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sábado, 8 de agosto de 2026

Templo Zu Lai

Nada como desacelerar no final de semana e respirar ar puro. São Paulo é um caldeirão de moer ossos e pessoas. Então sair da rotina de trabalho, suor e pagar contas é um alívio para a mente e a alma. Aproveitamos um sábado para conhecer o famoso Templo Zu Lai, que é um templo budista localizado em Cotia, perto de São Paulo. Para chegar ao local, partindo da capital, pega-se a Rodovia Raposo Tavares, sentido Granja Viana.  

Vale a pena! Gostamos muito! Local grande, bem cuidado, destinado à prática e ensinamentos budistas. Há práticas de meditação, Tai Chi Chuan e palestras sobre assuntos profundamente humanos, como Culpa, Raiva, Medo, etc. Curioso como o ser humano domina a tecnologia hoje em dia, mas não conhece seus próprios sentimentos, não sonda sua alma e não domina seus impulsos. Também por isso temos uma sociedade doente. Nesse sentido, o templo budista, como a igreja, o monastério, o centro espírita e muitos outros locais, religiosos ou não, destinados à conexão do ser humano com Deus ou consigo mesmo, são verdadeiras ilhas de respiro e renovação dentro da selvageria que se tornou nossas cidades.  

Há um restaurante no local que serve almoço, uma comida vegetariana ótima, cujo preço é R$ 60,00 por pessoa. Pode repetir à vontade. Eu até havia me esquecido como tofu é gostoso. Depois do almoço, durante uma caminhada tranquila pelo local encontramos um praticante de Tai Chi Chuan que, durante nossa conversa soltou a seguinte pérola: 

"A repetição é a mãe do Aprendizado. 

A prática é a mãe da Habilidade. 

A paciência é a mãe da Sabedoria".

Tal mantra soou aos meus ouvidos como um presente que eu precisava ouvir.  

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Resolvendo as tretas da comunicação

"Muitas pessoas da nossa indústria não tiveram uma vida com experiências diversas. Então elas não tem pontos a ligar. Acabam trazendo soluções lineares, sem uma perspectiva ampla do problema. Quanto mais amplo é o entendimento da experiência humana, melhor é o desenho de soluções para os problemas". Com essa citação de Steve Jobs, que é a linha condutora do livro, o caipira de Araçatuba que ganhou espaço na telinha da televisão, desde os anos 80, Marcelo Tristão Athayde de Souza, o nosso querido Marcelo Tas, começa seu livro "Hackeando sua carreira: como ser relevante num mundo em constante transformação/Marcelo Tas. - São Paulo: Planeta do Brasil, 2024, 240 p".  

O livro se propõe a ser uma mexerica. Isso mesmo! Uma Mexerica Thinking! Uma fruta de saberes e experiências, na qual você pode, de forma aleatória e sem prejuízo, consumir (ler) qualquer gomo (capítulo) da obra. Ao longo do livro, Marcelo conta suas diversas experiências profissionais e compartilha aprendizados importantes como esse que aprendeu na engenharia: "todo problema pode ser fatiado em pedaços. É um jeito especialmente eficiente de lidar com os problemas da nossa era, que são cabeludos. A engenharia é a ciência de fatiar um problema em pedaços que caibam dentro da boca, como faz o chef japonês com o atum na hora do sushi".  

Marcelo Tas teve muitos pontos a ligar. Frequentou a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, submetendo-se a disciplina militar; estudou engenharia na Poli; estudou teatro no CPT com Antunes Filho; participou do início da cena audiovisual no Brasil, nos anos 80; criou o inesquecível personagem Ernesto Varela; trabalhou no Vídeo Show da Rede Globo; estudou na escola de cinema da NYU, em Nova York; participou do Rá Tim Bum da TV Cultura; ajudou a lançar e desenvolver o Telecurso 2000; apresentou o famoso CQC -Custe o que Custar na Band, a partir de 2008 e, como se não bastasse, sucedeu o saudoso Antonio Abujamra, no programa "Provocações", que foi repaginado e virou "Provoca". Tas é um multi-artista que parece não ter medo de se arriscar.  

Assim como Steve Jobs discursou em 2005, na Formatura dos alunos da Universidade de Stanford, Marcelo Tas, depois dos 60 anos, olhou para trás, examinou sua trajetória profissional e ligou os pontos. Ele concluiu que todas as experiências pelas quais passou, desde o início da carreira militar e seu curso de engenharia, foram úteis e o ajudaram a fazer as coisas que fez na televisão e na sua carreira de comunicador. Todas as experiências foram tijolos, argamassa, parafusos e cimento na construção da sua carreira profissional. Exemplo: o curso de artes na NYU o ajudou, depois, a criar conteúdos e organizar os programas da TV Cultura. 

Nascido em 1959, Tas viveu uma infância rural em Ituverava; mas, desde criança, era obcecado pelo rádio. Ganhou um radinho de pilha de Natal, que pegava AM, FM e ondas curtas e era fascinado pelos programas de rádio que chegavam ao seu ouvido curioso, principalmente a noite, quando era possível ouvir emissoras do Brasil inteiro, devido a um fenômeno na ionosfera. Ouvindo rádio, sua consciência do mundo se ampliou e, chegando perto dos 18 anos, viu na Escola Preparatória de Cadetes uma oportunidade de sair de casa. Mas sua alma inquieta não cabia dentro dos muros da instituição militar e, assim, Tas, decidiu sair da Academia e mudar-se para São Paulo para prestar vestibular e cursar engenharia na Poli. Ali, foi um peixe fora d'água, mas fez uma poesia que saiu no jornalzinho da escola, ganhou confiança, começou a olhar novas oportunidades e entrou na Escola de Comunicação e Artes (ECA), ao mesmo tempo que fazia curso de teatro. Logo depois se juntou à turma da Olhar Eletrônico Vídeo (onde se aproximou de Fernando Meirelles), que fazia vídeos caseiros e artesanais no início dos anos 80. Aí um novo mundo se abriu. Esse gomo da mexerica é chamado "Encruzilhadas". 

Sendo um profissional da área de comunicações e um baby boomer, isto é, tendo passado por todas as inovações tecnológicas desde os anos 60 até os dias de hoje, Marcelo Tas ainda nos brinda com reflexões importantes, como a de que a criatividade nasce da escassez, da falta de recursos mesmo, quando é necessário botar a cachola pra funcionar. Mas a criatividade só aparece quando você está num ambiente em que se sente confortável, um peixe dentro d'água. Aí é só acrescentar o bom humor e não ter medo de errar.

É muito original sua concepção sobre o viés. Num mundo de informações fragmentadas, redes sociais e fake news, é grande a chance de, numa conversa em grupo, cada pessoa enxergar uma parte da realidade. Na comunicação digital isso acontece o tempo todo. E muitas pessoas só querem ver aquilo em que acreditam, só consomem aquilo, e ficam reféns do algoritmo. Antes de uma conversa que se pretenda produtiva é importante certificar-se de que todos estão vendo o mesmo problema. E ao entrar em uma conversa você precisa estar disposto a ouvir (capacidade rara hoje em dia) e a aprender. "Onde não há espaço para a dúvida, não há chance de aprendizado. Quem não está disponível para perder uma discussão nunca aprende coisas novas. Aí está o papel central da educação". Então é importante que cada pessoa tenha consciência do próprio viés e do viés do outro. É normal ter visões de mundo diferente. E acolher diversos pontos de vista, numa diagonal, amplia nossa percepção da realidade. 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Cuide do seu coração

Há 10 anos atrás tive um infarto agudo do miocárdio. Na época, eu tinha uma vida desregrada, aliada ao sedentarismo, má alimentação, maus hábitos e, ainda por cima, sem vigiar os pensamentos e os sentimentos. Esses eram fatores que eu podia controlar, mas fui negligente. Para piorar a situação, no trabalho, tinha um chefe tóxico que fazia assédio moral. Por mais que eu me esforçasse para entregar um bom trabalho, ele sempre me criticava de uma maneira dura e cruel, me rebaixando como profissional e, por tabela, como pessoa. Esse foi um fator externo, que adicionou um tremendo stress à minha vida.  

Então, um dia, depois de uma corrida no parque, voltei para casa, tomei banho, jantei e sentei no sofá para ver TV. Mas senti uma dor no peito, logo abaixo do pescoço e que se irradiava para os antebraços, uma coisa esquisita. Na ocasião, fui para a cama, deitei e fiquei quietinho por uns 30 minutos. A dor passou. Mas fiquei preocupado. Nunca tinha sentido aquilo antes, e eu tinha apenas 44 anos. Fiquei com aquilo na cabeça e pensei: "- Puxa vida! Já tenho mais de 40 anos e nunca fui a um cardiologista". Então marquei consulta e fui. Depois de vários exames, voltei no consultório e a médica cardiologista viu os exames. Achou tudo ok e estava quase me entregando de volta os exames e me despachando quando, subitamente, parou e disse: "Pera aí. Tem alguma coisa aqui". Ela vira um risquinho fora do padrão. Ela examinou, examinou... e depois disse: "Quero que você faça um Cintilografia do miocárdio com MIBI com esforço, e com contraste. Também quero que você faça o exame no HCor".   

Marquei o exame. A Cintilografia do miocárdio é um exame chato e demorado. Você faz umas caminhadas no laboratório e depois te examinam. Em seguida, te dão alguma coisa para comer e te examinam de novo. No final, tem o famoso teste da esteira ergométrica, em que você tem que correr, se esforçando bastante, enquanto os profissionais de saúde examinam seus batimentos cardíacos e sua situação no geral. Esse exame pode ser com ou sem contraste. Com contraste é pior porque você sente uma substância estranha entrando no seu corpo.

Bom... aí, o técnico disse que gostaria de ver a capacidade máxima do meu coração, que era para eu me esforçar bastante. Aí eu pensei: "Bom... já que estou fazendo esse exame dentro de um hospital, vou dar todo o gás que eu tenho". Comecei devagar, mas depois fui aumentando o ritmo e dei tudo de mim. Corri pra valer! Tanto que, depois de 10 minutos, já estava completamente exausto. E o técnico tinha dito que, quando o fôlego tivesse acabando e faltasse 1 minuto para eu terminar a corrida, eu tinha que avisá-lo. Assim fiz. Mas foi o minuto mais longo da minha vida.

