro se postavam em todas as fases de produção de um álbum": eram compositores, escolhiam o material, decidiam sobre arranjos, melodia, comandavam a gravação de estúdio e tocavam instrumentos.  

Raul Seixas encarnou a contestação, a rebeldia e a busca por novos caminhos na música, trilhando uma rota musical original, misturando rock e baião. Mas Raulzito não teria sido Raul Seixas, nem teria ficado tão famoso sem a parceria com Dom Paulete. O início da amizade dos dois é descrita de forma detalhada e vale a compra do livro. Na mesma época que Raul pede demissão da gravadora e decide se lançar como artista, ele conhece Paulo Coelho, na época apenas um cara obscuro, que escrevia textos com pretensão filosófica num jornal alternativo. A sintonia não foi imediata, mas vingou e rendeu uma das melhores parcerias da música brasileira. Não por acaso, os álbuns de maior maturidade de Raul foram Krig-ha bandolo (1973), Gita (1974) e Há 10 mil anos atrás (1976), ambos com a maioria das músicas em parceria com o mago. Ou seja, o auge musical de Raul se deu entre 1973 e 1976, mais ou menos. Pensando nisso, é uma ironia verificar que o auge da carreira de Raul tenha se dado durante os "Anos de Chumbo", o período mais violento do Regime Militar. Não por acaso, foi por isso que também se deu o início da separação dos dois parceiros e amigos, quando ambos foram intimados a depor no Dops. Depois de Raul ter sido liberado, Paulo Coelho ficou detido e foi torturado pela Polícia Política, fato que o marcou por toda a vida. A partir daí a amizade azedou do vinho para o vinagre. 

A biografia é uma viagem na vida e na carreira desse grande artista, chamado Raul Seixas (1945-1989). Um cometa que passou pela Terra e deixou o seu brilho. A biografia tem o mérito de analisar, de forma cronológica, a vida e os álbuns de Raul em detalhes, desde o álbum "Raulzito e Os Panteras" (1968) até "A panela do diabo" (1989), em parceria com Marcelo Nova. Mas, no geral, é mais uma biografia musical do que humana. Jotabê Medeiros analisa bastante as músicas e conta pouco do homem. Assim, a biografia toca pouco na questão do alcoolismo (hoje reconhecido como doença pela OMS), que corroeu Raul por dentro, causando estragos na sua vida pública e privada, até sua morte. Mesmo assim, é um livro que deve ser festejado, pois prima pela pesquisa aprofundada e toca em pontos delicados da vida de Raul, que talvez seriam omitidos por um fã mais apaixonado. Fica-se sabendo das mulheres de Raul Seixas: Edith Nadine Wisner, Glória Vaquer, Tania Menna Barreto, Ângela Maria de Affonso Costa (Kika) e Helena Coutinho (Lena), de suas pisadas na bola e separações. Todas as companheiras contribuíram, de alguma forma (até como compositoras), com as músicas e a produção artística de Raul.  

Daí ser interessante notar os paralelos entre as músicas e a vida pessoal do artista. Em 1974, quando Raul Seixas grava pela primeira vez "Medo da Chuva" e canta que "É pena que você pense que eu sou seu escravo dizendo que eu sou seu marido e não posso partir (...)", ele está muito influenciado pela doutrina mequetrefe do mago britânico Aleister Crowley, um obscuro escritor, adepto do ocultismo, que pregava o amor livre e a poligamia. Não por acaso, 1974 é o ano em que Edith, sua primeira mulher, já não suportando mais as aventuras extraconjugais do marido, regressou para os EUA com a filha Simone e nunca mais voltou. Já em 1979, quando Raul grava pela primeira vez "Diamante de mendigo" ele já é um cara que caiu, sofreu, que conheceu a ascensão e a queda nas paradas de sucesso e que teve duas esposas norte-americanas que o deixaram. Não é a toa que nessa última canção ele canta: "Eu tive que perder minha família para perceber o benefício que ela me proporcionava (...)" 

Por essas verdades nuas esculpidas nas letras, aliadas à melodias que não saem da cabeça, Raul se tornou uma lenda reverenciada por jovens, universitários, pedreiros, empregadas domésticas, garimpeiros e toda uma gama de trabalhadores do chamado "lumpem" proletariado. A veracidade que sai de suas músicas é uma coisa impressionante. E é isso que cativa. A música que Raul faz é de fácil assimilação. E é uma música em prol da liberdade do indivíduo, de poder escolher o seu caminho e assumir os seus tombos. E também é uma música de contestação do status quo, dos valores vigentes, das convenções sociais etc. Então é uma música que agrada muito o público jovem e as classes mais pobres e sofridas.    