Quando acabou o teste ergométrico eu suava em bicas, e suava frio. Tive sudorese e dores no peito, mas naquela hora, eu não sabia nomear o que eu tinha. Eu disse para o técnico que estava ali: "-Dr. Eu não estou legal". Ele disse para eu ficar parado. Mas a sensação era terrível e eu disse: "Dr. Não estou nada bem". Aí ele disse para eu deitar na maca. Parece que foi pior. A sudorese não parava e a dor no peito agora se irradiava para os braços, principalmente para o braço esquerdo. Chamaram socorro. Os enfermeiros não sabiam o que fazer. Mas o médico logo percebeu o que estava acontecendo. Fui levado para um procedimento. Fiz um cateterismo e descobriram uma artéria entupida. Aí tive que fazer uma angioplastia com colocação de stent, que é um procedimento para desentupir a artéria, colocando-se stent para deixar a artéria aberta e não entupir mais. 

Fiquei 7 dias internado no Hospital. Nesse período, descobri que quem cuida mesmo dos pacientes são os enfermeiros e as enfermeiras, pois os médicos só aparecem uma vez por dia. Sou muito grato a todos eles! Mas os médicos têm um papel fundamental também, pois são eles que leem e interpretam os exames e o estado geral do paciente, dando orientações. Quando recebi alta, veio um médico falar comigo. Ele disse que eu tive muita sorte por ter tido o infarto dentro do Hospital, pois se eu estivesse correndo no parque, provavelmente não teria dado tempo de eu chegar ao hospital com vida.  

Foi um susto! O infarto foi um tapa na cara! Nas semanas e meses que se seguiram, senti no fundo do meu ser que Deus tinha me dado uma segunda chance. Fiz um inventário de toda a minha vida, dos sucessos e dos tropeços, das coisas boas e ruins que eu tinha feito. Mas o mais importante: me espiritualizei. Fiquei mais agradecido. Acordava todas as manhãs, olhava para o céu e dizia: "- Obrigado, Senhor! Por mais um dia!". Fiquei me sentindo devedor e procurei, daí em diante, ser uma pessoa melhor. E, depois, disso, tive tantas coisas boas na minha vida. Viajei para lugares novos, fiz trabalho voluntário, aprendi a cozinhar e casei com uma mulher maravilhosa. 

O infarto funcionou como um chacoalhão, um despertar da consciência de que a vida é algo precioso, que deve ser cuidada. Aprendi algo básico que os homens negligenciam: aprendi a cuidar de mim mesmo. Portanto eu digo, a vida é um presente de Deus! A vida é preciosa! Não podemos desperdiçá-la. Cuide da sua saúde. Cuide de você. Deixe para trás os sentimentos negativos, como mágoa, raiva, rancor, tristeza e culpa. Faça esporte. Faça os exames periódicos. Controle o stress. Cuide de suas emoções. Cuide do seu coração.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A desmoralização do STF

O Supremo Tribunal Federal já foi uma instituição respeitável e confiável. Atualmente não é mais. Para tristeza dos operadores de Direito, como juízes, promotores, advogados e defensores públicos, o Supremo, apesar de constar formalmente como sendo o "guardião da Constituição", por exercer a jurisdição constitucional, julgar recursos extraordinários e ser a última instância do Poder Judiciário, cada vez mais vê sua imagem ser corroída e comprometida pelo comportamento de alguns dos seus membros e por decisões monocráticas altamente questionáveis.  

O STF é uma instituição antiga que merece ser respeitada e preservada, mas que deve ser aperfeiçoada, urgentemente, pois, de uma certa forma, degenerou. O tribunal foi instalado em 1891, logo após a proclamação da República. Passou pelos diversos períodos turbulentos e ditatoriais da História do Brasil, inclusive pelo Estado Novo (1937-1945) e pela Ditadura Militar (1964-1985), tendo sobrevivido até os dias atuais. Para quem quiser se aprofundar no tema, recomendo o livro "O Supremo Tribunal Federal e a construção da cidadania", da historiadora Emília Viotti da Costa. Pena que esse livro só avalie a Corte Suprema até a promulgação da Constituição de 1988. 

Aliás, um dos problemas da Constituição de 1988, que é a melhor que já tivemos, foi atribuir competências em demasia ao Supremo. Todavia, após a redemocratização, a sociedade brasileira constatou que a experiência do STF como tribunal penal não deu certo. Podemos dizer que o tribunal não é vocacionado à jurisdição penal. O primeiro teste maior foi com o julgamento do mensalão. O tribunal até passou no teste, mas com sérios arranhões. Houve discussões acaloradas entre seus membros transmitidas pela TV Justiça. Quem não se lembra do bate-boca entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes? Além disso, o julgamento se arrastou por meses, atrasando o julgamento dos demais processos na Corte Constitucional. Depois disso teve outros julgamentos altamente questionáveis.   

Em 2016, por exemplo, a decisão monocrática de Gilmar Mendes que impediu a posse de Lula como Ministro da Casa Civil causou perplexidade no meio jurídico. Em 2020, durante o recesso judiciário, Toffoli suspendeu investigações baseadas em dados do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sem compartilhamento detalhado, o que foi criticado como uma forma de enfraquecer órgãos de investigação. Em 2025, o Ministro Gilmar Mendes, relator da ADPF 1259, suspendeu trechos da Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950) que permitiam que “qualquer cidadão” denunciasse ministros ao Senado, determinando que somente a Procuradoria-Geral da República poderia fazê-lo. Depois voltou atrás. 

Pois bem, passado o julgamento da cúpula dos réus da tentativa de Golpe do 8 de janeiro de 2023, no qual Jair Bolsonaro e outros foram condenados, veio o Caso Master. O Banco Master é um daqueles casos de crescimento vertiginoso. O Banco surgiu em 2019 e, 5 anos depois, tinha crescido de forma extraordinária. O banco oferecia CDBs pagando 140% do CDI. Algo fora do comum e fora da razoabilidade. Em resumo, Daniel Vorcaro, dono do banco, optou por um modelo de crescimento acelerado, escolheu uma escalada rápida rumo ao "sucesso". Para tanto, Vorcaro aproximou-se do poder em Brasília; aproximou-se de figuras de destaque no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, como o governador do Distrito Federal, deputados federais e Ministros do STF. Vorcaro patrocinou eventos e deu festas nababescas em sua mansão em Brasília para atrair a simpatia dos poderosos e entrar para a corte do Reino Maravilhoso de Brasília. Tal aproximação foi amplamente noticiada pela imprensa, inclusive por meio do patrocínio de eventos e encontros sociais, o que suscita debate legítimo sobre promiscuidade institucional e conflitos de interesse.

O caso do banco Master acabou por solapar a credibilidade do STF nos dias que correm. Em 9 de dezembro de 2025, em um furo de reportagem, Malu Gaspar revelou no Jornal O Globo que o escritório de advocacia da esposa de um dos ministros, havia firmado um contrato milionário com o banco Master. Segundo o Estadão, "[c]onforme revelado pelo O Globo, a empresa firmou um contrato com o banco de Daniel Vorcaro que lhe garante R$ 3,6 milhões por mês entre 2024 e 2027. Caso o contrato tivesse sido cumprido integralmente, o escritório Barci de Moraes receberia R$ 129 milhões até o início de 2027". Tal fato não foi negado. 

A partir de dezembro de 2025, segundo notícias da grande mídia, (Estadão, Folha, o Globo), o Ministro Dias Toffoli e o TCU tomaram decisões que, na avaliação de analistas jurídicos, tiveram o potencial de impactar o ritmo e a condução das investigações sobre supostas fraudes envolvendo o Banco Master. Primeiro, Toffoli avocou o caso Master para o STF, sob a alegação de que Daniel Vorcaro negociou um imóvel com um deputado federal, sendo que o negócio era lateral e nem sequer chegou a ser concretizado. Portanto, a competência não é do Supremo. Detalhe: conforme noticiado pela imprensa, o ministro viajou para assistir à final da Libertadores em aeronave particular, acompanhado de um advogado ligado a um diretor do Banco Master. É óbvio que esse fato levantou questionamentos no debate público sobre a imparcialidade do Ministro. Em segundo lugar, Toffoli determinou uma acareação precoce entre Vorcaro, um ex-presidente do BRB, e um diretor do Banco Central. Não se determina acareação no começo das investigações. Em terceiro lugar, Toffoli, numa atitude incomum, decretou sigilo em grau elevado sobre o procedimento investigatório. Em quarto lugar, Toffoli criticou o trabalho da Polícia Federal, instituição que goza de elevado grau de credibilidade junto à sociedade. Em quinto lugar, Toffoli determinou que objetos, documentos e celulares dos investigados fossem lacrados e enviados diretamente para o STF. Tal decisão causou perplexidade, pois os objetos deveriam ser enviados diretamente para a Polícia Federal, que tem competência e expertise para desbloquear os celulares e extrair os dados. Depois de muitas críticas, Toffoli voltou atrás e determinou a remessa dos objetos apreendidos para a PGR; porém, numa atitude incomum, indicou os peritos que deveriam trabalhar no caso. Como se não bastasse, após tudo isso, em 16/01/2026, o Estadão, baseado em documentos, publicou matéria dizendo que "o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, é dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos e de um primo do ministro do STF Dias Toffoli no resort Tayayá, no Paraná". A partir daí, o que era somente a crise do Master virou também a crise do STF. 

O Ministro Edson Fachin interrompeu suas férias e voltou à Brasília para tentar apagar o incêndio. Não conseguiu. Ao final, soltou uma nota dizendo que "a Corte constitucional brasileira se pauta pela guarda da Constituição, pelo devido processo legal, pelo contraditório, e pela ampla defesa (...), atuando na regular supervisão judicial". Acrescentou que "o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito". Ora, a democracia não corre risco com o caso Master. E o direito de o cidadão e da imprensa de se indignarem com o atual estado de coisas, de manifestarem sua opinião e de criticar decisões do STF são direitos constitucionais totalmente legítimos em uma democracia. É só ler o artigo 5º da Constituição Federal que traz os direitos e garantias fundamentais. 