A música de Raul Seixas não pode ser rotulada. Não é MPB, nem Tropicália, muito menos Bossa Nova, nem Jovem Guarda ou Rock dos anos 80, nem música brega. A música do Maluco Beleza fica numa encruzilhada que não pode ser definida; por isso ele é também considerado um outsider. O músico que não podia ser classificado também era pra lá de eclético. Como sintetiza parte do texto da orelha do livro "[e]m 44 anos de vida, Raul Seixas deixou 312 canções registradas como composições suas, trabalhando gêneros tão distintos quanto tango, country, baião, samba, acid rock, iê-iê-iê, marchinha, forró, folk, brega, xote, xaxado, balada". Não é para qualquer um. Tem que ser um baiano arretado, fã de Elvis Presley e com uma intuição genial para misturar rock com baião para dar conta do recado. 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Bill Gates, Paul Allen e a realização de um sonho

 
No início de sua autobiografia, Bill Gates conta que gostava de caminhar junto com um grupo de escoteiros desgarrados. Já era um indício do seu desejo de descobrir o próprio caminho, conforme ele conta quando se compenetrou em visualizar e escrever mentalmente um código de computador durante uma longa caminhada. Nascido e criado em Seattle, Bill Gates teve uma infância estimulante no seio de uma típica família de classe média americana. Estudou o ensino fundamental em uma escola pública. Devido ao seu alto desempenho, fez estudo médio em uma escola particular. Como não era bom nos esportes nem fortão, tentava se sobressair na selva da convivência escolar de adolescentes com seu jeito engraçado e falador, fazendo perguntas desconcertantes aos professores. Isso o ajudou até certa época, depois essa máscara de engraçadinho deixou de funcionar. À essa altura, porém, ele já descobrira o mundo dos computadores.

Seu pai, um advogado sério e sócio de um escritório no centro de Seattle, era habilidoso com as palavras, calmo e estrategista. Sua mãe era de uma família rica do Estado de Washington. A sociabilidade dos pais de Bill Gates (principalmente da mãe) mantinham a casa movimentada durante o ano todo, com recepções e jantares. Os pais eram trabalhadores, honestos e preocupados com a comunidade local, que ajudavam. A mãe nunca abandonou o trabalho voluntário. Além disso, muito antes do feminismo ganhar terreno, ela foi membro de conselho de grandes empresas de capital aberto. Na educação dos filhos, o pai era mais bondoso e liberal e a mãe, mais severa e rígida, exigindo resultados. Assim, fatalmente, na época da adolescência houve conflitos e Bill Gates virou rebelde. Resultado: os pais colocaram-no em uma terapia na qual, ao final, o terapeuta aconselhou os pais a pegarem mais leve com o filho, deixando-o escolher seu próprio caminho. Bill Gates também teve forte influência da avó materna, Gami, uma mulher progressista, moderna, e, ao mesmo temo, adepta da Ciência Cristã. Para Gates, era incompreensível como sua avó, sendo racional, culta e educada, relutava em entrar num hospital ou nunca recorresse a medicamentos modernos.

Filho do meio, Bill Gates era curioso e desenvolveu desde cedo o hábito da leitura; lia enciclopédia avidamente, queria saber sobre tudo e virou até assistente bibliotecário na escola. Gostava de ler, pesquisar e coletar informações. Falando assim, parece até que viraria cientista ou professor de universidade, mas a vida o encaminharia para o fabuloso negócios dos computadores pessoais, que teve início na década de 1970, mas chegou com força no mercado nos anos 80 e 90. A aproximação precoce com os computadores se deu por um golpe de sorte, quando a Lakeside, sua escola particular, resolveu comprar um PDP-10 para estimular os alunos. Além de Bill Gates, havia mais três aficcionados: Kent, Ric e Paul Allen.  

Esses 4 alunos, que mexiam todos os dias no computador da escola, logo começaram a entender de linguagem de programação e a visualizar aplicações práticas, como organizar a grade de horários da escola com um software. Daí para usar o computador de uma empresa grande de Seattle foi um pulo. Bill Gates nutria, desde cedo, a vontade de escrever um programa de computação que pudesse ser útil. Lakeside era uma escola preparatória para meninos oriundos de famílias ricas de Seattle. Lá, Bill Gates passou sua adolescência entre livros, professores exigentes e teve suas primeiras experiências com computação. Seu melhor amigo era Kent Evans, um menino obstinado que se empenhava ao máximo em todas as atividades e levava tudo ao limite, mas que acabou morrendo em uma escalada. Depois da morte de Kent, Gates retomou a amizade com Paul e Ric e, em seguida, estavam atrás de um microprocessador da Intel, inovação que iria mudar tudo. 

Em Harvard, Bill Gates nunca se encontrou, mas encontrou o único computador que havia na universidade, utilizando-o de maneira compulsiva nos espaços livres deixados pelos alunos mais velhos. Isso determinava uma rotina maluca, marcada por trocar a noite pelo dia. Bill Gates até aproveitou as muitas matérias que conseguia escolher, como matemática avançada, mas descobriu que, apesar de ser muito bom em matemática, não era bom o bastante. Então migrou para matemática aplicada, pois tinha uma aplicação variada e muito útil em diversos campos. Ao mesmo tempo, frequentava outras aulas. Até que alguns amigos que o conheciam melhor começaram a dizer: "Porque você não faz um curso de ciência da computação?". Ele não fez esse curso, se é que havia em meados dos anos 70. Ao invés disso, trancou a matrícula e voou para Albuquerque, no Novo México para trabalhar com desenvolvimento de softwares em parceria com a empresa MITS (Micro Instrumentation and Telemetry Systems), empresa fundada em 1969 que, além de kits eletrônicos, ficou famosa por criar o Altair 8800, um dos primeiros computadores pessoais, que é considerado um marco na história da informática pessoal. Em Albuquerque, Bill Gates e Paul Allen estabeleceram moradia, escritório, desenvolveram versões do Basic e assinaram contrato com a MITS. 

Nota-se que o livro "Código-fonte: como tudo começou" - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025, 372 pág.", foi escrito com sinceridade, mas é bom lembrar que se trata de uma autobiografia; portanto, com uma visão parcial dos acontecimentos. Advirta-se, igualmente, que a obra não retrata toda a vida do Bill Gates, mas somente até seus 28 anos. Assim, não há relatos sobre o seu casamento com Melinda Gates, nem sobre a fundação de ambos. O que fica da leitura é a paixão do empresário por computadores, mais especificamente sua obsessão em desenvolver softwares, sua capacidade de concentração ao realizar um trabalho, bem com a precocidade em criar sua própria empresa num ramo inovador.

Um dos capítulos mais interessantes é "Micro-soft" (com hífen), nome dado à empresa porque remete à ideia de microcomputadores em conjunto com softwares. Depois de usar e abusar do único computador de Harvard em 1975, Gates decide ir para Albuquerque, no Novo México trabalhar em associação com a empresa MITS, de Ed Roberts. Ele vai primeiro. Depois convida Paul Allen para se juntar. Em 1975, somente havia o início dos computadores de uso pessoal, que não serviam para muita coisa. Para ter utilidade, um computador precisava ter um bom software que lhe desse aplicações práticas. O livro conta que, nessa época, os computadores caíram no gosto da contracultura, sendo que os aficionados encaravam a nova tecnologia numa perspectiva de mudança social e livre circulação de ideias. Era uma época em que as pessoas faziam cópias piratas de softwares, por acreditarem que aquilo deveria ser compartilhado gratuitamente em prol da sociedade. 

Nas palavras de Bill Gates: "[e]m sintonia com a cultura hippie do mundo emergente do computador pessoal, havia um consenso de que todo software deveria ser gratuito. Os programas eram algo a ser copiado de um amigo, compartilhado abertamente ou mesmo roubado. (...) Já o equipamento físico, o hardware, era outra história. Era algo tangível. Ficava sobre sua mesa. Você podia ouvir o zumbido da ventoinha. Quando se encostava nele, sentia-se o calor da fonte de alimentação. (...) Em contraste, o software era algo virtual, pequenos fragmentos de informação armazenados numa fita magnética ou inscritos de modo indecifrável num rolo de papel. Era preciso um salto imaginativo para reconhecer que alguém passara milhares de horas projetando, escrevendo, depurando e se esfalfando para fazer um programa funcionar. E como este sempre havia sido gratuito, por que não o distribuir da mesma forma? Mas o que eu e Paul queríamos era montar uma empresa. Nossa convicção, consolidada em muitas conversas que avançavam pela madrugada, era que, à medida que os computadores pessoais ficassem cada vez mais baratos e fossem adotados em pequenos negócios e lares, haveria em consequência uma demanda quase ilimitada por programas de alta qualidade". Sem dúvida, Bill Gates abriu uma trilha num caminho que ainda não havia sido percorrido: criou uma empresa de softwares para computadores de uso pessoal. Uma mudança crucial dos últimos 50 anos. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Jorge Amado: uma biografia