Em conclusão podemos dizer que, segundo se lê nos jornais, parece que as elites financeira, empresarial, governamental e judicial fazem parte de um esquema onde ocorrem negócios nebulosos e acordos pelas costas do povo, acordos celebrados em resorts e em seminários jurídicos em Portugal. Há uma troca de favores, conversas não republicanas no nosso capitalismo de compadrio. A corrupção está entranhada nos poderes da República e no meio empresarial. Há uma perpetuação dos modos antigos de fazer política, misturando o público e o privado em uma ação entre amigos. Tudo isso já foi magistralmente descrito e explicado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda no seu clássico livro Raízes do Brasil. Infelizmente o Brasil ainda é o país das manobras para que tudo continue como está, mantendo-se a impunidade para os amigos do Rei, os amigos da Corte e os amigos dos amigos.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Papa Francisco

"A paz se encontra apenas no momento presente. O passado já foi, o futuro ainda não veio. Deus está no agora". "A pressa e o barulho sufocam a alma. É preciso aprender a arte do silêncio interior". "Deus age conosco, não sem nós. A graça precisa da nossa colaboração". "O primeiro a pedir desculpas é o mais valente. O primeiro a perdoar é o mais forte. E o primeiro a esquecer é o mais feliz". "Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo, nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria". Foram tantas as frases memoráveis do papa Francisco postadas por milhares de pessoas, nas redes sociais, quando da sua morte, que poderíamos ficar aqui o dia inteiro. O mundo ficou comovido naquele dia 20 de abril de 2025, um dia antes de sua morte, quando, já bastante debilitado, Francisco fez um esforço físico tremendo, contrariando seu médico, para ir ao encontro do povo na Praça de São Pedro, para a benção Urbi et Orbe

Um papa profundamente humano, que abriu as portas da Igreja, merecia e precisava de uma biografia à altura. Só não se esperava que essa biografia Esperança: a autobiografia / Papa Francisco, com Carlo Musso. 1ª ed. - São Paulo: Fontanar, 2025, viesse dele próprio. Um papa que acolheu e propôs uma igreja cada vez mais acolhedora (e não julgadora), voltada para todos, mas especialmente para os pobres, os excluídos e os marginalizados, contou a sua história. O "cardeal do povo" como os argentinos o chamavam não mudou a doutrina da Igreja, mas mudou a prática e reinstalou uma Igreja acolhedora. Sem dúvida, uma das coisas mais extraordinárias que aconteceram na Igreja Católica nas últimas décadas foi a eleição do Papa Francisco. O primeiro papa não nascido na Europa (que sopro de renovação!), o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa que falou: "Chi sono io per giudicare?" (Quem sou eu para julgar?). 

O que emerge do livro é a vida de Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), contada de uma forma muito agradável, basicamente em ordem cronológica. Fica-se sabendo um pouco da história da imigração dos seus avós da Itália para a Argentina, a longa travessia, a chegada, a crise econômica, a família, os pais, os tios, os irmãos. Bem por isso, Bergoglio era muito solidário e sensível ao drama dos imigrantes em todo o mundo, questão candente nos dias atuais. O papa Francisco também gasta tinta para falar do seu horror às guerras e da estupidez dos generais e políticos que fazem as guerras. Não existe guerra boa, ele diz. A guerra só traz dor, destruição e morte. Os reis, os políticos e generais são egoístas, orgulhosos e disputam o poder. E o povo sofre; o povo vira bala de canhão para esses canalhas. Isso tudo emerge do livro, apenas numa linguagem mais moderada e reflexiva. 

A narrativa tem um tom sério, confessional, para ser um testemunho do seu tempo. Nota-se em Bergoglio um temperamento melancólico; é uma pessoa reflexiva, que pensa e medita nas coisas. É uma autobiografia sincera. Até seus defeitos e alguma eventual falta de atenção com pessoas queridas são narrados. Detentor de uma consciência moral muito forte, Bergoglio era capaz de ficar décadas com uma culpa ou remorso por uma pequena falha no passado em que não foi devidamente atencioso com outro ser humano. E, décadas depois, quando encontrava a pessoa, pedia perdão e tentava reparar o erro. Também mantinha contato com as pessoas que lhe foram caras ou tiveram significado na sua caminhada. Ele ligava, mandava cartas, procurava entrar em contato com as pessoas. Ele saía da casca. 

Por tudo, contudo e em tudo, a autobiografia do papa Francisco é um depoimento vivo em que o leitor consegue penetrar os pensamentos do pontífice, seus gostos, suas leituras, sua visão de mundo, o despertar da sua vocação, a vida no mosteiro e sua rica trajetória, que incluiu até um curso técnico em química. Se forem ler algum livro sobre o papa Francisco leiam esta autobiografia de um humilde jesuíta, de um cardeal argentino que foi eleito papa contra todas as suas expectativas. Vale a pena! Uma alma simples. Uma vida alegre, de serviço à Deus e ao próximo. Um cardeal que foi eleito papa por dizer a verdade: que a Igreja precisava sair de si mesma e ir ao encontro do povo. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Primeiro Leitor

Como leitor de uma vida inteira, sempre tive curiosidade de saber como funciona uma Editora, o que se passa lá dentro, quais as funções e os cargos nesse tipo de empresa, dedicado a editar livros. Será que eles leem todos os manuscritos que os candidatos a escritores enviam? Como é feita a escolha? Como nasce uma Editora? Quais são os desafios desse tipo de empresa? Luiz Scharwcz responde a algumas dessas perguntas na obra O primeiro leitor: Ensaio de memória/Luiz Schwarcz. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Mas não é um manual de como montar sua própria Editora. São memórias. Ele conta passagens da sua vida e do mundo dos livros.  

Luiz Schwarcz é um editor que não se gaba, nem se vangloria de seus feitos. Ele tem horror à vaidade e à autopromoção. Por vezes encontramos passagens em que ele diz que o mérito não é dele, que o trabalho é da equipe, dos escritores etc. Mas o fato é que a Companhia das Letras, editora que ele fundou há 39 anos está viva e funcionando até hoje, coisa rara no Brasil. Então algum mérito aquele rapaz do início da década de 80, aquele rapaz cujos ídolos eram Caio Graco Prado e Jorge Zahar tem. Sim, ele teve uma boa escola, chamada Brasiliense. 

Com efeito, Luiz Schwarcz descreve o início da sua vida profissional na Editora Brasiliense e como essa rica experiência o ajudou a angariar know how para tocar o dia a dia de uma Editora e, um tempo depois, fundar a sua própria. Aliás, Uma das coisas mais saborosas no livro é como surgiu a "Coleção Primeiros Passos" na Brasiliense (quem não se lembra?), a que depois se seguiu "Tudo é História", "Cantadas Literárias" e outras, transformando a Editora Brasiliense, no início da década de 80, em uma usina de ideias e de bons livros.  

Prestando atenção na leitura, fica-se sabendo que dentro de uma Editora existem várias figuras, cada qual com sua função: editor, produção gráfica, preparadores de texto, tradutores, capistas, diretor editorial etc. Na minha opinião, faltou falar um pouco dos bastidores e do intercâmbio desses vários departamentos dentro da editora. Também faltou falar do trabalho dos agentes literários, figura que não existia antigamente e que hoje passou a ser fundamental.  

O livro atendeu minhas expectativas em parte. Fica-se sabendo o início da sua vida profissional na Brasiliense e como era seu relacionamento com Caio Graco Prado; o início da FLIP (Feira Literária de Paraty) e a inveja dos editores do Rio de Janeiro; a fogueira de vaidades que é a Feira de Frankfurt, para onde editores do mundo inteiro se dirigem, levando seus egos enormes a tiracolo para comprar obras que ouviram falar bem, mas não leram; e alguns fatos curiosos do mundo editorial: um deles foi a longa luta para que o romance Ulysses, de James Joyce, fosse publicado nos Estados Unidos no anos 30, em uma época que vigorava uma forte censura por lá. Por outro lado,  ao contar seu relacionamento com autores da Companhia das Letras, muitas vezes de forma superficial, Schwarcz expõe desnecessariamente defeitos e idiossincrasias de autores que a casa abrigou sob o seu teto. 

Ruy Castro, Susan Sontag, Ruben Fonseca, Andrew Solomon, José Saramago e Milton Hatoum são apenas algumas estrelas literárias da Constelação que a Companhia já abrigou ou abriga no seu céu de letras. A proposta, desde o início, foi criar e manter uma editora de qualidade, uma editora de primeiro mundo, por assim dizer, que dignificasse a literatura, os escritores e respeitasse os leitores. Conseguiu. Hoje é referência.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

É preciso vigiar sobre nosso coração

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: "Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: 'Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda'. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!' Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado". 

                                                                                                (Lc 18, 9-14)

Sobre essa passagem, o Bispo Auxiliar de São Paulo, Dom Edilson de Souza Silva, a propósito do Evangelho de domingo, escreveu um belo comentário, que pedimos licença para transcrever: 

"Dois homens sobem ao Templo para rezar: um cobrador de impostos, que descendo ao profundo de si mesmo, com humildade e sem ostentar qualquer tipo de máscara diante de Deus, implora por misericórdia pelos seus pecados, e um fariseu, que sobe ao alto do seu ego inflado e, numa suposta ação graças a Deus, enaltece a si mesmo e suas pretensas virtudes, desprezando os demais. 

Mas, pode algo ficar oculto aos olhos de Deus? Obviamente que não, pois Ele conhece os corações e é justo no julgar. Ele acolhe a prece do cobrador de impostos, uma vez que "a prece do humilde atravessa as nuvens" (Eclo 35,21), ao passo que o fariseu não é justificado, porque "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (1Pd 5,5). 

Jesus afirma que "quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado" (Lc 18,14) e, à luz desta palavra, precisamos examinar nosso coração, pois, disse o Papa Francisco, que "para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio (Encíclica Dilexit nos, cap. I, n.6). Daí ser importante cultivar um coração puro, manso e humilde à semelhança do Coração de Jesus. 

Tanto o publicano quanto o fariseu vão ao Templo para rezar, mas os corações deles vão em direções diferentes: um reconhece a necessidade da graça e o outro se gaba de seus méritos, desprezando os que ele julga inferiores a si. Nós também corremos o perigo de cair na tentação do fariseu e desembocar no que o Papa Francisco chamou de "mundanismo espiritual", no qual se busca a glória humana e o próprio bem-estar no lugar da glória de Deus, "uma maneira sutil de procurar os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo (Fl 2,21)".  

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O maior vendedor do mundo

"Saudarei esse dia com amor no coração. Pois este é o maior segredo do êxito em todas as aventuras. Os músculos podem partir um escudo e até destruir a vida, mas apenas os poderes invisíveis do amor podem abrir os corações dos homens, e até dominar esta arte não serei mais que um mascate na feira. Farei do amor minha maior arma e ninguém que a enfrente poderá defender-se de sua força". É assim que começa o Pergaminho nº 2. Todas as gerações que leram o livro com o coração o trazem de cor. O autor estava profundamente inspirado quando o escreveu. Desde que li, virei fã de Og Mandino. Mas é bom avisar aos navegantes: trata-se de uma obra de autoajuda. E das melhores!

Og Mandino (1923-1996) foi um escritor estadunidense, que escreveu 17 livros. Presidiu a revista Success Unlimited até 1976, quando, aos 52 anos, chocou o setor ao renunciar à presidência para dedicar-se em tempo integral a escrever e dar palestras. Na época, não era comum fazer isso. Antes de chegar lá, porém, passou por maus bocados. Alcoólatra que quase chegou ao suicídio, conseguiu ficar sóbrio para se dedicar à escrever, tornando-se milionário ao publicar O maior vendedor do mundo. Tornou-se um dos autores mais inspiradores e bem sucedidos no segmento denominado auto-ajuda, principalmente com livros voltados para vendas. Ele era fã de Norman Vincent Peale, autor do livro O poder do pensamento positivo. Seus livros venderam milhões de cópias e foram traduzidos em diversos idiomas. Segundo a orelha do livro, Og Mandino integra o Hall da Fama do "National Speakers Association", nos Estados Unidos. 

O miolo do livro são 10 pergaminhos com instruções de como encarar a vida com amor, coragem e fé e ter uma postura mais positiva na sua vocação e no seu trabalho, sejam quais eles forem. O mérito do autor, além das mensagens de fé, esperança, com estímulos ao trabalho árduo e ao agradecimento, está em emoldurar esses 10 pergaminhos em uma história cristã muito tocante, envolvendo um rico mercador, que é o maior vendedor do mundo, um guardador de camelos, que quer subir na vida para ganhar o coração de sua amada e, por fim, a sagrada família no nascimento de Jesus em uma humilde estrebaria em Belém. É uma história que emociona. 

No primeiro pergaminho ele instrui cuidadosamente o leitor a ler os 9 seguintes da seguinte maneira: 1) ler cada pergaminho por 30 dias antes de passar para o seguinte; 2) ler o pergaminho 3 vezes ao dia, uma vez ao acordar, outra depois do almoço e a terceira antes de dormir. Algumas passagens são marcantes, de uma beleza incomum. Depois de 30 dias lendo o mesmo pergaminho, o leitor incorpora aquelas mensagens. Esse é o truque do livro. É que, segundo o autor, somos escravos dos nossos hábitos. E para se tornar uma pessoa melhor, é necessário trocar maus hábitos por bons hábitos. Daí essa repetição e esse ritual. 

É um livro que ajuda mais quem tem um propósito claro ou uma meta à sua frente, como arrumar emprego, passar em provas ou concursos, realizar um sonho etc. Me ajudou a passar no vestibular. Li pela primeira vez em 1989, quando eu estava estudando para passar no vestibular. Foi um livro que me cativou imensamente. Bebi de suas palavras como se fossem sagradas. Li os pergaminhos religiosamente, da forma como foi orientada, três vezes ao dia, por 30 dias cada pergaminho. Foi assim que eu comecei a saudar cada dia com amor no coração, a persistir até alcançar êxito e a aplicar outras lições ensinadas no livro.  

Mais de 30 anos depois, reli o livro e me emocionei novamente. É tocante. Vale a pena! Só que dessa segunda vez li o mesmo livro com olhos mais críticos. Apesar de já não me impressionar tanto e não concordar com 100% do conteúdo do livro, fiquei espantado com a beleza das frases e do conteúdo e concordei com uns 70% dos seus ensinamentos, que espremidos, resultam em uma vitamina que pode ser tomada todos os dias, com afirmações positivas para o indivíduo. 

Há nobres verdades, mas também há meias verdades. Por exemplo, no pergaminho que emula o leitor com a frase "Hoje serei senhor de minhas emoções", é bom que se diga que ninguém é dono das suas emoções. Todo mundo sente raiva, mas não são todos que saem esmurrando ou xingando os outros. Tem gente que sente a raiva, respira, conta até 10 ou até 100, e não reage imediatamente. Apenas vai embora e abandona aquele ambiente tóxico. É uma atitude mais saudável. Mas todos nós estamos sujeitos às emoções, que passam pelo nosso ser. Todo mundo sente alegria, tristeza, raiva, medo, gratidão, mágoa, etc. O que você faz com esses sentimentos é outra coisa. Eu diria que não controlamos as emoções, mas podemos controlar nosso comportamento. 

Consta da contracapa que esse livro "foi adquirido por companhias importantes como a Coca-Cola e a Volkswagen" para ser distribuído aos seus funcionários. Por esse prisma, algum sociólogo poderia dizer que se trata de doutrinação para aumentar a produtividade das empresas e gerar mais lucro. Pode até ser. Mas, inegavelmente, o livro pode ser visto como uma oportunidade de crescimento pessoal. Ou, simplesmente, para se tornar uma pessoa melhor. A receita é boa: aumentar a capacidade de amar a Deus e ao próximo, trabalhar com afinco, pensar positivo, não deixar a tristeza e o desânimo entrarem por muito tempo, não viver no passado nem no futuro, dando valor ao dia de hoje! E sentir gratidão por cada nascer do sol, por uma nova oportunidade de mostrarmos o nosso valor!

domingo, 22 de junho de 2025

Não diga que a canção está perdida

Raul Seixas devia estar contente, porque tinha um emprego, era considerado um cidadão respeitável, ganhava quatro mil cruzeiros por mês e tinha até conseguido comprar um corcel 73. Mas tudo isso era "Ouro de tolo", pois ele não estava feliz. Nessa encruzilhada da vida, Raul trabalhava como produtor da CBS, mas não estava plenamente realizado. Então, em 1973, influenciado pelo início de carreira do colega e músico Sérgio Sampaio, ele decidiu dar um passo que iria mudar a sua vida: pediu demissão da gravadora para seguir seu sonho: lançar-se como músico e cantor, na esperança de fazer sucesso no Brasil.

Foi uma aposta arriscada. Este é o "turning point" da biografia "Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida, Jotabê Medeiros. - I. ed. - São Paulo: Todavia, 2019". Oriundo de uma família de "classe média bem-posta", na Bahia, Raul Seixas era filho do Sr. Raul Varella, engenheiro da RFFSA e de dona Maria Eugênia. Tinha um irmão mais novo, Plínio e a família tinha uma propriedade rural de veraneio em Dias d'Ávila, a sessenta quilômetros de Salvador, local onde iam relaxar e passar fins de semana. Foi lá que Raul conviveu mais de perto com seu primo José Walter. Nas palavras do autor, "Zeva seria uma influência decisiva para a primeira consciência do mundo que Raul desenvolveria", ao dizer que a sociedade de consumo era uma engrenagem que não emancipava o homem, mas usava-o como mercadoria, "tirava-lhe a capacidade de autogestão, comercializava sua vontade, espoliava sua originalidade". Raul acrescentaria alguns itens a esse carrinho ideológico e faria uma obra estruturada em princípios humanistas e focada em contestar as convenções sociais. 

O que muita gente não sabe é que, antes de se lançar como artista e conquistar o público com "Ouro de tolo", Raul aceitou o convite de Evandro Ribeiro, na virada dos anos 60 para os 70, e foi produtor de música contratado pela gravadora CBS. Ele trabalhava de terno e gravata, carregava uma maleta 007, batia ponto e voltava para casa no fim do dia para junto de sua esposa, Edith e a filha Simone. Ou seja, nessa altura, Raul tinha uma vida de pacato cidadão, como assalariado. Foi com esse modo de vida que Raul ajudou a produzir a música considerada brega dos anos 70, tendo contribuído para o lançamento de muitos cantores, como Leno, José Roberto, Diana, José Ricardo e Odair José. Nessa época, Raul Seixas, que fazia parceria com Mauro Motta, aprendeu tudo sobre música. Segundo a biografia, a exemplo do que Phil Spector fazia, "Raul e Mauro se postavam em todas as fases de produção de um álbum": eram compositores, escolhiam o material, decidiam sobre arranjos, melodia, comandavam a gravação de estúdio e tocavam instrumentos.  

Raul Seixas encarnou a contestação, a rebeldia e a busca por novos caminhos na música, trilhando uma rota musical original, misturando rock e baião. Mas Raulzito não teria sido Raul Seixas, nem teria ficado tão famoso sem a parceria com Dom Paulete. O início da amizade dos dois é descrita de forma detalhada e vale a compra do livro. Na mesma época que Raul pede demissão da gravadora e decide se lançar como artista, ele conhece Paulo Coelho, na época apenas um cara obscuro, que escrevia textos com pretensão filosófica num jornal alternativo. A sintonia não foi imediata, mas vingou e rendeu uma das melhores parcerias da música brasileira. Não por acaso, os álbuns de maior maturidade de Raul foram Krig-ha bandolo (1973), Gita (1974) e Há 10 mil anos atrás (1976), ambos com a maioria das músicas em parceria com o mago. Ou seja, o auge musical de Raul se deu entre 1973 e 1976, mais ou menos. Pensando nisso, é uma ironia verificar que o auge da carreira de Raul tenha se dado durante os "Anos de Chumbo", o período mais violento do Regime Militar. Não por acaso, foi por isso que também se deu o início da separação dos dois parceiros e amigos, quando ambos foram intimados a depor no Dops. Depois de Raul ter sido liberado, Paulo Coelho ficou detido e foi torturado pela Polícia Política, fato que o marcou por toda a vida. A partir daí a amizade azedou do vinho para o vinagre. 

A biografia é uma viagem na vida e na carreira desse grande artista, chamado Raul Seixas (1945-1989). Um cometa que passou pela Terra e deixou o seu brilho. A biografia tem o mérito de analisar, de forma cronológica, a vida e os álbuns de Raul em detalhes, desde o álbum "Raulzito e Os Panteras" (1968) até "A panela do diabo" (1989), em parceria com Marcelo Nova. Mas, no geral, é mais uma biografia musical do que humana. Jotabê Medeiros analisa bastante as músicas e conta pouco do homem. Assim, a biografia toca pouco na questão do alcoolismo (hoje reconhecido como doença pela OMS), que corroeu Raul por dentro, causando estragos na sua vida pública e privada, até sua morte. Mesmo assim, é um livro que deve ser festejado, pois prima pela pesquisa aprofundada e toca em pontos delicados da vida de Raul, que talvez seriam omitidos por um fã mais apaixonado. Fica-se sabendo das mulheres de Raul Seixas: Edith Nadine Wisner, Glória Vaquer, Tania Menna Barreto, Ângela Maria de Affonso Costa (Kika) e Helena Coutinho (Lena), de suas pisadas na bola e separações. Todas as companheiras contribuíram, de alguma forma (até como compositoras), com as músicas e a produção artística de Raul.  