"A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei", escreveu Jorge Amado no seu livro de memórias Navegação de cabotagem. O sentimento do escritor no final da vida era de gratidão. Afinal, foi um homem que realizou sua vocação de romancista. Jorge Amado nasceu em Itabuna, morou em Ilhéus, estudou em Salvador, começou a carreira de jornalista e escritor no Rio de Janeiro, onde morou, tendo retornado a Salvador depois dos 50 anos. Fora isso, ele viajou o mundo e escolheu Paris como sua segunda casa. A história de Jorge Amado é um pouco a história do século XX no Brasil, uma vez que ele nasceu em 1912 e faleceu em 2001, tendo passado por diversas fases históricas e políticas do nosso país, desde a Primeira República e o Tenentismo até o Golpe Militar de 1964 e a redemocratização, a partir de 1985. 

O livro Jorge Amado: Uma biografia: Joselia Aguiar, São Paulo: Todavia, 1ª ed, 2018, 640 páginas, é daqueles livros para você levar para a praia, numa viagem de férias. O livro é como um amigo de conversa agradável. Falar em amigos, Jorge Amado tinha muitos. Os amigos da Academia dos Rebeldes e depois, os amigos que angariou e conquistou ao longo da vida, entre eles, Érico Veríssimo, Raquel de Queiroz, Eduardo Portella, o poeta Pablo Neruda, Calasans Neto, Carybé, e muitos outros, jovens ou velhos. Recebia muita gente em sua casa, sendo que às vezes quando chegava de viagem, pedia para não anunciarem sua volta, para dar tempo de escrever.

Foi um dos escritores mais prolíficos do Brasil, tendo escrito por 62 anos, praticamente sem cessar, desde sua estreia, com o País do Carnaval (1930) até o livro de memórias Navegação de cabotagem (1992), passando pela fase de maior preocupação social, com Cacau, Suor, Jubiabá, Mar morto, Capitães da areia e os Subterrâneos da liberdade, até a segunda fase de sua obra, mais identificada com a brasilidade e o modo de ser do povo brasileiro, o cotidiano, a miscigenação, a sensualidade e a força da mulher. Seja numa fase ou outra, entretanto, seus personagens tinham os dois pés na realidade. Retratou jagunços, prostitutas, coronéis, lavradores, mães de santo, meninos de rua, cozinheiras etc. Jorge escreveu sobre o povo brasileiro, revelando para o mundo cores e sabores do Brasil.

Joselia Aguiar dedicou 7 anos para fazer a pesquisa e escrever a biografia do maior romancista brasileiro. Valeu a pena! Ao final do livro, a consulta às notas, fontes e bibliografia, dão conta do mergulho profundo no universo amadiano feito pela biógrafa, que entrevistou dezenas de pessoas para compor a obra, entre elas Alberto da Costa e Silva, Clara Charf, Eduardo Portella, Eric Nepomuceno, José Sarney, Paloma Amado, Stella Caymmi entre tantos outros. 

O resultado foi uma obra que consegue retratar diversas facetas do escritor. A infância em Ilhéus, a escola em Salvador, a família na Bahia, os pais, os irmãos, os amores. A atividade política e a militância no partido comunista, a prisão, as muitas viagens pelas Américas do Sul, Central e do Norte para divulgar suas obras. Posteriormente, as viagens para a Europa, principalmente Portugal e França. Em 1945, o romancista se apaixonou por uma mulher filha de anarquistas católicos, Zélia Gatai, sua companheira de toda a vida, com quem foi feliz e teve filhos e netos. Principalmente depois, de Gabriela cravo e canela, quando deixou a militância política, Jorge Amado tornou-se mais tranquilo e sóbrio. Não fugia de brigas, mas também não as alimentava, deixando críticos ferozes destilando veneno e falando sozinhos, como Otto Maria Carpeaux e Jacob Gorender.

Um dos capítulos mais significativos do livro, entretanto, chama-se "O desencanto", que descreve o desapontamento de Jorge Amado e outros intelectuais quando vieram a tona, em meados dos anos 1950, os expurgos, prisões, mortes e as atrocidades cometidas por Joseph Stálin, revelado ao mundo, afinal, um ditador cruel e desumano. Para quem acreditava no comunismo como força propulsora de um mundo melhor, mais justo e igualitário, foi como cair do cavalo. A decepção foi tão grande que Jorge ficou anos sem escrever. Ele viajou por diversos lugares e, quando retornou, seu primeiro romance foi Gabriela cravo e canela, inaugurando assim uma nova fase em sua literatura, onde Jorge se revelava mais solto, menos dogmático, menos preso à temática da luta de classes e da desigualdade, sendo que o humor estava mais presente. 