Daí ser interessante notar os paralelos entre as músicas e a vida pessoal do artista. Em 1974, quando Raul Seixas grava pela primeira vez "Medo da Chuva" e canta que "É pena que você pense que eu sou seu escravo dizendo que eu sou seu marido e não posso partir (...)", ele está muito influenciado pela doutrina mequetrefe do mago britânico Aleister Crowley, um obscuro escritor, adepto do ocultismo, que pregava o amor livre e a poligamia. Não por acaso, 1974 é o ano em que Edith, sua primeira mulher, já não suportando mais as aventuras extraconjugais do marido, regressou para os EUA com a filha Simone e nunca mais voltou. Já em 1979, quando Raul grava pela primeira vez "Diamante de mendigo" ele já é um cara que caiu, sofreu, que conheceu a ascensão e a queda nas paradas de sucesso e que teve duas esposas norte-americanas que o deixaram. Não é a toa que nessa última canção ele canta: "Eu tive que perder minha família para perceber o benefício que ela me proporcionava (...)" 

Por essas verdades nuas esculpidas nas letras, aliadas à melodias que não saem da cabeça, Raul se tornou uma lenda reverenciada por jovens, universitários, pedreiros, empregadas domésticas, garimpeiros e toda uma gama de trabalhadores do chamado "lumpem" proletariado. A veracidade que sai de suas músicas é uma coisa impressionante. E é isso que cativa. A música que Raul faz é de fácil assimilação. E é uma música em prol da liberdade do indivíduo, de poder escolher o seu caminho e assumir os seus tombos. E também é uma música de contestação do status quo, dos valores vigentes, das convenções sociais etc. Então é uma música que agrada muito o público jovem e as classes mais pobres e sofridas.    

A música de Raul Seixas não pode ser rotulada. Não é MPB, nem Tropicália, muito menos Bossa Nova, nem Jovem Guarda ou Rock dos anos 80, nem música brega. A música do Maluco Beleza fica numa encruzilhada que não pode ser definida; por isso ele é também considerado um outsider. O músico que não podia ser classificado também era pra lá de eclético. Como sintetiza parte do texto da orelha do livro "[e]m 44 anos de vida, Raul Seixas deixou 312 canções registradas como composições suas, trabalhando gêneros tão distintos quanto tango, country, baião, samba, acid rock, iê-iê-iê, marchinha, forró, folk, brega, xote, xaxado, balada". Não é para qualquer um. Tem que ser um baiano arretado, fã de Elvis Presley e com uma intuição genial para misturar rock com baião para dar conta do recado. 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Bill Gates, Paul Allen e a realização de um sonho

 
No início de sua autobiografia, Bill Gates conta que gostava de caminhar junto com um grupo de escoteiros desgarrados. Já era um indício do seu desejo de descobrir o próprio caminho, conforme ele conta quando se compenetrou em visualizar e escrever mentalmente um código de computador durante uma longa caminhada. Nascido e criado em Seattle, Bill Gates teve uma infância estimulante no seio de uma típica família de classe média americana. Estudou o ensino fundamental em uma escola pública. Devido ao seu alto desempenho, fez estudo médio em uma escola particular. Como não era bom nos esportes nem fortão, tentava se sobressair na selva da convivência escolar de adolescentes com seu jeito engraçado e falador, fazendo perguntas desconcertantes aos professores. Isso o ajudou até certa época, depois essa máscara de engraçadinho deixou de funcionar. À essa altura, porém, ele já descobrira o mundo dos computadores.

Seu pai, um advogado sério e sócio de um escritório no centro de Seattle, era habilidoso com as palavras, calmo e estrategista. Sua mãe era de uma família rica do Estado de Washington. A sociabilidade dos pais de Bill Gates (principalmente da mãe) mantinham a casa movimentada durante o ano todo, com recepções e jantares. Os pais eram trabalhadores, honestos e preocupados com a comunidade local, que ajudavam. A mãe nunca abandonou o trabalho voluntário. Além disso, muito antes do feminismo ganhar terreno, ela foi membro de conselho de grandes empresas de capital aberto. Na educação dos filhos, o pai era mais bondoso e liberal e a mãe, mais severa e rígida, exigindo resultados. Assim, fatalmente, na época da adolescência houve conflitos e Bill Gates virou rebelde. Resultado: os pais colocaram-no em uma terapia na qual, ao final, o terapeuta aconselhou os pais a pegarem mais leve com o filho, deixando-o escolher seu próprio caminho. Bill Gates também teve forte influência da avó materna, Gami, uma mulher progressista, moderna, e, ao mesmo temo, adepta da Ciência Cristã. Para Gates, era incompreensível como sua avó, sendo racional, culta e educada, relutava em entrar num hospital ou nunca recorresse a medicamentos modernos.

Filho do meio, Bill Gates era curioso e desenvolveu desde cedo o hábito da leitura; lia enciclopédia avidamente, queria saber sobre tudo e virou até assistente bibliotecário na escola. Gostava de ler, pesquisar e coletar informações. Falando assim, parece até que viraria cientista ou professor de universidade, mas a vida o encaminharia para o fabuloso negócios dos computadores pessoais, que teve início na década de 1970, mas chegou com força no mercado nos anos 80 e 90. A aproximação precoce com os computadores se deu por um golpe de sorte, quando a Lakeside, sua escola particular, resolveu comprar um PDP-10 para estimular os alunos. Além de Bill Gates, havia mais três aficcionados: Kent, Ric e Paul Allen.  

Esses 4 alunos, que mexiam todos os dias no computador da escola, logo começaram a entender de linguagem de programação e a visualizar aplicações práticas, como organizar a grade de horários da escola com um software. Daí para usar o computador de uma empresa grande de Seattle foi um pulo. Bill Gates nutria, desde cedo, a vontade de escrever um programa de computação que pudesse ser útil. Lakeside era uma escola preparatória para meninos oriundos de famílias ricas de Seattle. Lá, Bill Gates passou sua adolescência entre livros, professores exigentes e teve suas primeiras experiências com computação. Seu melhor amigo era Kent Evans, um menino obstinado que se empenhava ao máximo em todas as atividades e levava tudo ao limite, mas que acabou morrendo em uma escalada. Depois da morte de Kent, Gates retomou a amizade com Paul e Ric e, em seguida, estavam atrás de um microprocessador da Intel, inovação que iria mudar tudo. 

Em Harvard, Bill Gates nunca se encontrou, mas encontrou o único computador que havia na universidade, utilizando-o de maneira compulsiva nos espaços livres deixados pelos alunos mais velhos. Isso determinava uma rotina maluca, marcada por trocar a noite pelo dia. Bill Gates até aproveitou as muitas matérias que conseguia escolher, como matemática avançada, mas descobriu que, apesar de ser muito bom em matemática, não era bom o bastante. Então migrou para matemática aplicada, pois tinha uma aplicação variada e muito útil em diversos campos. Ao mesmo tempo, frequentava outras aulas. Até que alguns amigos que o conheciam melhor começaram a dizer: "Porque você não faz um curso de ciência da computação?". Ele não fez esse curso, se é que havia em meados dos anos 70. Ao invés disso, trancou a matrícula e voou para Albuquerque, no Novo México para trabalhar com desenvolvimento de softwares em parceria com a empresa MITS (Micro Instrumentation and Telemetry Systems), empresa fundada em 1969 que, além de kits eletrônicos, ficou famosa por criar o Altair 8800, um dos primeiros computadores pessoais, que é considerado um marco na história da informática pessoal. Em Albuquerque, Bill Gates e Paul Allen estabeleceram moradia, escritório, desenvolveram versões do Basic e assinaram contrato com a MITS. 

Nota-se que o livro "Código-fonte: como tudo começou" - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025, 372 pág.", foi escrito com sinceridade, mas é bom lembrar que se trata de uma autobiografia; portanto, com uma visão parcial dos acontecimentos. Advirta-se, igualmente, que a obra não retrata toda a vida do Bill Gates, mas somente até seus 28 anos. Assim, não há relatos sobre o seu casamento com Melinda Gates, nem sobre a fundação de ambos. O que fica da leitura é a paixão do empresário por computadores, mais especificamente sua obsessão em desenvolver softwares, sua capacidade de concentração ao realizar um trabalho, bem com a precocidade em criar sua própria empresa num ramo inovador.

Um dos capítulos mais interessantes é "Micro-soft" (com hífen), nome dado à empresa porque remete à ideia de microcomputadores em conjunto com softwares. Depois de usar e abusar do único computador de Harvard em 1975, Gates decide ir para Albuquerque, no Novo México trabalhar em associação com a empresa MITS, de Ed Roberts. Ele vai primeiro. Depois convida Paul Allen para se juntar. Em 1975, somente havia o início dos computadores de uso pessoal, que não serviam para muita coisa. Para ter utilidade, um computador precisava ter um bom software que lhe desse aplicações práticas. O livro conta que, nessa época, os computadores caíram no gosto da contracultura, sendo que os aficionados encaravam a nova tecnologia numa perspectiva de mudança social e livre circulação de ideias. Era uma época em que as pessoas faziam cópias piratas de softwares, por acreditarem que aquilo deveria ser compartilhado gratuitamente em prol da sociedade. 

Nas palavras de Bill Gates: "[e]m sintonia com a cultura hippie do mundo emergente do computador pessoal, havia um consenso de que todo software deveria ser gratuito. Os programas eram algo a ser copiado de um amigo, compartilhado abertamente ou mesmo roubado. (...) Já o equipamento físico, o hardware, era outra história. Era algo tangível. Ficava sobre sua mesa. Você podia ouvir o zumbido da ventoinha. Quando se encostava nele, sentia-se o calor da fonte de alimentação. (...) Em contraste, o software era algo virtual, pequenos fragmentos de informação armazenados numa fita magnética ou inscritos de modo indecifrável num rolo de papel. Era preciso um salto imaginativo para reconhecer que alguém passara milhares de horas projetando, escrevendo, depurando e se esfalfando para fazer um programa funcionar. E como este sempre havia sido gratuito, por que não o distribuir da mesma forma? Mas o que eu e Paul queríamos era montar uma empresa. Nossa convicção, consolidada em muitas conversas que avançavam pela madrugada, era que, à medida que os computadores pessoais ficassem cada vez mais baratos e fossem adotados em pequenos negócios e lares, haveria em consequência uma demanda quase ilimitada por programas de alta qualidade". Sem dúvida, Bill Gates abriu uma trilha num caminho que ainda não havia sido percorrido: criou uma empresa de softwares para computadores de uso pessoal. Uma mudança crucial dos últimos 50 anos. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Jorge Amado: uma biografia

"A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei", escreveu Jorge Amado no seu livro de memórias Navegação de cabotagem. O sentimento do escritor no final da vida era de gratidão. Afinal, foi um homem que realizou sua vocação de romancista. Jorge Amado nasceu em Itabuna, morou em Ilhéus, estudou em Salvador, começou a carreira de jornalista e escritor no Rio de Janeiro, onde morou, tendo retornado a Salvador depois dos 50 anos. Fora isso, ele viajou o mundo e escolheu Paris como sua segunda casa. A história de Jorge Amado é um pouco a história do século XX no Brasil, uma vez que ele nasceu em 1912 e faleceu em 2001, tendo passado por diversas fases históricas e políticas do nosso país, desde a Primeira República e o Tenentismo até o Golpe Militar de 1964 e a redemocratização, a partir de 1985. 

O livro Jorge Amado: Uma biografia: Joselia Aguiar, São Paulo: Todavia, 1ª ed, 2018, 640 páginas, é daqueles livros para você levar para a praia, numa viagem de férias. O livro é como um amigo de conversa agradável. Falar em amigos, Jorge Amado tinha muitos. Os amigos da Academia dos Rebeldes e depois, os amigos que angariou e conquistou ao longo da vida, entre eles, Érico Veríssimo, Raquel de Queiroz, Eduardo Portella, o poeta Pablo Neruda, Calasans Neto, Carybé, e muitos outros, jovens ou velhos. Recebia muita gente em sua casa, sendo que às vezes quando chegava de viagem, pedia para não anunciarem sua volta, para dar tempo de escrever.

Foi um dos escritores mais prolíficos do Brasil, tendo escrito por 62 anos, praticamente sem cessar, desde sua estreia, com o País do Carnaval (1930) até o livro de memórias Navegação de cabotagem (1992), passando pela fase de maior preocupação social, com Cacau, Suor, Jubiabá, Mar morto, Capitães da areia e os Subterrâneos da liberdade, até a segunda fase de sua obra, mais identificada com a brasilidade e o modo de ser do povo brasileiro, o cotidiano, a miscigenação, a sensualidade e a força da mulher. Seja numa fase ou outra, entretanto, seus personagens tinham os dois pés na realidade. Retratou jagunços, prostitutas, coronéis, lavradores, mães de santo, meninos de rua, cozinheiras etc. Jorge escreveu sobre o povo brasileiro, revelando para o mundo cores e sabores do Brasil.

Joselia Aguiar dedicou 7 anos para fazer a pesquisa e escrever a biografia do maior romancista brasileiro. Valeu a pena! Ao final do livro, a consulta às notas, fontes e bibliografia, dão conta do mergulho profundo no universo amadiano feito pela biógrafa, que entrevistou dezenas de pessoas para compor a obra, entre elas Alberto da Costa e Silva, Clara Charf, Eduardo Portella, Eric Nepomuceno, José Sarney, Paloma Amado, Stella Caymmi entre tantos outros. 

O resultado foi uma obra que consegue retratar diversas facetas do escritor. A infância em Ilhéus, a escola em Salvador, a família na Bahia, os pais, os irmãos, os amores. A atividade política e a militância no partido comunista, a prisão, as muitas viagens pelas Américas do Sul, Central e do Norte para divulgar suas obras. Posteriormente, as viagens para a Europa, principalmente Portugal e França. Em 1945, o romancista se apaixonou por uma mulher filha de anarquistas católicos, Zélia Gatai, sua companheira de toda a vida, com quem foi feliz e teve filhos e netos. Principalmente depois, de Gabriela cravo e canela, quando deixou a militância política, Jorge Amado tornou-se mais tranquilo e sóbrio. Não fugia de brigas, mas também não as alimentava, deixando críticos ferozes destilando veneno e falando sozinhos, como Otto Maria Carpeaux e Jacob Gorender.

Um dos capítulos mais significativos do livro, entretanto, chama-se "O desencanto", que descreve o desapontamento de Jorge Amado e outros intelectuais quando vieram a tona, em meados dos anos 1950, os expurgos, prisões, mortes e as atrocidades cometidas por Joseph Stálin, revelado ao mundo, afinal, um ditador cruel e desumano. Para quem acreditava no comunismo como força propulsora de um mundo melhor, mais justo e igualitário, foi como cair do cavalo. A decepção foi tão grande que Jorge ficou anos sem escrever. Ele viajou por diversos lugares e, quando retornou, seu primeiro romance foi Gabriela cravo e canela, inaugurando assim uma nova fase em sua literatura, onde Jorge se revelava mais solto, menos dogmático, menos preso à temática da luta de classes e da desigualdade, sendo que o humor estava mais presente. 

O que fica da leitura é um maior conhecimento do homem e sua obra. Jorge era uma pessoa expansiva, de muitos amigos, de gestos nobres e generosos. Era um homem de convicções, sem ser chato e sem querer impô-las aos outros. Sabia conversar e se dava tanto com pessoas de esquerda como com pessoas de direita. Num dia era capaz de almoçar com Oscar Niemayer e no outro dia com Antonio Carlos Magalhães. Também era um homem caseiro, que gostava de ficar com a família e escrevia na mesa da sala sem camisa ou com camisa aberta rodeado pelos netos, que brincavam pelo chão.

sábado, 4 de janeiro de 2025

O ar que me falta

Não sabia que Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, teve uma infância tão solitária e complicada. As histórias de família são surpreendentes e os problemas familiares ecoam, posteriormente, na vida adulta. Filho único, de André e Mirta, Luiz conta que o casamento dos seus pais não foi feliz. Ao lado de diferenças de personalidade e de gosto significativas, André queria mais filhos, objetivo não alcançado depois de inúmeros abortos espontâneos de Mirta. Ao mesmo tempo, o filho único foi depositário de altas expectativas da família, e teve (ou quis) assumir muitas responsabilidades, algumas impossíveis, como resgatar André do poço da tristeza e salvar o casamento dos seus pais.

Seu pai, André Schwarcz, quando contava com apenas dezenove anos, "sobreviveu fugindo do trem que o levava ao campo de extermínio de Bergen-Belsen", durante a Segunda Guerra Mundial. Numa cena dramática, que marcou a família para sempre, seu avô, Láios, que estava no mesmo vagão, gritou para André: "foge, meu filho, foge". O filho obedeceu; pulou do vagão, sobreviveu e ficou com uma culpa pelo resto da vida. Láios permaneceu no trem e nunca voltou do campo. 

"Láios foi visto ainda com vida quando os Aliados libertaram Bergen-Belsen, mas tão fraco que não podia mais andar ou se alimentar. Meu pai só veio a saber disso nos anos 1960, tendo ficado por mais de duas décadas imaginando como o pai dele morrera", conta o autor, que acrescenta: "Algumas dessas particularidades me serão contadas muitos anos depois. Para o que importa agora, basta dizer que minha mãe tentou me explicar, ainda durante a minha infância, a tristeza do meu pai - seus problemas para dormir, o barulho de suas pernas batendo na cama à noite. Aprendi o sentido da palavra 'culpa' desde muito jovem, como algo que fundava minha existência, algo que passava além dos olhos ou das pernas do meu pai. Sua culpa por ter sobrevivido a meu avô, de não o ter salvado ou acompanhado na morte, não permitia descanso, ou mesmo os bons sonhos que ele, junto com a minha mãe, me desejava toda noite à beira da cama. Meu pai provavelmente não dormia nem sonhava porque o passado voltava como vigília absoluta". 

Ao longo do livro O ar que me falta: história de uma curta infância e de uma longa depressão; Luiz Schwarcz - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2021, o leitor terá contato com relatos sobre a imigração dos judeus; a infância e adolescência do autor no bairro de Higienópolis, em São Paulo, assumindo responsabilidades desde cedo; os rituais judaicos; os episódios de bullying; o futebol como terapia, na posição de goleiro; a superação da timidez na colônia de férias da Congregação Israelita Paulista; o transtorno bipolar; sentimentos de raiva e culpa; rompantes agressivos e a busca por um tratamento. 

Luiz Schwarcz é, ao lado de Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga, o fundador da Companhia da Letras, renomada editora fundada em 1986, que publicou no Brasil livros famosos como Rumo à Estação Finlândia, Edmund Wilson; Boca do Inferno, Ana Miranda; Era dos extremos, Eric Hobsbawm e Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak, entre centenas de outros títulos extremamente bem cuidados e com excelentes traduções.

O ar que me falta é uma autobiografia de uma parte da vida do autor, mais focado nos problemas e dramas familiares. Para quem, como eu, gostaria de saber detalhes sobre a vida profissional de Luiz Schwarcz, as dificuldades e sucessos da editora Companhia das Letras, é um pouco decepcionante. Todavia, trata-se de um relato corajoso de um empresário de sucesso que não precisava, absolutamente, revelar detalhes de sua vida privada a ninguém, mas que quis trazer à tona feridas psicológicas da infância e da adolescência para seguir em frente, com certeza mais leve.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Coragem de pensar

LUZES DA CIDADE 

CORAGEM DE PENSAR 

Os amigos e as esperanças. Tudo que há de melhor. Mas chega o dia em que a gente precisa abandonar a lembrança de rostos antigos, para se sentir só, muito só, e se entregar ao deleite de pensar. Bem haja, na maturidade de cada um de nós, certo período de consentida solidão, como terapêutica para o espírito. É a maneira lógica de restabelecer as proporções que o mundanismo obsessivo distorce em nossa íntima escala de valores. 

- A solidão é como a chuva! - dizia Unamuno. - Faz brotar da alma algumas velhas sementes adormecidas. 

Há os que sabem amar os seus longos momentos de solidão, porque neles mesmos se retemperam. E há os mais numerosos, os desprovidos de mundo interior, os que se assustam diante de uma simples perspectiva de isolamento, os que necessitam da grande convivência social, porque aprenderam a existir apenas em função da exterioridade dos outros. São os bem-aventurados. Gilberto Amado, um gregário episódico, costuma dizer: - Certas pessoas têm a propriedade de nos interromper a boa solidão sem chegar a nos fazer companhia. 

E eis aí a essência do nosso modesto pensamento sobre os bons e os maus limites da convivência humana. É estranho, mas encontramos, na maturidade, uma cruel agudeza. Esta que nos revela, como sob as lentes de um microscópio, a frivolidade de certas pessoas. Homens e mulheres frívolos, os alcalóides da sociedade! Vale reter na memória este fragmento de Gustavo Corção, perfeitamente adequado ao desfecho da crônica: 

- "A moça bonita, quando sorri à toa, quando faz trejeitos de faceirice e fala sem propósito, parece uma flor da humanidade, um espetáculo estimulante, uma fonte de alegria. Na verdade, porém, sua futilidade é uma coisa lúgubre. Já observaram essas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto? Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade. 

O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo isso em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras do meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida. 