O que fica da leitura é um maior conhecimento do homem e sua obra. Jorge era uma pessoa expansiva, de muitos amigos, de gestos nobres e generosos. Era um homem de convicções, sem ser chato e sem querer impô-las aos outros. Sabia conversar e se dava tanto com pessoas de esquerda como com pessoas de direita. Num dia era capaz de almoçar com Oscar Niemayer e no outro dia com Antonio Carlos Magalhães. Também era um homem caseiro, que gostava de ficar com a família e escrevia na mesa da sala sem camisa ou com camisa aberta rodeado pelos netos, que brincavam pelo chão.

sábado, 4 de janeiro de 2025

O ar que me falta

Não sabia que Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, teve uma infância tão solitária e complicada. As histórias de família são surpreendentes e os problemas familiares ecoam, posteriormente, na vida adulta. Filho único, de André e Mirta, Luiz conta que o casamento dos seus pais não foi feliz. Ao lado de diferenças de personalidade e de gosto significativas, André queria mais filhos, objetivo não alcançado depois de inúmeros abortos espontâneos de Mirta. Ao mesmo tempo, o filho único foi depositário de altas expectativas da família, e teve (ou quis) assumir muitas responsabilidades, algumas impossíveis, como resgatar André do poço da tristeza e salvar o casamento dos seus pais.

Seu pai, André Schwarcz, quando contava com apenas dezenove anos, "sobreviveu fugindo do trem que o levava ao campo de extermínio de Bergen-Belsen", durante a Segunda Guerra Mundial. Numa cena dramática, que marcou a família para sempre, seu avô, Láios, que estava no mesmo vagão, gritou para André: "foge, meu filho, foge". O filho obedeceu; pulou do vagão, sobreviveu e ficou com uma culpa pelo resto da vida. Láios permaneceu no trem e nunca voltou do campo. 

"Láios foi visto ainda com vida quando os Aliados libertaram Bergen-Belsen, mas tão fraco que não podia mais andar ou se alimentar. Meu pai só veio a saber disso nos anos 1960, tendo ficado por mais de duas décadas imaginando como o pai dele morrera", conta o autor, que acrescenta: "Algumas dessas particularidades me serão contadas muitos anos depois. Para o que importa agora, basta dizer que minha mãe tentou me explicar, ainda durante a minha infância, a tristeza do meu pai - seus problemas para dormir, o barulho de suas pernas batendo na cama à noite. Aprendi o sentido da palavra 'culpa' desde muito jovem, como algo que fundava minha existência, algo que passava além dos olhos ou das pernas do meu pai. Sua culpa por ter sobrevivido a meu avô, de não o ter salvado ou acompanhado na morte, não permitia descanso, ou mesmo os bons sonhos que ele, junto com a minha mãe, me desejava toda noite à beira da cama. Meu pai provavelmente não dormia nem sonhava porque o passado voltava como vigília absoluta". 

Ao longo do livro O ar que me falta: história de uma curta infância e de uma longa depressão; Luiz Schwarcz - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2021, o leitor terá contato com relatos sobre a imigração dos judeus; a infância e adolescência do autor no bairro de Higienópolis, em São Paulo, assumindo responsabilidades desde cedo; os rituais judaicos; os episódios de bullying; o futebol como terapia, na posição de goleiro; a superação da timidez na colônia de férias da Congregação Israelita Paulista; o transtorno bipolar; sentimentos de raiva e culpa; rompantes agressivos e a busca por um tratamento. 

Luiz Schwarcz é, ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga, o fundador da Companhia da Letras, renomada editora fundada em 1986, que publicou no Brasil livros famosos como Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson; Boca do Inferno, Ana Miranda; Era dos extremos, Eric Hobsbawm e Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak, entre centenas de outros títulos extremamente bem cuidados e com excelentes traduções.

O ar que me falta é uma autobiografia de uma parte da vida do autor, mais focado nos problemas e dramas familiares. Para quem, como eu, gostaria de saber detalhes sobre a vida profissional de Luiz Schwarcz, as dificuldades e sucessos da editora Companhia das Letras, é um pouco decepcionante. Todavia, trata-se de um relato corajoso de um empresário de sucesso que não precisava, absolutamente, revelar detalhes de sua vida privada a ninguém, mas que quis trazer à tona feridas psicológicas da infância e da adolescência para seguir em frente, com certeza mais leve.