O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta-se um botão e ele diz 'bom dia' encarquilhando os músculos da face. Aperta-se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos". 

Estranhamente, confunde-se frivolidade com bom humor ou simpatia e convive-se com ela. Aos poucos essa doença nos vai consumindo o espírito, reduzindo nossa sensibilidade, entorpecendo o centro das nossas reações legítimas, até que um dia nos encontramos coletivizados pela mecanização das atitudes, dizendo todos as mesmas palavras convencionais e atribuindo valor a três ou quatro bezerros de ouro, esquecidos do infinito de possibilidades da mente sã. 

E então, no fim de uma noite, com muito champanha, viramos rinocerontes. 

Ah! Que Deus nos devolva, em tempo útil, o amor à benfazeja solidão. A perdida coragem de pensar!

(José Alberto Gueiros, texto publicado na Revista "O Cruzeiro", 1965)

domingo, 8 de dezembro de 2024

Lição de vida

 O dia mais belo? Hoje

A coisa mais fácil? Errar

O maior obstáculo? O medo

O maior erro? O abandono

A raiz de todos os males? O egoísmo

A distração mais bela? O trabalho

A pior derrota? O desânimo

A primeira necessidade? Comunicar-se

O que traz felicidade? Ser útil aos demais 

O maior mistério? A morte

O pior defeito? O mau-humor

A pessoa mais perigosa? A mentirosa

O pior sentimento? O rancor

O presente mais belo? O perdão

O mais imprescindível? O lar 

A rota mais rápida? O caminho certo

A sensação mais grata? A paz interior

A maior satisfação? O dever cumprido

A maior proteção efetiva? O sorriso

O que nos torna mais humanos e tolerantes? A dor

Os melhores professores? As crianças 

O maior remédio? O otimismo 

A força mais potente? A fé

As pessoas mais necessárias? Os pais

A mais bela de todas as coisas? O amor

(Madre Teresa de Calcutá)

sábado, 9 de novembro de 2024

Ainda estou aqui

Era uma família feliz. Moravam todos no Rio de Janeiro em uma casa em frente à praia. Em uma casa grande o suficiente para o casal e seus cinco filhos, quatro meninas e um menino, sendo que o caçula chama-se Marcelo Rubens Paiva, escritor já conhecido do público. Era uma casa afetiva, que recebia muitos amigos para almoços, festas, conversas e confraternizações. Mas a felicidade durou somente até o dia 20 de janeiro de 1971, quando a violência do Estado repressor adentrou as portar daquele lar. O chefe da família, marido de Eunice e pai da criançada, Rubens Paiva, foi levado para interrogatório, sem apresentação de mandado, por homens que se diziam da Aeronáutica. Ele nunca mais voltou. Rubens Paiva foi um dos 136 desaparecidos políticos do período do Regime Militar no Brasil (1964-1985).

O filme "Ainda estou aqui", de Walter Salles, baseado na obra literária homônima de Marcelo Rubens Paiva, conta o drama de uma família durante o período da Ditadura, cujo chefe da família é levado pelos militares e nunca mais retorna. Rubens Paiva tinha 41 anos quando foi preso em sua casa e conduzido coercitivamente. Sua mulher, Maria Lucrécia Eunice Facciolo Paiva, junto com uma das filhas, também foi levada para interrogatório e submetida a tortura. Mas ao final de prisão, sem direito a banho, foi solta. Sobreviveu, juntou os cacos da sua alma, reergueu-se, vendeu a casa do Rio de Janeiro e acabou de criar os cinco filhos. O filme é sobre essa mulher corajosa que teve que se reinventar depois do desaparecimento do marido. 

Suponho que Marcelo Rubens Paiva quis escrever essa história como uma terapia, para conseguir digerir a violência sofrida pela família e a história da mãe. As vezes o escritor escreve para purgar a dor, ou para entender o que se passou. Aqui ele escreveu a história de Eunice, sua mãe. Soube que, no livro, Marcelo escreveu a história em primeira pessoa, contando também detalhes sobre a vida da mãe e a doença de Alzheimer que a acometeu. Já no longa-metragem, a história é contada sob a perspectiva de Eunice Paiva. Em entrevista, Marcelo conta que, fora a atuação estupenda de Fernanda Torres, que ganhou vários prêmios ao redor do mundo,  a atuação de Selton Mello impressionou a ele a às suas irmãs, pois Selton, somente pela leitura do livro, soube captar a alma de seu pai, encarnando o engenheiro de uma forma muito realista.

Rubens Paiva foi deputado federal pelo PTB; todavia, com o Golpe Militar, foi cassado no dia 10 de abril de 1964, por força do Ato Institucional nº 1. A partir de 1966, já sem mandato parlamentar, começou a trabalhar em uma empresa de engenharia. Era, portanto, um profissional liberal. Não havia mais atividade política direta. De concreto, ele e mais meia dúzia de amigos, ajudavam exilados no Chile a se comunicar, por cartas, com seus familiares no Brasil.

O filme é excelente. A reconstituição de época é impressionantemente bem feita. Somos transportados para a década de 1970. As roupas, as casas, os carros, o jeito de ser... tudo! Trata-se de uma história pessoal de Walter Salles também, pois ele era amigo de uma das filhas de Eunice Paiva e frequentava aquela casa cheia de vida. A trilha sonora, inclusive, é bem interessante. Tem Tom Zé, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Gosta. 

O longa, depois de metade do filme, faz um corte. Depois de 25 anos, em 1996, o filme mostra Eunice e dois filhos indo para o Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, para buscar a certidão de óbito de Rubens Paiva.  Em pesquisa ao CPDOC da FGV, consta que José Gregório, chefe de gabinete do ministro da Justiça Nélson Jobim, declarou à imprensa, à época, "que o governo fez o 'mínimo que as famílias precisam e o máximo que os militares aceitariam'. Nesses termos o presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) assinou, em dezembro de 1995, a Lei 9.140, autorizando a emissão de atestados de óbito que regularizassem o estado civil das famílias dos desaparecidos, e o pagamento de indenizações". Ainda segundo o CPDOC, "[e]m 23 de fevereiro de 1996 a União expediu a certidão de óbito de Rubens Paiva, declarando-o desaparecido desde 1971. A família abriu mão do direito à indenização a ser paga pelo governo".  

Então o filme é sobre o desaparecimento de Rubens Paiva e sua família, mas, sobretudo, o longa é sobre Eunice Paiva e a força de uma mulher que ficou viúva de repente, com 5 filhos para criar.  Com o desaparecimento súbito do marido, o dinheiro secou. Ela teve que vender um terreno, despedir a empregada e mudar a família do Rio de Janeiro para São Paulo, para perto dos avós. Uma mudança prática, necessária, mas doída para os filhos. Ao mudar-se para São Paulo, Eunice Paiva cursou Direito e, depois de formada, foi uma das pioneiras a dedicar-se à defesa jurídica da causa indígena. Um feito notável. Após o término da sessão de cinema o público aplaudiu. Coisa raríssima de acontecer.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

A Casa Tody

Quando eu era criança minha mãe me levava pela mão em uma loja especial para comprar sapatos. Mas não era uma loja qualquer. Era o templo dos sapatos infantis. Era um lugar bem tradicional. Era uma sapataria no começo da Rua Augusta, em São Paulo. Minha mãe me levava na Casa Tody para comprar sapatos ortopédicos nos anos 70 e 80. Todo ano ou a cada dois, íamos lá para comprar os benditos sapatos ortopédicos (um terror para meus colegas de futebol na escola, porque rendia caneladas bem doídas). Era uma loja enorme, com pé direito alto, piso atapetado e paredes de madeira. Os clientes se sentavam nos bancos que haviam no centro da loja e dava pra ver centenas de caixas de sapatos, que ficavam em buracos nas paredes, desde o chão até o teto, bem ao estilo anos 70. Eu usava os tais sapatos ortopédicos porque tinha escoliose e uma perna mais curta que a outra. A loja vendia calçados infantis de couro clássico. Era um lugar sagrado e eu não sabia. Neste ano de 2024, fiquei sabendo pelos jornais que a loja fechou depois de 70 anos de bons serviços prestados. A loja foi comprada e vai virar um prédio. Me deu um enorme saudosismo, como se estivesse em uma cena de "Cinema Paradiso". Tudo muda. Nada é para sempre.

domingo, 13 de outubro de 2024

A História por meio dos filmes

A melhor maneira de estudar história é pelos livros. Isso não impede, todavia, de se complementar o estudo da história com filmes. Como cinéfilo, listei alguns filmes e documentários que assisti ao longo da vida. Os filmes listados, se não falam de fatos e/ou processos históricos propriamente ditos, remontam uma época histórica. E isso já vale a pena. 

A guerra do fogo - Jean-Jacques Annaud

Abraão - Joseph Sargent

Moisés - Roger Young

José - Roger Young

David e Betsabá - Henry King

Sansão e Dalila - Cecil B. DeMille

Troia - Wolfgang Petersen

Alexandre - Oliver Stone 

Gladiador - Ridley Scott  

Spartacus - Stanley Kubrick

Ben-Hur -William Wyler 


O Rei dos Reis - Nicholas Ray 

Ressurreição - Kevin Reynolds

Pedro - Giulio Base 

Cruzada - Ridley Scott  

El Cid - Anthony Mann

Irmão Sol, Irmã Lua - Franco Zeffirelli 

Robin Hood - Ridley Scott 

Coração Valente - Mel Gibson 

Joana D'Arc -Victor Fleming

O Nome da Rosa - Jean-Jacques Annaud

Elizabeth - A Era de Ouro - Shekhar Kapur

Lutero - Eric Till

Amadeus - Milos Forman

A missão - Rolland Joffé 

 

Tempo de glória - Edward Zwick  

Danton - o processo da revolução - Andrzej Vajda

Napoleão - Yves Simoneau 

O jovem Karl Marx - Raoul Peck

Criação - Jon Amiel  

Era uma vez no Oeste - Sergio Leone 

O último samurai - Edward Zwick

1917 - Sam Mendes

Carruagens de fogo - Hugh Hudson 

Tempos modernos - Charles Chaplin

O discurso do Rei - Tom Hooper  

Os intocáveis - Brian de Palma 


Círculo de fogo - Jean-Jacques Annaud

A lista de Schindler - Steven Spielberg  

O resgate do soldado Ryan - Steven Spielberg 

O pianista - Roman Polanski

Gandhi - Richard Attenborough

Xingu - Cao Hamburger

Todos os homens do presidente - Alan J. Pakula- 

Eles não usam black-tie - Leon Hirszman 

A Dama de Ferro - Phyllida Lloyd 

Diamante de sangue - Edward Zwick

The Post - Steven Spielberg 

Adeus Lenin - Wolfgang Becker

Mandela - luta pela liberdade - Bille August 

Cidade de Deus - Fernando Meirelles 

A rede social - David Fincher 

A grande virada - John Wells

 Dois papas - Fernando Meirelles 

sábado, 27 de julho de 2024

A indústria do cinema

Quando eu era adolescente e lia sobre cinema no Caderno2 do Estadão, nos anos 80 e 90, lembro dos artigos de Ruy Castro e outros colunistas relatando a vida de atores, como Marlon Brando, por exemplo, que eram rebeldes e não se dobravam à indústria do cinema. Histórias de atores que não topavam fazer um filme puramente comercial ou se vender para o sistema, como se dizia na época. Eu achava aquilo o máximo. Vibrava com a resistência de um só indivíduo à toda uma indústria que moía carne e espíritos para fazer dinheiro. Hoje isso já não é mais possível. Pois se antes a indústria do cinema poderia ser comparada a um Golias ou um Godzilla, que poderia ser derrotada, agora virou uma Matrix invencível que a tudo e a todos engole. 

Depois, com o tempo, fui descobrindo aos poucos o que significava aquela indústria. Já sabia que a indústria do cinema sacrificava a criatividade, a beleza e boas histórias em prol do lucro máximo. A história do cinema é demasiada longa e não é nossa intenção fazer um resumo aqui. Mas, de uns tempos pra cá (mais de uma década, pelo menos), venho me desiludindo com o cinema, que só lança filmes de super heróis, histórias da Marvel e sequências. Não tem mais filmes bons, criativos e surpreendentes como antigamente, como Era uma vez na AméricaO selvagem da motocicleta, Rocky - o lutador, Rain ManO nome da Rosa, Os intocáveis, Dança com lobos, Nada é para sempre, Os imperdoáveis etc. Parece que acabaram as boas histórias ou todos os bons roteiristas foram demitidos de Hollywood. Blockbusters sempre existiram, eu sei, mais isso não impedia de haver excelentes filmes, fossem eles independentes ou não. 

No livro Impérios da Comunicação (The Master Switch), Tim Wu conta como o fracasso de um filme (Portal do Paraíso, Michael Cimino) levou à derrocada da United Artists nos anos 80 e fez com que, para se proteger de falências, estúdios de Hollywood se unisse a outras mídias para se proteger e formar o que se convencionou chamar de conglomerado de mídia, salvaguardando-se de desastres financeiros por um lado, mas matando a sétima arte ao tirar-lhe oxigênio, coração, criatividade e sensibilidade artística. De lá para cá tudo piorou muito quando novas fusões da indústria cultural ocorreram. 

Tim Wu escreve: "A derrocada da United Artists no início dos anos 1980, seguida pelo segundo fechamento da indústria cinematográfica, representa mais um giro do Ciclo e o começo de uma nova ordem que dura até hoje. Foi o momento de triunfo de outro tipo de abordagem, que coincidiu com a emergência do conglomerado de mídia. Seu herói máximo foi um homem chamado Steven Ross, ex-agente funerário que inaugurou uma nova maneira de organizar a indústria de entretenimento. Diferente de uma empresa autossuficiente como a United Artists, a Warner Communications (hoje Time Warner Inc.) abrigava dezenas de mídias e diversas atividades sob o mesmo teto. Essa perspectiva se difundiria pelos anos 1980 e 1990, para se tornar dominante na organização industrial de cinema, músicas, revistas, jornais, publicação de livros - em todas as formas de conteúdo que já foram chamadas de "lazer". (...) O conglomerado é a forma organizacional dominante nas indústrias da informação do final do século XX e começo do XXI" E, se por um lado pode proporcional estabilidade e segurança financeira, por outro lado, o conglomerado pode sufocar a criatividade, apenas preocupado em maximizar os lucros. 

Tim Wu explica o fenômeno por trás do desenvolvimento da propriedade intelectual e da estratégia já conhecida das sequências de sucessos comprovados como Tubarão, O Exterminador do futuro e Rambo para fazer mais dinheiro: "Nos anos 80, começou a surgir outra variante dessa abordagem, em que os filmes podem ser considerados um sistema de cessão de um direito autoral subjacente. Nessa abordagem, todos os filmes estão ancorados a uma propriedade intelectual subjacente, em geral um personagem, seja cinematográfico ou extraído de uma revista em quadrinhos, como Batman ou de uma figura literária como Harry Potter. Dessa forma, o filme é ao mesmo tempo um produto em si mesmo e também, de fato, uma propaganda de noventa minutos dessa propriedade subjacente. O retorno não inclui apenas a receita da bilheteria como também a valorização da propriedade e das receitas associadas ao licenciamento - merchandising, lançamento de brinquedos ligados aos filmes e outros derivados". 

Nessa tranformação, o cinema perde muito como arte. O cinema, 100 anos depois da criação dos grandes estúdios, não consegue mais emocionar platéias, apenas fazer barulho com explosões, super-heróis e preocupado com o merchandising de seus produtos. A indústria cultural na área do cinema repete velhas fórmulas sob uma nova roupagem. Apenas mais do mesmo. Nada que pudesse causar espanto em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Privilegia-se a forma e a variedade de produtos em detrimento do conteúdo. Privilegia-se a segurança financeira em detrimento da criatividade artística e do conteúdo original. 

domingo, 28 de abril de 2024

A marcha para o oeste brasileira

 

O livro Brasília Kubitschek de Oliveira, Ronaldo Costa Couto, 6ª edição, rev. - Rio de Janeiro: Record, 2010 conta a história de como Brasília foi idealizada, concebida e construída. Também narra a vida do presidente que foi o responsável por colocá-la de pé: Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina/MG. Não é propriamente uma biografia de JK, mas traz informações sobre sua formação e trajetória política.

A cidade de Salvador, na Bahia, foi a primeira capital do Brasil, entre 1549 e 1763. Ainda era o Brasil Colônia. Naquele tempo, por conta da economia açucareira, o nordeste tinha grande destaque. Posteriormente, devido ao deslocamento do eixo do desenvolvimento do nordeste para o sudeste, o Rio de Janeiro passou a ser a capital do Brasil entre 1763 e 1960.

Mas o autor conta que a ideia de tirar a capital do Rio de Janeiro já vinha de longe; pelo menos desde a Inconfidência Mineira, sendo que "[n]os  planos da Conjuração, que não se completaram, estavam a Independência (só vinda em 1822), a República (só proclamada em 1889) e também a nova capital: a vila de São João Del Rei. Os inconfidentes, como se sabe, foram descobertos pelos portugueses, severamente punidos e o sonho de um Brasil mais independente, republicano, justo e solidário foi adiado.  

O tempo passou... Já no século XX, sob o período político que vai de Getúlio a Castello, pergunta-se: por que JK decidiu construir a capital do Brasil em pleno sertão goiano? Juscelino concordava com o diagnóstico do historiador Frei Vicente de Salvador, para quem a população brasileira mais parecia uma população de caranguejos, a andar somente pelo litoral, estando convicto da necessidade de uma marcha para oeste, de conquistar o sertão e povoar o centro do Brasil para levar o desenvolvimento para outras partes do território brasileiro. Na década de 1950, Goiás era um sertão rústico. 

Além disso, houve uma outra razão. Antes e depois do suicídio de Getúlio Vargas, a pressão política era tamanha no Rio de Janeiro, principalmente da imprensa e da UDN (extrema direita), que a governabilidade a partir do Rio, com os ataques políticos diários, passou a ser praticamente impossível. JK sabia disso e sabiamente transformou o projeto da mudança da capital como a metassíntese do seu governo. Lembremos que após a eleição de JK como presidente da República, houve uma tentativa de golpe para impedir a sua posse, que somente não se realizou graças a intervenção do general Lott, um legalista, então ministro da Guerra. Tancredo Neves conta que o suicídio de Getúlio Vargas teve como consequência a eleição do Juscelino e adiou o golpe de 1964. Mas o clima político-militar do Rio de Janeiro na década de 1950 era muito pesado e ameaçador. Juscelino sabia disso. A saída foi levar a capital para o planalto central, não só para dar condições de governabilidade, mas para cumprir a Constituição e desenvolver o Centro-Oeste.

De mais a mais, já havia um consenso que o Planalto Central era o ponto destinado à construção da nova capital. Conta-se que Dom Bosco, santo italiano que migrou para o Brasil e fundou a Congregação Salesiana, certa vez teve um sonho místico que anotou. O santo conta que foi arrebatado em sonho por anjos e viajou com eles sobrevoando a América Latina, onde via riquezas incomparáveis e, entre os paralelos 15 e 20 graus havia um leito muito largo e uma voz dizia: "Quando escavarem (...) aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel". Posteriormente, a Constituição de 1891 já previa a mudança da capital para o planalto central. Só não estabelecia prazo. E durante o governo de Getúlio Vargas, uma equipe de engenheiros e geólogos fez o estudo onde seria o melhor lugar para a construção e verificou-se que o local mais adequado, coincidentemente, seria entre os paralelos e os meridianos já anotados no sonho de Dom Bosco.

Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu em Diamantina/MG, em 1902. Filho de professora primária e de um caixeiro-viajante, foi um aluno aplicado na escola.  JK foi seminarista e telegrafista. Após muito estudo, passou na faculdade e formou-se em medicina. Em 1931 casa-se com Sarah Gomes de Lemos, de família abastada e filha de um deputado. Juscelino começa a exercer a medicina e depois entra para a política. Foi prefeito, deputado federal e governador, antes de ser eleito presidente da República. JK era muito alegre, festeiro, gentil e entusiasmado pela vida. Conta-se que JK dançava muito bem e era conhecido como um "pé de valsa". Além disso, era um homem realizador; aproveitava o tempo da melhor maneira possível para concretizar seus planos. 

O livro conta a epopeia que foi a construção de Brasília, que não tinha nada, nenhuma vila, mercearia, padaria, telefone, luz elétrica, água encanada, nada! Muito menos estradas, ministérios e aeroporto. Tudo teve que ser feito do zero. As dificuldades iniciais eram imensas. Contudo, também imenso era  entusiasmo de Juscelino com suas constantes viagens de avião Rio-Brasília,  para acompanhar e incentivar a construção da nova capital, com a direção pela Novacap. Ninguém faz nada sozinho. A obra dá conta disso e descreve a construção da capital pelos valorosos candangos (operários) e pela colaboração de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Affonso Heliodoro, Darcy Ribeiro, dentre muitos outros até, finalmente, a inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960.